9. Knowledge mapping
9.3 Key activities and their knowledge bases
Nesta dissertação, pretendemos demonstrar como a Literatura é capaz de conceber cenas tão singulares como o aprisionamento de Raquel em um cemitério abandonado, do qual nos tornamos testemunhas pela leitura do conto “Venha Ver o Pôr do Sol”, e ao mesmo tempo, tão comuns, por se concretizarem na vida de mulheres do passado e do presente, já que a violência física contra a mulher é uma realidade antiga que ainda persiste nos nossos dias. No entanto, a narrativa ficcional traz à tona não só as agressões que ferem o corpo, mas também as ações e incursões, às vezes, imperceptíveis, que atingem a mente e passam a fazer parte da identidade feminina, como ocorre com Ana Luísa, em “O Espartilho”. Dessa forma, a Literatura nos mostra que a dominação masculina, instituída por uma velha tradição patriarcal que continua viva na atualidade, inscreve-se nas consciências e nos corpos dos sujeitos, sejam eles dominados ou dominantes, comandando seus atos e suas palavras. O texto literário tem mesmo esse poder de desvelar, nas suas minúcias, situações que fizeram ou ainda fazem parte do cotidiano de nossa sociedade. Foi em virtude dessa faculdade da narrativa de ficção que procuramos explicitar a relação entre Literatura e História, duas ciências que trabalham, cada uma do seu modo, com uma mesma matéria: tudo aquilo que constitui o mundo e a humanidade em constante estado de transformação.
Para compreendermos como se dá esse diálogo, iniciamos o presente trabalho com a enunciação da história da mulher, visto que ela, como sujeito inserido na sociedade, é a personagem principal da discussão desenvolvida ao longo desta pesquisa. Ao tratarmos dessa narrativa particular dentro dos estudos históricos, percebemos a necessidade de nos apoiarmos em uma teoria que abordasse a produção do discurso da História em geral, tendo em vista que a trajetória feminina no interior da sociedade, até bem pouco tempo, era desconhecida ou marcada por lacunas. Assim, o estudo desenvolvido por Paul Ricoeur (2010) foi de fundamental importância para entendermos porque, por exemplo, quase não se fala a respeito de mulheres que, ainda no Período Colonial do Brasil, participaram de movimentos como a Conjuração Baiana ou estiveram à frente de feitorias e capitanias, mesmo que temporariamente. Conforme constatamos, isso se deve ao fato de que, por muito tempo, a figura feminina se encontrou reclusa e, portanto, ausente de um imaginário coletivo que é essencial para a efetivação do discurso histórico. Ademais, a teoria de Ricoeur sobre uma “ficcionalização da história” e uma “historicização da ficção” contribuiu para que desenvolvêssemos nossas análises, inseridas no diálogo entre Literatura e História, graças à
sua aproximação dos pressupostos apresentados pela Teoria e Crítica Literária Feminista. Entre os frutos da TCLF, destacamos a formação de uma tradição literária feminina que tem como fundamento a investigação de como as escritoras-mulheres expressaram, em seus textos, as marcas deixadas pela sociedade de determinado tempo e espaço e que se fizeram imprimir sobre sua consciência. Daí, a importância de se observar o contexto histórico, social e cultural que envolve a produção literária de uma escritora como Lygia Fagundes Telles. Em relação a isso, apontamos para as vivências da Autora como índice de suas reflexões sobre as circunstâncias sociais. Tal perspectiva se expressa no excerto a seguir, retirado de uma entrevista da ficcionista:
No meu novo livro, Invenções e Memória, há uma cena que aconteceu de verdade com meus antepassados. O homem, quando ia trabalhar, prendia as tranças da mulher dentro de uma arca, dava um nó, fechava a tampa e levava a chave. A mulher ficava ali até que ele voltasse. Tinha comida, uma fruta, um bordado para fazer. Mas estava presa. [...] Então ele voltava, soltava a mulher e tudo continuava igual. Terrível! Também tive uma tia, Elzira, que morreu virgem e levou os versos no travesseirinho do caixão. Meu avô dizia que ela só escrevia besteira, que tinha a cabeça cheia de caraminholas. Um dia, se apaixonou por um médico, mas como ele era mulato, o casamento foi proibido. Para se matar, ela começou a colocar toalhas molhadas no peito até ficar tuberculosa. Morreu disso. Deixou escrito que queria ser enterrada com os versos. E assim foi feito. Ninguém nunca saberá como minha tia escrevia; seus poemas foram com ela no caixão. Então você veja que esse desprezo pela mulher, mesmo por aquela que sabia escrever, sempre foi muito grande (CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, 1998, p. 38).
O discurso de Lygia Fagundes Telles é de quem experienciou o sofrimento de mulheres que tiveram suas vidas usurpadas pelas amarras da dominação masculina. Por isso, como vimos pela análise dos contos que constituíram o objeto de nossa pesquisa, seus textos denunciam as estruturas de uma sociedade patriarcal alicerçada em padrões e valores que concorrem para dar ênfase a uma relação de assimetria entre os gêneros.
É justamente esse tom de denúncia que o leitor sente ao se deixar enredar pelas tramas de “A Confissão de Leontina” e “O Espartilho”. Ancorados nas teorizações de Pierre Bourdieu (2009), pudemos presenciar a formação de identidades femininas assinaladas pela atuação da família como instituição reprodutora de normas que afirmam a superioridade masculina. Assim, conhecemos uma mulher com um forte histórico de submissão diante dos homens que surgem em sua vida, apresentando sempre uma anulação de si mesma em favor das vontades do outro. Ao lado desta, encontramos a jovem Ana Luísa, que desde criança, ouve os preceitos de uma ordem patriarcal transmitidos pela avó, incorpora-os à sua vida, mas
quando chega à idade adulta, percebe que, na verdade, eles fazem parte de um ciclo de repressão do qual ela precisa se desvencilhar.
A tomada de consciência da protagonista de “O Espartilho”, que consegue perceber as forças da violência simbólica, não chega a produzir, no entanto, um comportamento transgressor. Raquel, por outro lado, assume a postura de mulher emancipada ao abandonar Ricardo para se juntar ao homem que julga ser melhor para a sua vida. A personagem feminina de “Venha Ver o Pôr do Sol”, portanto, transgride o “direito” de superioridade de seu ex-companheiro, que insiste em continuar o relacionamento, mas seu movimento de liberação é interrompido quando é acometida pela violência física que resulta em sua morte. Já em “Eu Era Mudo e Só”, vislumbramos uma representação do feminino que vai além da negação de uma hierarquia entre os gêneros e promove uma inversão dos papéis ocupados por homem e mulher no par dominador/dominado. Contudo, conforme se expôs na análise do conto, tal perspectiva não passa de um estratagema do “autor implícito” para atingir a percepção do leitor.
Voltando ao ponto de partida desta pesquisa: a relação entre Literatura e História, ou, por correspondência, entre ficção e realidade; salientamos que o nosso propósito não foi o de conceber os textos literários como reproduções diretas e exatas da sociedade, conforme nos sugerem René Wellek e Austin Warren (1998). Buscamos, antes, demonstrar como é possível traçar um percurso da trajetória da mulher, mesmo que simbólico, por meio da perscrutação das narrativas lygianas. Dessa forma, tendo em vista um processo de liberação do feminino, partimos de uma representação que vê como natural a determinação da mulher como ser inferior (Leontina); depois, deparamo-nos com uma personagem que compreende a necessidade de assumir uma outra identidade (Ana Luísa); em seguida, passamos a um modelo de feminino que realiza uma pseudotransgressão porque é vencido pelas estruturas, ainda persistentes, da dominação masculina (Raquel); e por fim, chegamos a uma idealização da mulher pouco provável na realidade, sendo desconstruída pelo próprio texto (Fernanda). Diante disso, terminamos por comprovar que a literatura lygiana possibilita-nos observar a progressão de um corpo dominado a um corpo dominante, mesmo que essa última representação do feminino fique restringida ao espaço ficcional.
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