4.4 Key findings from studies of scholars and practitioners (table 4)
4.4.1 Key findings from studies of scholars
“A câmera é um instrumento que ensina as pessoas a verem sem uma câmera”. Dorothea Lange
Estava frio e era quase inverno... Faltava menos de 16 horas para seu início oficial, ou seja, véspera de solstício invernal, com toda sua carga fria e úmida. Seja como for, era dia 21 de junho e a proposta para os alunos era simples, ou assim eu acreditava.
A partir de um blog sobre fotografia, cujo título, bastante sugestivo, “olhave”67 convida os interessados no tema a passear pelas inúmeras páginas, postagens, comentários etc., propus aos alunos o desafio de escolher uma dentre as diversas imagens ali presentes para então: descrevê-la, comentar as sensações e pensamentos que ela despertou e pensar em possíveis “planos de ataque”, propostas, idéias de futuras produções pessoais surgidas a partir da imagem selecionada e das demais imagens que ali foram vistas.
O porquê disso tudo? As escolhas são sempre mais do que parecem - e como fica clara para mim agora toda aquela história de ‘assumir a interferência do pesquisador’. Se não em outros, nesse caso, certamente, o pesquisador faz o tema. Cria, como um artista. O que numa pesquisa que tem como pano de fundo a arte, pode não ser um problema tão grande assim. Será?
Um comentário não me saia da cabeça: “Por que tu escolheste essas fotografias? Por que não colocaste fotografias abstratas, recortes, fragmentos de imagens, para que os alunos pudessem escolhê-los também?” Par de perguntas sucedido por silêncio desconfortável agora já quase tradicional. Silêncio por fora, é claro, pois a mente ‘turbilhava’ processando a resposta. “Não me ocorreu”, poderia ser uma delas. Outra: “Queria saber a reação dos alunos às imagens que eles efetivamente vêem no dia-a-dia. E sua relação com elas... Não acredito que mostrar fragmentos, recortes, abstrações, fosse o caso naquele momento”.
Segui adiante. E pensei: “Por que não perceber também suas reações diante de outros tipos de fotografias, talvez, para eles, menos convencionais?” Concordei comigo que era uma boa idéia. “Mas quais?”. Não queria ter de assumir a responsabilidade pelos critérios de seleção das imagens, queria que os alunos vasculhassem, por entre fotografias de artistas, fotografias outras além daquelas que costumam ver e decidissem, sozinhos, quais lhes faziam algum sentido, quais fotografias lhes instigavam...
Por esse motivo optei por levá-los ao laboratório de informática e convidá- los a visitarem o referido blog, criado por alguém que se interessa pela fotografia e
visitado tanto por profissionais quanto por amadores, tanto por fotógrafos jornalistas quanto por fotógrafos artistas e artistas contemporâneos que fazem uso da linguagem fotográfica, espaço em que esses diversos profissionais expõem suas imagens, discutem a seu respeito, relatam seus processos de criação e ainda comentam as imagens que para eles foram marcantes... “Por que não?”. A seleção das imagens, a partir desse agora relativamente amplo espectro de possibilidades, ficaria a cargo dos alunos.
Eram vinte e uma horas, estávamos no laboratório de informática, e ouvia- se o lento ruído dos lentos computadores que temos à disposição na escola. Silêncio, no mais. Pedi que seus comentários fossem feitos por escrito, convidando-os a navegarem pelas imagens cada um em seu próprio tempo, deixando-as fluírem no ritmo necessário para produzir seus efeitos em cada aluno.
Em intervalos, Daniel ria. Ria muito. Várias vezes. “Isso é arte?” questionava entre risadas, “Por que alguém fotografaria isso?”, em outro momento perguntava, a si mesmo, a mim e aos seus colegas, alternadamente, entre uma série de risos e outra. Entre outras imagens que provocaram, por vezes, seu desconforto, seu constrangimento, seu estranhamento, figurava uma fotografia de Lartigue, e não pude deixar de perceber que a fotografia data de quase um século.
Um sem-sentido repleto de significados outros. A fotografia como arte contemporânea para ele não faz sentido. A fotografia como arte ou fotografia moderna também não faz. Provocou em Daniel, talvez, o mesmo estranhamento e indignação que tenha provocado aos seus espectadores em 1919. A visita ao banheiro é um momento privativo, não figurando entre os momentos do cotidiano em geral considerados fotografáveis.
Daniel não foi o único a achar tudo aquilo meio estranho, meio bizarro. Andréia comentou que algumas fotografias eram esquisitas. Patrícia achou muitas delas feias. Apenas Joca, seu Joca, reagiu aos comentários defendendo as fotografias e repreendeu os colegas por suas reações.
Contudo, subjaz em seu comportamento, muito provavelmente, a reflexão: “Não sejam imaturos e se permitam vivenciar a experiência de ver essas fotografias, ainda que, também para mim, não façam muito sentido. Mas, se a professora nos pede para olharmos para isso, ela deve ter uma razão”. Essa, é claro, é minha percepção sobre a situação, mas garanto que não se distancia tanto da percepção de Joca naquele momento.
O que despertou a curiosidade de Joca foi uma imagem que mostrava o interior de uma galeria, um amplo corredor com diversas fotografias expostas nas paredes e diversos grupos de pessoas movimentando-se por entre ele, algumas a contemplarem as imagens, outras apenas conversando. “Isso é uma exposição?”, indagou. Sim, seu Joca, é uma exposição, respondi, lamentando profundamente não ter podido levar seu Joca, 67 anos e distante apenas poucas semanas de finalmente concluir o ensino fundamental, a conhecer ao vivo uma exposição.
Pouco a pouco os alunos foram encontrando, entre o conjunto variado de imagens ali dispostas, uma fotografia que se sentissem seguros de comentar. Bárbara, entre as primeiras que seleciona uma imagem, escolheu esta:
Figura 27: Autor desconhecido, sem data
“É uma fotografia antiga, professora. Gosto de fotografias antigas”. E por que não? Penso em Rosangela Rennó, em como a artista, mais do que tirar fotografias, apropria-se de fotografias feitas por outros. A respeito do trabalho da artista, comenta Pedrosa:
Rosangela Rennó vem especulando de forma crítica e poética sobre o arquivo desde o final dos anos 80. Seu interesse reside naquela manifestação tão especial quanto mundana, a meio caminho entre as palavras e as coisas, comum à alta e à baixa culturas: a fotografia. Porém Rosângela é uma fotógrafa que (quase) não fotografa, uma atitude que parece se fundar na constatação do excesso de imagens que a todo segundo inundam o mundo (PEDROSA, 2002, p.1)68.
A artista se move por entre fotografias abandonadas, perdidas, esquecidas, por entre álbuns de fotografias domésticas, por entre fotografias de penitenciárias, dialogando com o retrato e o auto-retrato, com o reconhecimento e o esquecimento, com o documento e a ficção. As imagens que compõem o universo de trabalho da artista muitas vezes se assemelham às fotografias existentes no universo
68 Escrito por Adriano Pedrosa (curador), por ocasião da exposição da artista no Museu de Arte da
dos alunos, guardadas em caixas e álbuns antigos, talvez no fundo de uma gaveta, em suas casas.
Em relação à imagem, Bárbara escreve:
Fotografia muito antiga. Uma mulher com vestido na altura do tornozelo, usando óculos de sol, cabelos negros e curtos, aparência jovem entre 20 e 30 anos, sentada em um carro antigo em uma estrada, rodeada por árvores e um campo enorme totalmente deserto. Essa fotografia me faz lembrar dos meus avós, das fotos antigas que eles têm guardadas em casa com pessoas que têm aparência tão diferente da que temos hoje. Me traz certa preocupação porque parece que naquela época tudo era diferente, as pessoas eram menos preocupadas/estressadas, (tinha) menos violência. Ao menos é o que parece.
Bárbara imagina, então, reunir diversas fotografias antigas que possui em sua casa e compor com elas, algo novo. Fotografias de família, de quando seus avós eram crianças, um tempo que desconhece e que apesar disso parece provocar-lhe uma sensação de nostalgia. Pretende revisitar, também, suas próprias fotografias infantis, estabelecendo diálogos entre esses diferentes tempos, diferentes ritmos de vida possíveis.
Carlos escolhe uma das fotografias que compõe o ensaio Seca, de 2009, de Daniel Marenco69. Dois aspectos diferentes são alegados pelo aluno como motivos para determinar sua escolha: o ambiente escolhido para a tomada da fotografia e o fato de que a fotografia capta um homem no instante em que esse salta um córrego.
Sobre a fotografia, Carlos escreve:
O que chamou minha atenção foi a hora que o homem está pulando. Eu vejo um riacho um mato baixo e uma árvore, o céu está nublado e a cor verde. Céu cinza, a forma está meio que de lado, no fundo tem um morro e tem uma parte do céu que está azul. Sensação que eu queria estar ali, alegre, vendo que de repente ele fez aquilo para tirar a foto. A impressão que dá é que bem na hora que ele foi pular o riacho, Daniel tirou a foto. Meu motivo é o lugar onde está, o dia, o clima.
69
O fotógrafo nasceu em Porto Alegre (RS), 1980. Formado em jornalismo, trabalha como repórter fotográfico. Vencedor do prêmio 7º Concurso Cultural Leica Fotografe Melhor (2009), na categoria ensaio, finalista do Prêmio Esso (2009). Indicado como fotógrafo revelação do prêmio O Melhor da Fotografia 09/10 e foi selecionado para a leitura de portfólio do PhotoEspaña em São Paulo. Disponível em: <http://www.olhave.com.br/perspectiva/?p=626>, acesso em: 20 de julho de 2011.
Figura 28: Daniel Marenco – ensaio “Seca”, 2009
A imagem o convida, portanto, a refletir sobre o momento da tomada da fotografia, não porque Carlos desejasse saber o desfecho do salto, mas porque a cena ali representada o instiga a questionar a intencionalidade do fotógrafo ao registrá-la. Daniel Marenco estava à espreita do instante decisivo e foi bem sucedido em registrá-lo ou ele deliberadamente fabricou, orquestrou esse instante? Carlos comenta que gostaria de haver testemunhado aquele instante, resolvendo o dilema entre o ‘isso foi’ e o ‘isso foi encenado’ que a fotografia o propôs.
Andréia seleciona uma imagem da série Desejo eremita, de Rodrigo Braga70. A respeito da imagem, a aluna comenta:
Imagem de Rodrigo Braga. Vejo uma árvore petrificada. Uma árvore com o tronco coberto de pedras, somente os galhos sem estar coberto por as pedras. No meio do campo vazio sem nada, somente a grama e a árvore. Sensação curiosa, pois quem faria uma coisa dessas? Tenho a sensação de sufocamento, pois parece que a árvore está sufocada. A idéia que poderia ter é, de além de ser uma paisagem bonita, o trabalho da foto pra mim é de se eu fizer uma coisa diferente e curiosa, eu consiga fazer uma foto ou um trabalho com pintura bem diferente.
70 O artista nasceu em Manaus (1976). Radicado em Recife (PE), onde se graduou em Artes Plásticas
pela UFPE em 2002. Em 2004 foi contemplado com bolsa de pesquisa no 45o Salão de Artes Plásticas
de Pernambuco, realizando a série Fantasia de compensação e, em 2009, se dedica à Bolsa de Estímulo à Criação Artística – Fotografia, concedida pela Funarte. Realizou diversas exposições individuais e possui trabalhos em acervos particulares e institucionais no país e no exterior. Disponível em:
Andréia reconhece a beleza, a tranqüilidade da paisagem ali retratada, em que vemos um campo quase vazio, a não ser por uma árvore que aparece centralizada na imagem, o que a faz quase uma tradicional fotografia de paisagens. Algo ali presente, no entanto, a desconcerta: a árvore parece sufocada pelas pedras dispostas ao redor de seu tronco.
Figura 29: Rodrigo Braga, série “Desejo Eremita”, 2009.
Ao questionar-se sobre ‘quem faria uma coisa dessas?’ Andréia se admite curiosa, talvez, de fato, por não compreender ‘por que alguém faria algo semelhante’. Apesar de a fotografia causar-lhe estranhamento, provocando-lhe uma sensação até mesmo em parte desagradável, Andréia reconhece seu potencial artístico. A imagem então parece sugerir-lhe: “a arte pode não ser apenas bela, a arte pode ser algo mais, pode pretender ser algo mais”.
A partir dessa constatação, Andréia reconhece a possibilidade de acrescentar às suas intenções criativas o desejo de elaborar algo não só belo, como interessante e diferente. Sua teoria de arte parece ter acabado de se ajustar.