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O filme norte-americano Zumbilândia, de 2009, apresenta-se notadamente como uma comédia ambientada dentro de um cenário norte-americano pós-apocaliptico. No entanto, apesar de seu objetivo humorístico e despretensioso, o filme aponta para reflexões interessantes em relação à sociedade norte-americana contemporânea.

Já em seus minutos iniciais, o protagonista do filme, Columbus, discute em voz over se a concepção de país ainda se aplicaria aos Estados Unidos dizendo: ―Olá América! Eu gostaria de dizer que isto continua a ser a América. Mas eu percebi que não se pode ter um país sem pessoas. E não existem mais pessoas aqui.‖ Enquanto o personagem diz esta frase, vemos as imagens no estilo ―cinegrafista amador‖ que enquadram uma bandeira dos Estados Unidos. No entanto, antes de Columbus concluir o discurso, a imagem da câmera gira, revelando que a imagem que estávamos vendo estava invertida, e na verdade a bandeira dos Estados Unidos está conectada à antena de um carro que está capotado, ao lado do Capitólio em chamas. Em seguida um zumbi aparece no quadro, e ataca o cinegrafista que estava

captando estas imagens, no momento em que a voz over de Columbus anuncia que naquele momento o país poderia passar a se chamar ―os Estados Unidos da Zumbilândia‖.

Columbus então continua a sua explicacação em voz over, dizendo que a epidemia de zumbis começou nos Estados Unidos, a partir de hambúrgueres contaminados com uma mutação do vírus da vaca louca. Acompanhando a voz do personagem vemos diversas imagens da epidemia se espalhando no país, porém, nem a explicação de Columbus, nem as imagens que assistimos revelam se a epidemia acometeu apenas o país, ou o mundo inteiro. Esta indeterminação irá se manter durante todo o filme, na medida em que os personagens não irão comentar sobre a possibilidade de outros países estarem ou não contaminados. Esta atitude dos personagens deste filme os diferencia dos personagens de Extermínio, que cogitam a possibilidade de que somente a Inglaterra esteja contaminada, bem como dos personagens de Juan de Muertos, que problematizam durante todo o filme a possibilidade de fugirem de Cuba, como veremos posteriormente. Mas podemos encontrar uma pista sobre esta questão em um momento em que um personagem afirma despretensiosamente que está pensando em ir para o México. Esta notícia gera uma reação de revolta em Columbus, que parece revelar que, mesmo que existam grandes chances de outros países vizinhos não estarem contaminados e os personagens saibam disso, abandonar os Estados Unidos, e, portanto, abdicar do território não é uma opção, Deste modo, no parece que, se houver alguma ideia utópica por trás do deslocamento dos personagens de Zumbilândia, ela envolverá de alguma maneira a reconquista do territórios dos Estados Unidos.

Figura 84: o capitólio em chamas Figura 85: o capitólio ao fundo em Zumbilândia (2009)

Após as cenas introdutórias, o filme apresenta o protagonista Columbus, um personagem solitário e paranóico que clama que as suas múltiplas fobias garantiram a sua sobrevivência ao apocalipse até aquele momento. Ele revela que está indo de Austin, Texas, onde estuda, para Ohio, Columbus, cidade onde seus pais moram.

Durante a sua jornada, ele une-se a mais três personagens, o excêntrico e destemperado Tallahassee, e Wichita e Little Rock, duas jovens que sobrevivem aplicando pequenos golpes em homens que encontram pelo caminho. É interessante notar que todos os personagens chamam-se pelos nomes de suas cidades de origem, denotando que o comportamento dos personagens no início do filme ainda está se encontra associado a antigos valores que já não se encontram mais presentes naquele território pós-apocaliptico. Neste sentido, a opção dos personagens de não revelarem seus nomes parece sugerir uma resistência à aproximação entre eles, devido aos sentimentos de paranoia e desconfiança compartilhados por todos eles, que dialoga com as fronteiras físicas estabelecidas entre estados e cidades.

No meio do percurso Columbus desiste de ir até a casa de seus pais, para acompanhar as meninas ao seu destino: um parque de diversões chamado Pacific Playland. A desistência de Columbus não é tratada de maneira dramática pelo filme, revelando o pouco esforço do personagem em tomar esta decisão. Ao público esta decisão também não soa de nenhum modo melancólica na medida em que a motivação de Columbus em chegar à casa de seus pais nunca pareceu muito intensa, de modo que o próprio personagem chega a questionar seu destino no início do filme, revelando que nunca havia sido próximo de seus pais. A frustração do objetivo inicial de Columbus pode ser comparada com a determinação de Jim de chegar à casa de seus pais, e o tratamento dramático que é dado à cena em que ele os encontra mortos em sua casa, revelando, por contraste, um certo distanciamento dentro do núcleo familiar norte-americano. Ademais, a própria ideia de Wichita de levar Little Rock a um parque de

diversões parece dialogar com uma questão de distanciamento familiar, na medida em que a personagem revela que seu plano tenciona reconectar a jovem Little Rock com uma noção de ingenuidade, que havia sido privada à menina, e possivelmente estaria relacionada à ausência de uma estrutura familiar.

No caminho para o seu destino, os quatro personagens entram em uma loja de suvenires para turistas do estado do Arizona, e, ludicamente, decidem destruir todos os objetos da loja. A destruição destes ícones representativos do estado do Arizona parece remeter ao ínicio de um movimento dos personagens no sentido de destruir estes antigos marcos fronteiriços de divisão do país, que já não possuem mais significado no contexto em que eles estão vivendo.

A negação a estes antigos ícones conecta-se com as cenas iniciais de Extermínio em que vemos também miniaturas do Big Ben jogadas ao chão. Mas ainda esta destruição pode ser compreendida dentro de uma chave mais ampla quando observamos que muitos dos objetos destruídos remetem a uma herança indígena, denotando que o que está sendo destruído, e portanto negado, seria o imaginário da formação e conquista do território dos Estados Unidos, revelando uma ideia embrionária de recomeço, que irá se consolidar no decorrer do filme.

Figura 86: a destruição lúdica em Zumbilândia (2009) Figura 87: Talahasse destruindo a loja

O grupo enfim chega ao parque de diversões, porém os zumbis rapidamente invadem o local, frustrando os planos dos sobreviventes. É neste momento que os antigos pilares que regiam o país parecem ser definitivamente sepultados, em uma passagem alegórica na qual Talahhasse, em uma manobra suicida se oferece como isca para os zumbis, fazendo um trocadilho com a sua cidade de origem: ―vocês não querem um pedaço de Talahasse? Talahasse é muito bonito nesta época do ano‖.

Figura 90: a invasão do parque pelos zumbis em Zumbilândia (2009)

Os protagonistas conseguem sair do parque de diversões, e decidem então continuar o percurso juntos, sem qualquer definição de um novo objetivo ou local de destino. Esta decisão de continuarem em um movimento fluído, sem ponto de chegada, é contrabalanceada com a ideia de formação de um novo modelo familiar pelos sobreviventes, na medida em que Columbus alega que finalmente encontrou a sua verdadeira família. Neste contexto, Wichita enfim revela ao rapaz que seu verdadeiro nome é Krista, remetendo não somente ao abandono da ideia de fronteiras, estados e cidades, como também a desativação de comportamentos que foram associados ao norte-americano após os ataques terroristas de 11 de setembro, como a exacerbação da paranoia e da desconfiança.

Desta forma, podemos observar que, mesmo que o filme não pretenda necessariamente ser uma obra crítica em relação à sociedade norte-americana, devido à maneira descompromissada e em alguns momentos anárquica com que trata a destruição dos Estados Unidos, parece apresentar algumas ideias utópicas em sua trama. No entanto, a utopia neste filme não se encontra necessariamente na relação dos personagens com o espaço, na medida

em que eles nada contrõem, e sim na postura errante, iconoclasta e solidária dos personagens, que diante de um cenário pós-apocalíptico, embarcam em uma ―aventura coletiva‖ que segundo Maffesoli seria uma atitude revolucinária no contexto de um país cuja história é marcada pela conquista territorial:

Em um país onde o tema da fronteira tem desempenhado um importante papel na constituição de um imaginário coletivo, os sociólogos da escola de Chigaco, nos lembraram da importância do errante, do vagabundo na cidade moderna. O ―andarilho‖, como seu nome indica, serve, de certo modo, como uma má consciência. A sua própria situação exerce uma violência contra a ordem estabelecida e lembra do valor do movimento. Assim, não basta que o analisemos a partir de categorias psicológicas, como um indivíduo agitado ou desequilibrado, mas como uma expressão de uma constante antropológica: aquela da pulsão do pioneiro que marcha sempre adiante em busca do El Dorado. Entendendo que este, da mesma maneira que o ouro dos alquimistas medievais não tinha tanto a ver com a possessão de um bem material ou de câmbio, seria o símbolo de uma busca sem fim, a busca de si em um contexto de uma comunidade humana onde os valores espiriturais são uma consequência da aventura coletiva. É por isso que a fronteira deve ser sempre forçada adiante, a fim de que a aventura possa continuar.175 (Maffesoli, 2004: 41).

Deste modo, Zumbilândia, diferentemente de Extermínio, revela-se um filme extremamente centrado em suas próprias questões nacionais, demonstrando pouco interesse em questões mais universais ou globais. No entanto, a questão nacional neste filme é abordada sob uma perspectiva diferente da crítica niilista que os filmes de Romero oferecem sobre o país, na medida em que seus personagens demonstram uma postura errante e revolucionária, que dialoga com uma ideia otimista de redescobrimento dos Estados Unidos a partir de novos ideais coletivos.