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Kategori 2: Motivasjon, konkurranse og belønning

4.5 Analysekategorier

4.5.2 Kategori 2: Motivasjon, konkurranse og belønning

Foto: Helder Freitas/ Roberta Vieira Raggi

A propriedade localiza-se sobre uma provável falha geológica, numa área de predominância de Cambissolos Distróficos em que também podem ser encontrados Latossolos Vermelhos Distróficos e Argissolos Vermelhos, conforme pode ser visto nos mapas a seguir:

Mapa 3: Tipos de solos encontrados na região do município de Pequi

Mapa 4: Mapa Geológico do Município de Pequi

Fonte: IGA – 1984 Escala: 1/500.000

Como conseqüência, a propriedade apresenta um relevo bastante ondulado e solos pouco profundos, com muitos afloramentos rochosos, alta pedregosidade, e baixa fertilidade natural, características que influenciam diretamente a apropriação do ambiente pelas famílias e que durante o período da elaboração do PDA tornaram-se um dos principais motivos que levaram a equipe de planejamento a questionar a capacidade de suporte da propriedade para o assentamento de 24 famílias previstas pelo laudo de vistoria do INCRA executado para a desapropriação do imóvel. A caracterização do relevo, bem como dos tipos de pedo-ambientes encontrados na fazenda podem ser vistos nos mapas a seguir:

Mapa 5: Mapa de declividades do assentamento

Mapa 6: Estimativa dos perfis de solos encontrados no assentamento

De acordo com o Sr. Dinamar, devido a problemas familiares o antigo proprietário “perdeu o gosto” pelo imóvel e optou por se desfazer da propriedade. Contudo, vender a fazenda provavelmente não foi uma tarefa fácil. O imóvel apresenta 908,07 hectares e grande parte dele encontrava-se coberto por mata secundária com espécies remanescentes de mata atlântica, fato que, por lei, impede o desmatamento da área. Mais do que isso, o relevo ondulado somado ao solo pedregoso, raso e de baixa fertilidade, tão característicos da propriedade, se restringem à área da provável falha geológica na qual a fazenda se insere. As propriedades vizinhas apresentam alto potencial agrícola, com solos pouco ondulados, mais profundos, sem afloramentos rochosos e com baixa pedregosidade. A fazenda também se encontra inserida numa região voltada para a agropecuária, especialmente para a olericultura, suinocultura, avicultura e laticínios comercializados no CEASA em Belo Horizonte e o seu baixo potencial produtivo desvalorizava consideravelmente o imóvel.

Por conseguinte, a solução encontrada pelo antigo proprietário foi vender o imóvel para o INCRA. No entanto, ao longo do período de negociação o antigo proprietário foi denunciado pelo então prefeito de Pequi, Sr. José de Oliveira Alves, uma vez que, de acordo com o mesmo, “a fazenda tinha que ser desapropriada e não vendida, porque ela é improdutiva. O dinheiro que estava sendo pago por ela, daria para comprar outra fazenda e assentar mais famílias104”. A razão da denúncia, contudo, já havia sido

averiguada pelo INCRA através do laudo de vistoria executado pelo mesmo, mas o processo de negociação iniciado em 2000 já se arrastava por quase um ano.

104 Cf. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST. PDA da Comunidade de

2.2) A ocupação da fazenda Brenha e a origem da Comunidade de

Resistência Roseli Nunes

Durante esse período de negociação alguns dirigentes do MST mineiro tomaram conhecimento do processo105 e começaram a reunir famílias em Belo Horizonte

interessadas em participar de uma ocupação. Reuniões eram realizadas pelos dirigentes principalmente na favela da Serra e no bairro Água Branca, na região do Eldorado, em Contagem, como aponta seu Homero Soares Jardim, atualmente assentado na fazenda:

É. Eu morava lá no... Santa Efigênia. Cafezal, né? Eu tenho um cunhado que mora lá no bairro Água Branca, e... Teve um dia que eu cheguei na casa dele e ele falou comigo assim: “Ô Homero, tá tendo um homem que tá vindo aqui pra ter reunião aqui pra pegar a gente, pra pegar uma terra aí que tal, você interessa?” Todo dia 13 tem essa reunião aqui. Uai, uai, ô Silvio! Eu me interesso demais! E ele falou comigo “se você quiser vir cá dia 13, você vai encontrar com ele aqui”. (...)

Aí eu fui lá no dia, gostei demais, falei, conversei com junto com eles, a mulher dele chama Fabiele. Era eles dois, né? [dirigentes do MST Zé do Leite e sua esposa Fabiele] Aí nós ainda olhou ali, falou com ele que ia encontrar mais vezes... Aí eu ia, chamava, chamava as pessoas e falava: “Ô gente, olha! Vai ter uma terra pra nós aí! Mas vai ter que lutar!” (...)

Aí, menina, eu projetei um ano com essa reunião com o Zé do Leite. Um ano! E aí eu fui lá, quando foi um dia, eu cheguei lá em casa e falei: “Ô gente! Eu quero levar hoje muita gente que o moço lá pediu muita gente! Ceis não interessam não? É uma coisa que vai ser bom pra nós porque a gente vai ter terra, e nós não tem terra, nós tamos morando em lote no meio de favela! Isso é uma vantagem pra nós!” Falei pra eles. “Vamos pra lá, que eu sei que vocês vai gostá!” Aí foi, eu arrumei um ônibus e eu trouxe 40 pessoas. Trouxe tudo por minha conta! É, fretei um ônibus lá e trouxe tudo pro Água Branca ali, pro Eldorado. Aí, quando cheguei lá, aí o Zé já tava esperando nós. Zé já tava esperando nós. (...)

Aí Zé marcou de fazer uma reunião lá em casa, lá no bairro é... Como é que chama lá, é... Esqueci... Novo São Lucas. Aí ele foi lá, mais a dona dele, eles fizeram a reunião lá, eu reuni o pessoal tudo outra vez, ali... Reuni o Cido, o Berrinha, o Zé Antônio, o Zé do Carmo, Sandrinha, o Zé Estevão finado, que morreu... E nós encheu lá um salão lá! Fizeram a reunião lá com eles, lá... Fizeram a reunião com eles lá e ele falou com eles que era assim, assim e assim, e... Tomou os documentos dum bocado deles, já fez a ficha já, com os papelinhos tudo anotadinho, né? E aí o pessoal foi embora106.

105 Dirigentes evitam divulgar a maneira pela qual os mesmos tomam conhecimento da existência de fazendas improdutivas, como forma de evitar represálias à sua ação.

106 Os depoimentos apresentados neste capítulo foram registrados em visita ao assentamento em fevereiro de 2008.

Nestes encontros, os dirigentes traziam às famílias discussões a respeito das injustiças ligadas à exploração e expropriação dos camponeses, da migração para as cidades e da exploração que esses eram submetidos no meio urbano, de modo a incitar a formação de uma consciência de classe, e, ao mesmo tempo, justificar a ocupação da fazenda. Mais do que isso, as reuniões também serviam para divulgar a experiência de assentamentos bem sucedidos, ou mesmo explicar como é a ocupação e todas as lutas daí conseqüentes, desde como é a vida no acampamento, até a implantação do assentamento.

Cabe ressaltar que a principal intenção dos dirigentes é cooptar o maior número

de participantes para o MST, como é apontado na fala de seu Homero – “Eu quero levar

hoje muita gente que o moço lá pediu muita gente!” – de forma a propiciar maiores chances de sucesso numa ocupação, caso haja enfrentamento com a polícia. Conseqüentemente, ao explicar todo o processo de luta, o dirigente busca enfatizar as experiências bem sucedidas em detrimento de todos os possíveis problemas que essas famílias terão que enfrentar além do momento da ocupação.

Por conseqüência, poderíamos questionar: até que ponto a cooptação poderia se estender sem se tornar uma falsa promessa para essas famílias? Os dirigentes devem caminhar entre a utopia de conquistar uma vida digna e a dura realidade do caminho incerto a ser percorrido, num hiato entre a mentira e a verdade, criado pelo “não dizer tudo”, que por vezes pode ser observado no depoimento de alguns assentados, como de dona Dionília Coelho:

Quando foi dez horas, da noite, os ônibus começou a encostar... Foi, foi dois ônibus... Aí eu cheguei com aquela trouxa! A Cláudia olhou assim e riu! “Ô Dionília, cê já vai de muda?!” e eu falei: “Uai? Cê não falou que nóis ia pra ficá?! Eu já vou de mudança mesmo! Eu ainda não carreguei os trens tudo não, ué, depois é que eu vou voltar para carregar o resto...”

Apesar da possibilidade do enfrentamento com a polícia e do fracasso da ocupação, dona Dionília foi para a ocupação já “de muda”, pois acreditava que “ia para ficar” definitivamente na fazenda. O grande problema, na verdade, encontra-se quando dirigentes são pressionados pelas famílias e acabam por dizer aquilo que essas gostariam de escutar. Cria-se uma expectativa que é facilmente frustrada e, num ciclo vicioso, alguns dirigentes acabam desacreditados. Assim, a cooptação torna-se uma tarefa árdua e que nem sempre é realizada com sabedoria.

De qualquer forma, vários interessados foram agrupados através dessas reuniões. Alguns já possuíam certa identificação com o MST, como é o caso de dona Dionília: