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Kapittel 3: Metodisk tilnærming

3.2 Kategorisering av distribusjon og verdiøkende tjenester

3.2.2 Kategorisering – verdiøkende tjenester

A investigação d'O desvio do peixe, da Cia. Artehúmus de Teatro aqui descrita, deu-se sob o prisma de seu processo de criação, isto é, a partir de seu planejamento, construção e execução, mobilizando, para tanto, o ferramental metodológico da “crítica genética”. Procurei considerar tudo aquilo que fez parte dos ensaios do coletivo: a relação entre seus integrantes; as escolhas estéticas feitas no “aqui-agora”; as hierarquias; as visões de mundo dos artistas; a metodologia empregada; as leituras feitas em conjunto; a confecção gradual das cenas; os problemas de percurso; a rotina; a efemeridade; os descartes; a elaboração das personagens; os bloqueios criativos; as dificuldades; as descobertas; os ajustes; as materialidades utilizadas; as parcerias com outros artistas; a mudança de espaço; os porquês; o acaso...

Inspirada principalmente pelos escritos de Cecília Almeida Salles acerca da “crítica genética” e da “crítica de processo” (2000; 2002; 2008; 2013; 2014), além de textos de outros pesquisadores relevantes na bibliografia especializada248, este capítulo

busca refletir sobre os procedimentos e estratagemas que a Artehúmus utilizou na criação de seu último trabalho, a fim de averiguar como seu espetáculo é fruto de um processo dinâmico, que se modifica com o tempo. Descrevo, portanto, o processo teatral do Grupo enquanto um fenômeno avesso ao desenrolar linear de um insight inicial dos(as) artistas envolvidos(as); o que implica, como ressalta Salles na epígrafe acima, em desmistificar a noção da obra de arte como um produto inefável do gênio artístico. Operando nesse sentido, o estudo genético problematiza “a visão do processo criador com um caminho da imperfeição para a perfeição, que estaria associada à satisfação plena da necessidade, trazida pelo encontro de uma forma perfeita” (SALLES, 2013, p. 39).

248 Neste sentido ver: Camargo (2012); Grésillon (2002); Hay (2002); Zular (2002) e Willemart (2002,

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O processo criativo de uma obra de arte costuma ser bastante complexo, pois, além de entrelaçar inúmeros elementos concernentes à própria natureza artística e estética, também se depara com questões aparentemente exteriores ao ato criativo, afinal, “o artista não é [...] um ser isolado, mas alguém inserido e afetado pelo seu tempo e seus contemporâneos” (SALLES, 2014, p. 45). Além das idas e vindas, dos recuos e avanços do espaço privado da sala de ensaio, os(as) integrantes do Grupo estão sempre engajados em um universo social específico, estabelecendo, portanto, diversos laços e trocas com seus pares e afetando-se pelos acordos interpessoais e parâmetros estéticos definidos e incorporados pelos próprios agentes do universo teatral. Isso tudo, inevitavelmente, transforma sua expressão artística e, não por outro motivo, cabe à “crítica genética” buscar “compreender como esse tempo e espaço, em que o artista está imerso, passam a pertencer à obra, em como a realidade externa penetra o mundo que a obra apresenta” (SALLES, 2014, p. 45). Em suma, a pesquisa genética procura englobar em sua análise todos os nós da rede criativa e também as conexões (sejam elas estritamente estéticas ou não) responsáveis pela inventividade artística.

É importante ressaltar que o interesse de uma “crítica de processo” não está em cada forma ou em um estágio específico da criação, mas sim na transformação de uma forma em outra, isto é, em como cada fase vai ganhando certos contornos e como cada interação (conversa com um amigo, filme, leitura, opinião de leitores particulares, aulas com mestres, ensaios, enquadramento em um edital específico, preocupação com a recepção crítica e outros tantos eventos imagináveis) é, muitas vezes, responsável pela escolha de determinados caminhos, ao invés de outros. Cada momento, se observado de modo isolado, perde seu poder heurístico, pois para descobrir as camadas mais potentes das criações em processo é preciso focar na complexidade das relações entre as partes, bem como “é necessário seguir a coreografia das mãos do artista, tentando compreender os passos e recolocá-los em seu ritmo original” (SALLES, p. 29, 2013). Assim torna-se possível (e necessário) sistematizar um objeto aparentemente fragmentário sem, contudo, perder a noção do todo.

Na cadeia contínua do percurso criador, está também a encenação entregue ao público; afinal, a “crítica genética” não faz uma separação entre processo e obra acabada e muito menos coloca esta última em segundo plano em sua análise. Segundo Salles:

A ênfase dada ao processo não é feita em detrimento da obra. Na verdade, só nos interessamos em estudar o processo de criação porque essa obra existe. Se o objeto de interesse é o movimento criador, este, necessariamente, inclui

148 o produto entregue ao público [...] O crítico utiliza-se do percurso da criação para desmontá-lo e, em seguida, pô-lo em ação novamente. Quando falamos em percurso, referimo-nos aos rastros deixados pelo artista e pelo cientista em seu caminhar em direção à obra entregue ao público. Essa arqueologia da criação tira esses materiais das gavetas e dos arquivos e coloca-os em movimento reativando a vida neles guardada. (SALLES, 2013, p. 23). Como se vê, não se trata de uma desvalorização da obra entregue ao público, mas de sua relativização como única forma possível de discussão. Ademais, se novas conexões acontecem a todo o tempo, o processo de criação é constantemente transformado e, assim, o espetáculo de teatro também é instável. Muitas vezes, um experimento cênico é finalizado para cumprir um prazo pré-estabelecido (em resposta a algum edital e/ou instituição, por exemplo), mas, caso o período de construção da obra fosse estendido, os artistas poderiam deparar-se com novas interferências que, muito provavelmente, modificariam algum aspecto de sua composição final. No caso de manifestações artísticas temporais como a música, a dança e o teatro, a inconstância da obra torna-se ainda mais evidente: como ela se refaz a cada dia e a cada nova apresentação, dificilmente pode ser realizada igualmente todas as vezes, afinal, são inúmeras as variáveis que modificam a obra ao sabor da hora (tais como a recepção do público e o estado dos intérpretes).

Para dar conta dessa rede complexa que envolve todas as etapas da gestação de uma obra de arte, os críticos genéticos aproximam-se dos processos criativos que estudam por meio dos “documentos de processo” (SALLES, 2013). Tais documentos podem ser rascunhos, roteiros, esboços, plantas, maquetes, copiões, ensaios, storyboards, cadernos, diários, anotações em livros, entrevistas concedidas, críticas e matérias de jornais guardadas pelos artistas, cartas etc. Ao conviver com essa infinidade de materiais, o pesquisador consegue aproximar-se da intricada trama de motivos que envolvem a experimentação artística e pode, assim, acompanhar mais de perto as turbulências da criação. É evidente que por mais documentos de processo que o crítico tenha acesso e por mais informações que os criadores lhes ofereçam, o processo integralmente sempre escapará de suas mãos, pois parte considerável da trilha percorrida pelos artistas não fica registrada. Ademais, resta sempre ao pesquisador a tarefa de manter-se crítico diante de tais fontes. Apesar disso, a gênese do processo é apta a apreender detalhes da realização artística que dificilmente uma pesquisa tradicional, pautada apenas no resultado final, seria capaz de realizar.

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Motivada pelos pressupostos da “crítica genética”, enveredei-me nos caminhos da criação d’O desvio do peixe, da Cia. Artehúmus de Teatro, mas não acompanhei o processo apenas por meio de seus documentos (embora tenham sido essenciais na investigação): participei ativamente da construção da obra, pois, a partir de meados de 2013, passei a integrar o Grupo como atriz.