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KBH Kunsthal kuratert av Jacob Fabricius (2005-2006)

No caso do Brasil, a crítica literária feminista institucionaliza-se em um período não muito diferente das outras áreas. Na década de 1980, ocorrem os primeiros encontros específicos. Em 1985, ocorre na Universidade Federal de Santa Catarina o primeiro seminário sobre a mulher na literatura e, em 1986, é criado o Grupo de Trabalho “A Mulher na Literatura”, da Associação Nacional de Pós-Graduação em

78Vicentini, “Mudar a referência para pensar a diferença”, p. 51. 79

Ver Franco, “Sentido e sensualidade: notas sobre a formação nacional”, Pratt, “Mulher, literatura e irmandade nacional; Segarra, “Feminismo y Crítica Postcolonial” e Araújo, “Proyeción y perfil de la crítica feminista del Caribe”.

80 Navarro, “O discurso crítico feminista na América Hispânica”. Nesse artigo, a ensaísta discorre a

Lingüística e Literatura que promove, além dos encontros bienais, o Seminário “Mulher & Literatura”, que congrega pesquisadoras e pesquisadores do país, além de participantes estrangeiros.

Contudo, é preciso destacar que o ensaísmo e a crítica literária feita por mulheres e sobre mulheres é anterior a essa institucionalização acadêmica. Como ressalta Heloísa Buarque de Hollanda, desde o final do século XIX houve uma preocupação, por parte das mulheres, de antologizar a sua produção, a fim de quebrar a “lógica do esquecimento” da série literária81, como foi citado no primeiro capítulo. Heloísa Buarque de Hollanda lembra ainda que a imprensa produzida por mulheres sempre mantinha seções de crítica literária, por vezes destacando-se o tema, como foi a série de artigos de Ana Autran, “A mulher e a literatura”, publicada no Diário da Bahia, em 1871.

Da mesma forma que nos outros países da América Latina, tal preocupação em se registrar a produção das mulheres de forma concomitante, ou resgatá-las no esquecimento, dá-se por conta da consciência de seu alijamento do cânone, naquele momento de formação dos estados-nação. Para Rita Terezinha Schmidt, o estabelecimento do cânone literário nacional, em especial no projeto romântico, trouxe marcas ideológicas de um “processo de elitização, branqueamento e patriarcalização da cultura”.82 Assim sendo, as escritoras foram desconsideradas e suas obras tipificadas como “não-sérias” para compor o cânone. A autora mostra como o discurso crítico da época atribuiu valores para certas obras, sob o ponto de vista de classe, raça e gênero. No artigo “Cultura e dominação”, ela exemplifica o processo com as críticas de Araripe Júnior, em relação à obra de Delia (pseudônimo de Maria Benedita Câmara Bormann). Segundo Schmidt, em suas críticas, Araripe Jr. demonstrava “dois pesos e duas medidas”, em relação a escritores e escritoras e, no caso de Delia, o que lhe perturbava não era a obra em si, mas o fato de ter sido escrito por uma “senhora”.83

Casos como esses demonstram a importância que a crítica literária feminista brasileira dedica ao resgate de escritoras, em especial do século XIX. A “virada historiográfica” da crítica, como lembra Rita Schmidt, por meio da recuperação de obras excluídas da historiografia literária, é fundamental para se questionar categorias teóricas

81Hollanda, “O que querem os dicionários”.

82Schmidt, “Cultura e dominação: o discurso crítico do século XIX”, p. 86. 83

e formadoras do próprio objeto canonizado sobre o qual se debruça a teoria e a crítica literárias:

Desnecessário dizer que o questionamento desse modelo implica uma revisão dos discursos críticos e seus pressupostos valorativos, já que são eles responsáveis, em última análise, pela manutenção de uma certa definição de literatura que garante a legitimidade de certas obras, não por coincidência as de autoria masculina. 84

E completa que muitos dos resultados desse trabalho de resgate aparecerão, a médio e a longo prazos, não só por conta do trabalho de edição e circulação dos textos, mas também pela própria formação do discurso crítico sobre essas obras. Posição com a qual Heloísa Buarque de Hollanda também concorda, pois para ela, esse resgate mostra como a história literária tradicional não “provê as categorias pelas quais as ações das mulheres possam ser satisfatoriamente descritas e, sobretudo, a necessidade de um questionamento profundo dos pressupostos desta historiografia, seus pontos de partida, métodos, categorias e periodizações.”85

Tais colocações justificam-se uma vez que esse perfil de resgate de escritoras “esquecidas” pelo cânone tem marcado a crítica literária feminista no Brasil, como ressaltaram as autoras acima citadas. Não obstante, ao longo desse percurso, outras tendências se consolidam. Em avaliações do campo, houve tentativas de classificação, sendo uma das mais notórias a de Heloísa Buarque de Hollanda, que identificou três vertentes principais: Literatura e Feminismo, que congregaria os projetos de resgate; Literatura e Feminino, voltado à identificação de uma escritura feminina, de modelo francês; e Literatura e Mulher, sendo essa última a mais significativa em termos numéricos, pois congregaria tanto as obras de escritoras quanto as imagens e a presença de mulheres na literatura em quaisquer obras.86 Como todas as classificações, elas suscitam discussões, que refletiriam o próprio estatuto teórico do campo. Um campo que está o tempo todo se auto-avaliando, como foi apontado anteriormente. Nem sempre estudos literários sobre a mulher na literatura são estudos feministas, se não estiverem comprometidos com o questionamento da hierarquização e a necessidade de mudanças. Também é discutida a categoria “gênero”, que poderia esvaziar justamente essa luta política do(s) feminismo(s).

84Schmidt, “A crítica feminista na mira da crítica”, p. 111. 85

Hollanda, “O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil”, p. 262.

86Hollanda, “A historiografia feminista: algumas questões de fundo”. Nadia Gotlib, em “A literatura feita

por mulheres no Brasil”, retoma a classificação de Heloisa B. de Hollanda e enfatiza a questão do objeto pela própria nomeação dos estudos: literários, da mulher, de gênero, dependendo do objetivo da pesquisa.

Simone Schmidt, por exemplo, observa que, no campo da crítica literária feminista, as “matriarcas”, como Elaine Showalter, Sandra Gilbert e Susan Gulbar, foram fundamentais para delimitar um território para as mulheres dentro da literatura, apesar das inúmeras críticas que sofreram, como a “guetificação” e a não-articulação devida entre o político e o estético. A partir dessas críticas, a expansão para os “estudos de gênero” deu-se também na crítica literária. Utilizando o conceito de narrador de Walter Benjamin, Simone Schmidt acredita no enfrentamento do paradoxo e do contato, entre o que está “dentro da casa das nossas precursoras (a radicalidade afirmativa da categoria ´mulher´, por exemplo) e o que está fora, o mundo das infinitas diferenças e possibilidades, no espaço aberto e pleno de significados potenciais das zonas de contato que as múltiplas intersecções do gênero nos oferecem, poderemos, tal como o narrador de Walter Benjamin, oferecer àqueles que nos cercam a riqueza de nossa experiência.”87

Existem inúmeros trabalhos de crítica literária sobre as mulheres, como escritoras ou personagens (não usando o termo “feminista” ou de “gênero” propositadamente), muitos deles centrados em obras específicas e, por vezes, evitando discussões teóricas, seja por opção ou não. Entretanto, há uma profunda revisão a respeito do estatuto e do campo teórico da crítica literária feminista. E um dos principais problemas é o relativo acanhamento de sua atuação. Maria Consuelo Cunha Campos questiona, por exemplo, a ausência dos estudos da mulher nos currículos das graduações dos cursos de Letras, uma vez que a produção de conhecimento na área ficaria restrita aos grupos e núcleos de pós-graduação.88

Essa resistência aos estudos de gênero no Brasil é analisada, em profundidade, por Rita Terezinha Schmidt, no já citado “Refutações ao feminismo”. Buscando compreender a posição marginal da crítica feminista no Brasil, tanto teórica quanto politicamente, a estudiosa ressalta a ausência dela nos currículos acadêmicos e nos livros sobre literatura escritos por brasileiros, mesmo que se adotem autores estrangeiros que a valorizam, como é o caso de Terry Eagleton e Jonathan Culler. Ela afirma que “a realidade é que, fora do círculo de suas praticantes, a crítica feminista nem sequer existe, e quando é mencionada é considerada com descrédito, muitas vezes com preconceito explícito, e freqüentemente com suspeita, como sendo mais uma teoria “de fora”.89 O descrédito é misto de desconhecimento com ressentimento. Tal

87Schmidt, Nas trilhas do tempo”, p. 459. 88Campos, “Gender e Literatura”, p. 135. 89

descrédito ou resistência, para Rita Terezinha, mostra o “receio da desestabilização de valores profundamente enraizados na nossa cultura a alta literatura é um deles , uma vez que a crítica feminista, na sua heterogeneidade epistemológica, participa do projeto ontológico de desmantelamento de reivindicações de autoridade e privilégio cultural/patriarcal cristalizadas em representações historicamente situadas.”90 Cita três exemplos de posicionamento de três críticos literários – Alfredo Bosi, Leyla Perrone- Moisés e Benjamin Abdala Jr. – que seriam exemplos de posições conservadoras em relação à questão da diferença, pois evocariam uma perspectiva “universalista” da literatura:

Na medida em que tomamos consciência de que o lócus enunciativo de muitos discursos que invocam o universal inscreve de forma acrítica uma noção particular do universal, isto é, aquela que foi historicamente declinada pela perspectiva de um processo hegemônico de imposição e de homogeneização de valores culturais e de implantação de um sistema de pensamento que tinha a presunção de se colocar como totalidade, a emergência de novos atores sociais e novas identidades historicamente excluídas do acesso à universalidade significa duas coisas: o colapso do lugar epistemológico de onde o sujeito universal pressupunha falar e o colapso da ficção de que esse era o único lugar viável de uma fala autorizada, isto é, legitimada do ponto de vista político, simbólico, institucional.91

Se o entendimento da resistência à crítica feminista pode ser compreendido pela ideologia patriarcal burguesa, tendo em vista as relações de dominação, a formação do campo intelectual e o conservadorismo do estudo das letras, Rita Schmidt aponta também motivações internas ao próprio campo feminista. Seria preciso, então, uma auto-avaliação. Ela aponta questões para se pensar a problemática. Em primeiro lugar, a freqüente dissociação entre a utilização da categoria gênero do projeto político- epistemológico dos feminismos, que buscam a intervenção social. Tal dissociação teria dois contextos: tornar o feminismo palatável, até para efeito de obtenção de financiamentos institucionais, e a confusão conceitual entre gênero e mulher, em que o primeiro termo perde seu alcance crítico, e torna-se sinônimo de estudos de uma suposta identidade feminina. Ela aponta os riscos dessa “confusão”, uma vez que “pode agregar uma política romanticizada e essencializada da diferença que acaba por reforçar e reescrever os binarismos e seus guetos, justamente o que o feminismo busca desarticular.”92

90Id., p.784. 91Id., p.788 92

Além disso, é preciso ultrapassar as leituras apenas descritivas, para além das leituras sociológicas, mas realizar um trabalho consistente de “crítica textual/histórica/antropológica/cultural, entendendo o cultural não como instância isolada, mas como lugar de práticas simbólicas onde ganham forma os mecanismos sociais que produzem sujeitos e subjetividades e que, portanto, está imbricado na organização e funcionamento material da sociedade.”93Para Schmidt, isolar a categoria de gênero de outras, termina por limitar as análises, ou circunscrevê-las a um pertencimento de classe, como se o objetivo dos feminismos fosse apenas alguns direitos obtidos por algumas mulheres. Por fim, apesar de salientar os desafios embutidos para exercer uma crítica literária feminista atuante, Rita Terezinha Schmidt sugere uma “política interpretativa sustentada por estratégias textuais que possam decodificar os regimes de verdade incrustados nos textos da cultura, deslocar suas hierarquias e abrir espaços para as diferenças”.94 Como pré-condições, seria preciso refinar as habilidades interpretativas e o exercício da imaginação criativa.

A crítica literária feminista tem produzido no Brasil, haja vista os inúmeros trabalhos apresentados em diversos encontros e programas de pós-graduação, mesmo espremida entre acusações que variam da dependência teórica dos centros produtores (Estados Unidos e Europa) à debilidade analítica de sua produção. Teóricas feministas brasileiras têm publicado sobre o assunto95, inclusive a respeito da resistência e limitações do campo literário.

Diante das colocações apresentadas em relação à crítica literária, incluindo a feminista, torna-se necessário recuperar algumas propostas dessa tese. Em primeiro lugar, é perceber como as escritoras contemporâneas posicionam-se e são posicionadas no campo literário, bem como diante das principais questões feministas. Para isso foram recordadas as condições para o exercício da literatura por parte das mulheres em relação aos principais elementos do sistema literário, na concepção teórica proposta. Também foi mostrado como o(s) feminismo(s) e sua vertente crítica são elementos de influência sobre o campo literário, pois como movimento social elenca temas e cria expectativas

93Id., ibid. 94Id., p. 795. 95

É importante destacar a Revista Estudos Feministas, Cadernos Pagu e as publicações da Editora Mulheres como principais espaços de discussão. Cláudia de Lima Costa destaca em artigo a necessidade de engajar-se na tradução a fim de teorizar no feminismo, enfatizando as mediações culturais e os aparatos materiais e discursivos dessas “transações de leituras”. Ver “As publicações feministas e a política transnacional de tradução”.

de produção e de leitura. E, como não poderia deixar de ser, encontra resistência e refutações nesse mesmo campo e seus diversos agentes.

Ao percorrer uma série de conceitos, foram escolhidos dois principais que orientam a pesquisa: o de gênero como representação, de Teresa de Lauretis, e o de gênero como serialidade, de Iris Young. No primeiro caso, pelo fato da concepção de gênero da autora enfatizar sua permanente construção pelas diversas tecnologias, entre elas a mídia, a família, a escola, o Estado, o feminismo e sua teoria e as práticas artísticas, como a literatura. E, no caso de Iris Young, pelo fato das escritoras, longe de constituírem um grupo, serem “serializadas” no gênero. Mesmo que não possuam atributos em comum ou não sejam “essencializadas” como mulheres, todas têm de lidar com as estruturas de gênero presentes na sociedade e na cultura. As escritoras, queiram ou não, dialogam com essa “serialidade”, seja por meio de estereótipos ou mesmo por conceitos elaborados do que seja escrever “como” mulher. Ou, ainda, pelo seu engajamento ou não a temáticas feministas.

No contexto da crítica literária feminista, essa tese não tem a pretensão de analisar os textos literários sob uma perspectiva essencialista, entendendo-os como “femininos”, mas perceber como as escritoras publicadas hoje pelas grandes editoras são “serializadas” como mulheres, e como seus romances e personagens reproduzem ou criam representações de gênero. Cada escritora faz opções temáticas e estilísticas que dialogam não só com as questões caras à teoria feminista, mas também com o seu próprio posicionamento diante do campo literário e da história da inserção das mulheres nesse mesmo sistema. O próximo capítulo detém-se sobre esse diálogo amplo, delineando o perfil de cada escritora no contexto literário contemporâneo e seu posicionamento diante das questões de gênero.

4. GÊNERO COMO REPRESENTAÇÃO NO ROMANCE DE AUTORIA