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KAPITTEL VII SLUTTBESTEMMELSER

M. OLOFSSON Formann

9. Karbonmonoksid (kilde med ren karbonmonoksid eller sammen med andre gasser)

José Correia da Serra e Manuel do Cenáculo não são as únicas personalidades portuguesas do último quarto do século XVIII capazes de harmonizar a sua preferência pessoal por uma estética clássica com o reconhecimento das virtudes de memória e de arte de alguns objetos antigos que escapam a essa linguagem partidária da forma “regular”. Eles continuam, afinal, a atitude mais inclusiva ou atenta que verificámos existir pontualmente desde décadas recuadas da centúria, na apreciação de certos monumentos góticos, enquanto objetos de valor histórico e, porventura, artístico. Mas se então tal abordagem tinha uma expressão ténue, agora ela começar a ganhar terreno, mostrando-se assumida, aos poucos, com uma liberalidade impossível de notar antes e que vaticina mudanças futuras.

Em a Historia geral de Portugal, e suas conquistas; offerecida á rainha nossa senhora D. Maria I (1786- 1804), da autoria de Damião António de Lemos Faria e Castro (1715-1789), uma ou outra passagem da narrativa testemunha o afirmado472. Há nela sinais de um certo desenvolvimento da sensibilidade patrimonial, mais aberta e sem preconceitos estéticos diante de determinadas peças góticas. Verificamo-lo, apesar de Faria e Castro se apresentar algo apegado ao discurso historiográfico da primeira metade do século e exibir até um estilo menos científico do que o dos seus pares, daquela e da segunda parte de Setecentos.

472 CASTRO, Damião de Lemos de Faria e, Historia geral de Portugal, e suas conquistas,

offerecida á rainha nossa senhora D. Maria I, 20 vols., Lisboa, na Typografia Rollandiana,

1786-1804. Sobre Faria e Castro veja-se SILVA, Inocêncio Francisco da, Diccionario

bibliographico portuguez, ob. cit., vol. II, 1859, pp. 120-122.

FIG.35 Historia geral de

Portugal e suas conquistas,

Independentemente do escrúpulo historiográfico, os volumes da Historia geral de Portugal em questão contêm declarações que autorizam a inferir a existência de um pensamento patrimonial que se pode dizer esclarecido, da parte do autor, por isso, digno de comentário. Aliás, não deixa de nos parecer curioso que a primeira manifestação de desagrado perante a situação do templo romano de Évora, cuja condição, até aqui, se achou sempre elogiada473, se descubra precisamente na Historia de Faria e Castro, para quem a «pouca veneração dos Portuguezes futuros, que até hoje fazem açougue de hum dos Templos antigos de sua Cidade, alterou a fórma deste Monumento glorioso da antiguidade da Patria», de modo censurável474.

Para o autor, a verificação do valor para a história e do valor de arte no objeto antigo obriga, não apenas, à simples preservação da existência do bem, mas também à sua salvaguarda ativa, que se apresenta incompatível com uma utilização estranha às características de memória ressalvadas nesse objeto. Ora, o que encontrámos nos testemunhos até aqui elencados foi uma apreciação significativa do valor de uso dos edifícios antigos, recorde-se, determinante de uma atitude permissiva para com as funções atribuídas às construções preexistentes, o que torna a asserção de Faria e Castro bastante original. Mas a frase que lhe transcrevemos acusa ainda a noção de monumento histórico; diríamos até que ela sugere a intuição de um conceito próximo ao de monumento (pré-)nacional.

Essa ideia que se adivinha na reflexão sobre os restos da antiguidade clássica em Évora, apresenta-se mais completa e propriamente pátria na explanação do cumprimento dos «votos edificantes» de D. João I e de D. Nuno Álvares Pereira pelo insucesso de «todas as pertenções de Castella», na Batalha de Aljubarrota475. Naturalmente, o conceito surge em nota às

muito referidas ao longo desta dissertação obras góticas do Mosteiro da Batalha e do Convento do Carmo de Lisboa: «Depois [da procissão, em

473 Vide supra.

474 CASTRO, Damião de Lemos de Faria e, Historia geral de Portugal (…), ob. cit., vol. I, 1786, pp. 149 e 150.

Guimarães, D. João] fez fundar o Mosteiro da Senhora da Victoria que nós dizemos da Batalha e o deo aos Padres Prégadores da Ordem de S. Domingos. O Condestavel cumprio a sua promessa na mesma forma [em peregrinação] a Santa Maria de Ceiça em Ourem e edificou o Convento de Nossa Senhora do Carmo de Lisboa: Dous Padrões magnificos que conservaó immortal a memoria da gloriosa batalha de Aljubarrota e dos dous Heróes, Authores da nossa liberdade, o Rei D Joaõ I e o seu Condestavel D. Nuno Alvares Pereira»476.

Encontra-se expressa, com grande nitidez e segurança, a assunção dos edifícios de Santa Maria da Vitória e de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Lisboa como monumentos perpetuadores das personalidades memoráveis que os instituíram na sequência da vitória histórica, em Aljubarrota. Parece- nos, também, que o entendimento das construções, enquanto «padrões» evocadores da bravura da ação militar na sua origem, garante da independência do reino, pode ser lido no texto, sem dificuldade. É verdade que as palavras que permitem alcançar tais conclusões deixam por referir a configuração dos imóveis, mas é forçoso admitir que as formas com que a Batalha e o Carmo se dão a ver, na qualidade de comprovados signos, sejam acolhidas de modo respeitoso ou mesmo observadas numa certa atitude contemplativa por parte dos que estão cientes das propriedades de memória de ambas as construções: trata-se do estilo característico dos edifícios, atestados monumentos de memória não-intencional. De resto, a intervenção arquitetónica que vimos executada pelos carmelitas de Lisboa, no âmbito do pós-terramoto, com o fito de reerguer a igreja à imagem do seu gótico fundacional (obra que sabemos estar ainda em marcha pelos anos em que Faria e Castro compõe o volume da Historia citada...), atesta bem o inferido, como o faz a intervenção realizada na Capela do Fundador do mosteiro batalhino, também após o sismo, e a que atendemos igualmente atrás477.

Nesta linha, convém referir igualmente as palavras coetâneas de um outro autor, Manuel de Figueiredo, em Descripção de Portugal. Apontamentos e

notas da sua historia (...), sobre Santa Maria da Vitória, «Convento da Ordem de S. Domingos (que fundou D. Joaõ I em desempenho do Voto, que fez antes de entrar no Combate de Aljubarrota) deposito dos Reaes Corpos de D. Joaõ I sua mulher a Rainha D. Filippa, seus filhos»478. Para Figueiredo, «a Igreja he huma obra grande, delicada», parte de um edifício com profunda conotação histórica cuja maestria artística reconhece, em especial, na «belleza, e magnificencia do templo»479.

Não pode, então, surpreender absolutamente que algumas figuras maiores da cena política portuguesa, designadamente a rainha, manifestem interesse pela série de desenhos do Mosteiro da Batalha que o arquiteto James Murphy realizou, em 1789, com o intuito de captar gótico do edifício480.

A partir de Lisboa, em carta de maio daquele ano, o próprio conta ao seu patrono, W.B. Conyngham, que o ministro José Seabra da Silva, «highly pleased» com o trabalho produzido, levara as suas ilustrações à soberana, junto de quem permaneceram durante três dias481. Mais informa que a devolução da obra se fizera acompanhar por uma missiva do nomeado Seabra, declarando que «Her Majesty and his Royal Highness the Prince have seen the drawings of Batalha, with which they were greatly pleased; they now return them requesting that as soon as they are engraved the artist will remember to send them some copies to renew the pleasure they had in seeing the original drawings»482.

477 Vide supra.

478 FIGUEIREDO, Manuel de, Descripção de Portugal: apontamentos e notas da sua historia

antiga e moderna, ecclesiastica, civil e militar, Lisboa, Typ. Lacerdina, 1817 (ed. orig. 1788),

pág. 188. 479 Id., ib..

480 Veja-se MURPHY, James, Viagens em Portugal, ob. cit.; e NETO, Maria João Baptista,

James Murphy e o restauro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no século XIX, ob. cit..

481 Illustrations of the literary history of the eighteenth century. Consisting of authentic

memoirs na original letters of eminent persons, vol. VI, London, J.B. Nichols and son, 1831,

pág. 440. MURPHY, James, Arquitectura gótica. Desenhos do Mosteiro da Batalha, ob. cit., pág. 94.

A satisfação explícita da rainha483 e de seu filho D.

João, futuro rei de Portugal, com as imagens do mosteiro – edifício que lembramos ser examinado pelos britânicos como objeto de um estudo maior acerca da arquitetura gótica 484 –parece ter consequências propulsoras na sociedade reinol ao corrente do caso. Murphy explica-o, em parte, quando narra a Conyngham o efeito multiplicador

que tivera o real acolhimento das suas ilustrações de Santa Maria da Vitória: «It was then they began to know the value of the work; and the next day I fortunately discovered the intention of some people here, whom I will not mention, who are determined to have drawings of Batalha made at any expense, when they found that all other solicitations were ineffectual to obtain them, in order to have them presented to the Queen, with a view to insinuate themselves into her good graces»485.

A chamada de atenção evidente sobre o monumento acentua inevitavelmente o interesse de que ele é (ou passa a ser) alvo. Cremos, por isso, que o olhar meditativo sobre as qualidades do edifício, bem como o conhecimento relativo ao seu estilo arquitetónico, sofre um incremento genérico (embora de representação ainda algo tímida) a partir do termo da década de 1780. Certamente, nunca antes se vira o gótico do monumento tratado com o fervor e com a dedicação que lhe votava Murphy.

Focado naquele estilo primitivo, ao longo de semanas, o irlandês debuxou os alçados e a planta do mosteiro com resultados seguramente distintos dos produzidos pelos arquitetos portugueses seus contemporâneos. Conta Murphy que os nacionais desenhavam a enorme mole em breves minutos e

483 Vale a pena lembrar que D. Maria visitou o Mosteiro de Alcobaça em 1782 e em 1786: não é despiciendo pensar que tenha estado também no vizinho Mosteiro da Batalha em pelo menos uma dessas ocasiões.

484 Veja-se a introdução de Maria João NETO a MURPHY, James, Arquitetura gótica.

Desenhos do Mosteiro da Batalha, ob. cit.; e NETO, Maria João Baptista, Do registo à difusão das formas (...), ob. cit.; Id., James Murphy e o restauro do Mosteiro de Santa Maria da Vitória no século XIX, ob. cit..

FIG.36 Fachada principal da igreja do Mosteiro da Batalha no álbum de J. Murphy, 1795.