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9. Ensrettende vern i mangfoldige landskap

9.1 Kartlagte landskap

A Cognição Situada, cuja precursora foi a antropóloga Jean Lave (LAVE, 1988), busca descrever o processo cognitivo não apenas como um fenômeno psicológico, mas também decorrente de relações entre a ação interna e externa e o ambiente emocional e sociocultural dos indivíduos. Originária da Antropologia, Psicologia e Inteligência Artificial, ela abrange um conjunto de abordagens contemporâneas da cognição, tais como: Ecologia da Mente, Teoria da Atuação (Enaction), Biologia do Conhecer (ou Teoria da Autopoiese) e Situated Cognition. Para Venâncio (2007):

O ponto fundamental que une essas abordagens é a utilização do mesmo princípio epistemológico na constituição de suas teorias. Tal princípio considera a existência do organismo-em-seu-ambiente, ou seja, organismo e ambiente constituem uma unidade inseparável, sendo o processo de interação entre eles contínuo e simultâneo (Venâncio, 2007, p. 17)

A Ecologia da Mente (BATESON, 1972) busca estabelecer uma conexão entre fatos, comportamentos e padrões, com ênfase no processo de comunicação entre os organismos e o meio ambiente. Para o autor, cada organismo percebe um tipo de diferença e este se torna um item de informação. Para a Teoria da Atuação ou Enaction (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991) não é possível separar o sujeito cognoscente do objeto de conhecimento e, portanto, a cognição é um processo de atuação, em um mundo vivenciado e experienciado. A Biologia do Conhecer (MATURANA, 1997; 1998; 2001) prega que “conhecer é viver, viver é conhecer” e estabelece uma explicação sobre a natureza do conhecimento humano, onde os sujeitos interagem entre si e com o meio de formas distintas e, por terem histórias únicas, conhecem, percebem e aprendem de formas diversas, todas elas legítimas.

Clancey (1997), pesquisador do campo da Inteligência Artificial, oferece importantes contribuições à Cognição Situada, ao defender que ações e pensamentos humanos são constantemente adaptados às situações. Isto se deve ao aspecto dinâmico do comportamento humano que permite sua modificação durante a atividade e de acordo com o ambiente e com experiências anteriores. Partindo de seus conhecimentos no campo da Inteligência Artificial, o autor busca compreender a cognição humana de forma mais ampla que a metáfora da mente como um computador. Essa metáfora prega que a mente humana é semelhante a um computador capaz de armazenar dados e representações, processando-os e utilizando-os para responder determinadas questões, em contextos específicos.

A metáfora da mente-computador vai ao encontro do cognitivismo, importante vertente das Ciências Cognitivas, que pressupõe existir um mundo anterior à experiência do indivíduo, cujos objetos e propriedades podem ser captados e representados na mente humana, de forma inata. Baseado nessas representações simbólicas do mundo ou do ambiente em que está inserido, o indivíduo é capaz de resolver problemas que lhe são apresentados. Por isolar os indivíduos das relações sociais e de seus contextos e também por enfatizar a natureza individual das estruturas cognitivas dos indivíduos, embora utilizada por muitos anos, essa visão recebeu diversas críticas (VENÂNCIO, 2007).

No final da década de 1970, surgiu a abordagem conexionista, onde as representações simbólicas do cognitivismo davam lugar às conexões. Para o conexionismo, a mente humana não é apenas semelhante a um computador, ela é um computador, onde cada neurônio corresponde a uma calculadora que computa uma função boolena e o cérebro humano resulta da conexão entre essas calculadoras/neurônios. Conforme Venâncio e Nassif (2006), no conexionismo ainda prevalece a ideia de representação, porém não mais inata como no cognitivismo, mas adquirida por meio da experiência e das interações com o meio.

Em contraposição a estas ideias e das críticas delas decorrentes, situam-se abordagens cognitivas mais recentes, entre elas a Cognição Situada (CLANCEY, 1997), em que “a dicotomia sujeito-objeto não é válida, pois a realidade é vista como algo que depende de seu observador” (VENÂNCIO; NASSIF, 2006, p.3). Isso significa que a cognição, sob esse enfoque, não é mais a representação mental de um mundo independente do sujeito, pré- concebido e representado em sua mente. Nesse caso, o sujeito não cria representações do mundo, mas vive nele, o conhece e constrói a todo instante, por meio de interações contínuas. Sob essa ótica, o processo cognitivo não fica restrito à mente do sujeito, mas se estende à sua

biologia, resultando em ações que se relacionam com o ambiente que o cerca e as experiências que possui.

Em sua busca por compreender a cognição humana de forma mais ampla, Clancey (1997) além de criticar a referida metáfora da mente como computador, também tece críticas aos modelos descritivos simbólicos, embora reconheça a sua importância para a modelagem do conhecimento de especialistas em computadores. Essa importância se deve ao fato de eles representarem como são as coisas e como agir em determinadas situações. Modelar o conhecimento de um especialista a partir dessa perspectiva consiste em descrever detalhadamente determinada situação problemática e, em seguida, aplicar a ela procedimentos advindos de teorias que sejam aplicáveis a esta situação específica.

Entretanto, Clancey (1997) observa que no comportamento de um especialista, assim como no comportamento humano de forma geral, há uma flexibilidade impossível de ser reproduzida. Sendo assim, padronizar o conhecimento e as atitudes humanas, modelando- os de forma generalizada, se torna inviável, pois desconsidera a subjetividade de cada indivíduo, limitando a descrição e a compreensão de seus atos. Ele, então, tece críticas a esses modelos, considerando-os incapazes de capturar a percepção, a ação e a memória dos sujeitos e propõe que os estudos da Cognição Situada busquem compreender os fundamentos de tal flexibilidade.

Clancey apoia seu estudo na psicologia funcionalista de Bartlett (1932), de onde tira implicações para uma teoria da cognição que olha para o individuo dentro de sua experiência cotidiana de perceber e agir em determinado contexto. Para tal, é necessário que se estabeleça um diálogo entre os referenciais internos e externos do indivíduo, considerando a sua interação com o ambiente e o contexto no qual ele está inserido, como elos articuladores de suas ações. Nesse sentido, Obregon (2011) alerta que análise não é mais o ambiente ou a representação mental individual, mas a interação entre ambos e, portanto, a premissa de que existem princípios universais capazes de determinar o pensamento e a ação deve ser substituída pela premissa de que as ações e pensamentos são desenvolvidos durante a experiência da interação em dado contexto.

Assim, os autores da Cognição Situada propõem a interpretação da cognição a partir de seus aspectos funcionais, estruturais e comportamentais, defendendo que todo ato cognitivo é um ato experiencial. Nesse sentido, Clancey (1997) se baseia na visão de que o pensamento e a ação dos sujeitos são constantemente adaptados ao ambiente, isto é, situados em função do que eles percebem, como concebem suas atividades e como as executam.

Assim, toda ação humana se desenvolve de forma coordenada e simultânea, sendo parcialmente improvisada ao integrar a percepção, a concepção e a ação do sujeito mediante determinada situação. Para Guesser (2003), “situado” significa que parte da organização da ação é dada pelo ambiente. Sendo assim, no ambiente onde o sujeito está inserido, executando suas atividades e na forma como ele o explora podem ser encontrados elementos que orientem e expliquem suas ações.

A relação estabelecida entre percepção, concepção e ação faz com que alguns autores (THEUREAU, 2004; BORGES; DESBIENS, 2005) sustentem a premissa de que o saber (cognição) e o agir (ação) caminham juntos e ambos se modificam e se complementam em função das situações apresentadas pelo ambiente no qual o indivíduo transita. Diante disso, estes mesmos autores afirmam que não é pertinente distanciar ou distinguir a Cognição Situada da Ação Situada, uma vertente de pesquisa que defende que as ações dos indivíduos são situadas em função das variáveis oferecidas pelo ambiente e que tais variáveis estão em constante mutação. Originária da Sociologia e da Etnometodologia, sua precursora foi Lucy Suchman (SUCHMAN, 1987), à época pesquisadora do Xerox's Palo Alto Research Center, envolvida com a Antropologia Etnográfica e a Sociologia. Suas ideias defendem que a ação não é uma reação a estímulos e sim, construída na situação, durante a interação entre indivíduo e ambiente. Assim, o foco se desloca do sujeito individual para o contexto em que ele está inserido.

Enquanto o cognitivismo defende que a ação é determinada por planos pré- estabelecidos, Suchman (1987) considera que planos e representações mentais não ocupam um lugar demasiadamente importante na explicação do comportamento humano. Para ela, a ação não é determinada por um plano pré-estabelecido; este apenas a orienta. Planos são reformulados e/ou reconstruídos durante execução da atividade e o que determina isso são as situações que se apresentam no contexto em questão. Nesses momentos, a cognição do indivíduo é demandada para orientar e reorganizar a ação. Assim, a cognição não antecede a ação e nem se separa desta, posto que uma é parte da outra e ambas se complementam.

Ao fazer isso, Suchman desafiou a visão de Ação Planejada, dominante na época, segundo a qual um plano pode determinar a sequência de ações de uma pessoa e que esta pode ser completamente caracterizada em função de seus objetivos, intenções e planos (BARBOSA; SILVA, 2010). Ao contrário dessa visão, a Ação Situada considera as formas como um indivíduo usa as circunstâncias para atingir seus objetivos durante o curso da ação e também como ele “age dentro de um meio constituído por sentidos culturais e históricos que

envolvem circunstâncias particulares e concretas” (SUCHMAN, 2007, p.25, tradução nossa). Dessa forma, a Ação Situada demanda do indivíduo a mobilização de competências e experiências para lidar com a situação.

Em vista disso, a Cognição Situada e a Ação Situada se definem mutuamente por seu caráter similar: a ação humana é uma realização prática, situada social e culturalmente e a cognição mobilizada pela ação, durante essa mesma ação, é incompreensível se não for estudada em situação (BORGES; DESBIENS, 2005). Estas duas vertentes de pesquisa, representadas pela Cognição Situada e pela Ação Situada, são aqui entendidas como complementares e convergentes.

3.3 Interlocuções da Cognição Situada com os estudos de usuários da