2. TEORI
2.3 Figurmønster og generalisering
2.3.2 Kategoriar til generalisering av figurmønster
Posso afirmar que, de modo geral, é nesta cena que percebemos melhor os indícios do estado corporal “corpo-novelo” em ambas as versões. A versão de 2009 apresenta apenas indícios deste estado corporal, e em 2011, esse estado está mais claro. Esta cena também representa nosso momento de maior autonomia como intérpretes/criadoras, pois nossos solos se mantiveram íntegros em sua forma de criação.
Ao assistir o vídeo da versão de 2009, percebo que, mesmo tentando trazer o estado corporal “corpo-novelo” para a cena, em nosso corpo ainda predomina uma configuração bidimensional. Há também a presença de tensões desnecessárias em nossa execução, expressas pela tensão respiratória. A motivação para a realização dos movimentos também é externa. Há maior preocupação com a forma e a expressão estética do que com o sentido dos movimentos. Assim, os movimentos tornam-se sem clareza de sentido, expressando a forma apenas pela beleza estética.
Quando comparo o vídeo “anexo 5 – 2009 – meu solo” com as cenas anteriores desta mesma versão, afirmo que aqui é o momento em que eu apresento uma atitude corporal mais natural, sendo possível perceber alguns indícios de identidade nos movimentos que sobressaem à carapaça da técnica clássica impregnada em meu físico. Minha coluna respira um pouco mais juntamente com os movimentos. É possível perceber minha tentativa de dilatar os sentidos e trazer a sensação do contato das mãos com o meu corpo, bem como a de permitir que esta sensação componha o movimento e altere a respiração, como, por exemplo, no trecho de 00min16seg a 00min33seg.
Neste mesmo vídeo anexo é possível visualizar um exemplo da preocupação com a forma e a expressão estética citada um parágrafo acima. Sendo assim, no trecho de 02min31seg a 02min43seg visualizo o momento em que realizo uma corrida desnorteada na qual não há um foco claro no olhar que se perde nos deslocamentos. No meu último movimento, realizado antes da transição do meu solo para o solo da Alcinete (de 03min40seg a 03min52seg), é possível perceber que ainda não há um domínio da entrega do peso, da consciência do uso da força da gravidade, uma vez que eu tento soltar meu peso apoiando-o nos braços e pernas, mas as pernas não reagem a
essa alteração de apoio, permanecendo com o tônus inalterado. Ao observar a Alcinete em segundo plano, ainda neste vídeo, a vemos realizar a ação de desenrolar o novelo. Percebo que há a preocupação dela em tornar esta ação estética, o que faz com que o sentido da ação também se perca. Além disso, ela não parece sentir o novelo de fato em suas mãos, tocando-o apenas com as pontas dos dedos.
No vídeo “anexo 6 – 2009 – solo Alcinete”, também percebo essa preocupação com a forma, a estética do movimento. Há por parte da Alcinete a tentativa de tornar presentes as sensações da pele e trazê-las para o movimento, como vemos nos trechos de 00min05seg a 00min14seg, de 00min33seg a 00min47seg e de 01min40seg a 01min48seg, nos quais ela estimula a pele de variadas formas. Como relatado nas cenas anteriores da versão de 2009, aqui também vejo a lacuna provocada pela falta da relação entre nós duas. Eu, que estou em segundo plano, estou no meio da cena enrolando o novelo, desconectada da ação principal – solo da Alcinete. Minha atitude corporal não se relaciona nem com a cena, nem com a Alcinete e nem com o novelo. A Alcinete tenta buscar o meu olhar, por duas vezes, ao longo deste trecho de vídeo, na tentativa de estabelecer a relação, mas eu estou completamente desligada da cena e envolvida com a tarefa de enrolar o novelo.
Já na versão de 2011 é possível vislumbrar a tomada de consciência da tridimensionalidade do corpo, observada pela forma como nos relacionamos e nos posicionamos no espaço, e pela exploração de outras direções que não apenas frente- trás, ou lado-lado. Observa-se também outra qualidade de presença na relação estabelecida entre nós. Há nesta versão uma ressignificação gerada pela assimilação da movimentação e consciência de cada gesto ali colocado. Essa tomada de consciência dos gestos gera, inclusive, algumas pequenas modificações nos movimentos que ocorreram em favor da organicidade e da clareza do gesto. Os movimentos agora assimilados parecem brotar de nosso interior, da expressão de nossas histórias pessoais. Não se trata mais de um poema corporal que fala de outra pessoa e é declamado pelo nosso corpo, externo a nós. Agora é nossa história contada por esses movimentos, inspirados no poema de Luciana Paludo. Os movimentos ganham volume, tridimensionalidade, desenhos, expressão, sentimentos, individualidade e identidade.
No vídeo “anexo 5 – 2011 – meu solo” é possível perceber a tranquilidade presente desde a minha entrada em cena. Minha respiração também está mais livre e minhas articulações estão mais soltas, o que se reflete na fluência da movimentação. No movimento final, antes da transição dos solos (de 03min30seg a 04min00seg), vejo
como os braços e as pernas reagem ao peso abandonado sobre eles, e como os pés parecem afundar no chão. A sensação é de que algo pesa, de que a coluna dói, tornando o sentido do movimento presente.
Em segundo plano, vejo a mudança de qualidade do contato das mãos da Alcinete com o novelo, sendo possível perceber que ela sente sua forma e seu volume. A transição entre os solos acontece com mais naturalidade, mantendo e estreitando a relação entre nós.
Este solo é a expressão máxima do momento de mudança que eu estava vivenciando. Reflexões sobre mudanças do corpo, envelhecer, amadurecer, tornar-me mãe, aceitar a passagem do tempo, tornar-me adulta, fazer escolhas, caminhos, escolhas... medos, desejos, anseios... sentir, sentir, sentir, sentir minha pequena se agitando na barriga com a cena anterior e entrar acalmando-a, como quem diz “Calma, está tudo bem! A mamãe está aqui!”, afinal essa mão na barriga não existia na versão anterior e não era apenas uma necessidade estética de dizer “olhem, estou grávida!”. Minha filha estava de fato agitada e por isso pulava aqui dentro. Tato. Contato. Toque. Eu precisava tocá-la para que ela se acalmasse juntamente com minha respiração. Lembrar, chorar... sentir saudades... a melhor sensação do mundo: dançar e senti-la dançando comigo, algumas vezes eu ia para um lado e ela para o outro....
No vídeo “anexo 6 – 2011 – solo Alcinete”, visualizo a expressão mais clara do estado “corpo-novelo” na Alcinete. No trecho de 00min40seg a 01min11seg há uma sensibilidade tátil aflorada, além de uma flexibilidade do tônus expressa nos movimentos que ela realiza. Esses movimentos variam de momentos impregnados da técnica de balé clássico, que faz parte da história corporal dela, com momentos de extrema respiração e fluência, uso consciente dos apoios, expressividade e naturalidade na realização dos movimentos, além da marca pessoal em cada passagem – autoria e identidade dos movimentos. No trecho de 01min29seg a 02min00seg ela se delicia em sua execução, havendo a variação gradativa e muito clara do tônus. Esta variação é percebida em sua expressão facial, que transmite a alteração corporal global, notada não apenas no rosto, mas verificada quando a câmera abre a imagem que estava em close, em que percebemos que a qualidade do movimento mudou. Essa variação se repete em diversos momentos ao longo do solo. De 03min15seg a 03min23seg verificamos o trabalho de “contato consciente”, quando ela sente a lã sem precisar tocá-la. Este não é
um movimento de hesitação do toque, ela realmente toca a lã sem precisar encostar a mão.