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No dia 13 de Novembro de 1543, a princesa Maria Manuel casou-se com o príncipe Filipe das Astúrias94, em Salamanca. Estavam presentes o cardeal D. João

Taveira, o Arcebispo de Toledo (que oficiou a cerimónia) e o duque de Alba, que era o seu padrinho de casamento. A princesa tinha vestido em roupa e jóias, ao que se dizia,

92Renda de pano para adornar o pescoço.

93“Relación del recebimiento que se hizo a Doña Maria, Infanta de Portugal, (…) cuando vino a España à desposarse com Felipe II en el año 1543”, in Colección de Documentos Inéditos para la Historia de España, ed. M. Fernández de Navarrete, Miguel Salvá, Pedro Sainz de Baranda, T. III, Madrid: Imprenta de la Viuda de Calero, 1843, pp. 388-389.

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mais de 150 mil cruzados95. À noite houve serão, que começou às 21 horas e só acabou às 23 horas, com música e dança entre os fidalgos, e também entre os príncipes, casados de fresco.

Poucos dias depois, a 16 de Novembro, houve festas de touros e foguetes, lançados do pelourinho da cidade; a 17 de Novembro realizou-se uma justa e novamente vários desfiles com atabales, trombetas e charamelas, e no dia seguinte um novo torneio, às 22 horas, e foguetes lançados de uma torre, que “pareceo muito milhor que ho torneo”96.

Nos dias seguintes, os príncipes e a comitiva percorreram outras vilas, onde se deram várias recepções com pompa; dirigiram-se a Tordesilhas, onde chegaram a 24 de Novembro, para cumprimentar a já idosa rainha D. Joana, que era avó de ambos; a rainha pediu para os netos dançarem para ela. Depois desta visita, partiram para Valladolid.

Com a consumação do matrimónio, era esperado que a princesa engravidasse e trouxesse o herdeiro do trono à vida – no entanto, a princesa ainda não era menstruada quando partiu para Espanha97, facto que preocupava a rainha D. Catarina. Por várias

vezes os médicos tentaram estimular o organismo da princesa recorrendo a sangrias, facto que a rainha desaconselhava, por o fazerem no pé em vez do braço, acreditando que iria dificultar a gravidez da princesa. Esta gravidez era ainda dificultada pelos ataques de sarna que atormentavam a princesa, e de que a sua mãe também sofrera após o seu casamento. As suas preocupações de mãe levaram ainda que pedisse à camareira- mor da princesa para lhe relatar as visitas do príncipe à princesa durante a noite; mas só no Verão de 1544 é que a princesa foi menstruada pela primeira vez e pouco tempo depois engravidou.

O casamento da princesa foi também pouco feliz, pois após a consumação, também o príncipe teve um ataque de sarna e voltou às suas saídas nocturnas (facto que era já um hábito antes do casamento) e apaixonou-se por uma dama da casa das suas irmãs, Isabel Osório. O pai, o imperador Carlos V, chegou a repreendê-lo pelas suas atitudes e por estar a causar mal-estar na corte portuguesa, mas mais tarde acabaria por

95SOUSA, António Caetano de - Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1744), Index, Tomo III,1 ª parte, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora, Lda, 1948, p.179.

96IBIDEM, p.184.

97BUESCU, Ana Isabel - Catarina de Áustria (1507-1578): Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal, Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007, p. 282.

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o felicitar por carta pela gravidez da princesa portuguesa98, embora o tenha alertado que não visitasse a mulher demasiadas vezes após a consumação do matrimónio.

A princesa teve uma gravidez normal, mas o parto foi complicado, dificultado pela má posição do feto; foi colocada uma pedra-de-águia (limonite) entre as coxas da princesa, pois acreditava-se que irradiava calor99 e auxiliaria no parto. O príncipe

acabou por nascer a 8 de Julho de 1545, mas devido às complicações do parto a princesa ficou com uma infecção e teve febre puerperal dois dias depois do parto, e de seguida, uma infecção generalizada, que levou a que fossem realizadas novas sangrias. Após muitas rezas e orações, a princesa acabou por morrer a 12 de Julho de 1545, ainda antes de completar 18 anos, quando as festas do nascimento do infante ainda estavam a ser preparadas. Foi enterrada primeiro no Convento de S. Paulo de Valladolid, mas depois foi trasladada para a capela dos Reis Católicos em Granada, e mais tarde para o panteão de S. Lourenço do Escorial.

A morte da princesa representou um imenso pesar para os seus pais, não só a nível familiar, mas também porque nunca chegaram a ver a sua filha rainha de Espanha. O infante foi baptizado com o nome de Carlos, em honra do seu avô paterno, o imperador Carlos V. No entanto, o seu parentesco viria a trazer alguns problemas – os seus pais eram primos – irmãos através das suas mães, D. Catarina e D. Isabel, e por isso tinham os mesmos avós (tal como já foi mencionado, D. Joana era avó tanto da princesa Maria como do príncipe Filipe). Morreu a 24 de Julho de 1568, aos 23 anos; entre os planos para o seu futuro estava o trono de Portugal, de acordo com Carlos V100, devido ao facto de D. Sebastião ser também ele uma figura frágil, e poder vir a desaparecer prematuramente. Chegou a enviar uma comissão a D. Catarina com o pedido, mas tal nunca se chegou a realizar.

98PARKER, Geoffrey – Felipe II, Madrid: Alianza Editorial, 1991, pp. 18-109.

99O nome vem do facto de as águias as usarem para aquecer os ninhos. BUESCU, Ana Isabel - Catarina de Áustria (1507-1578): Infanta de Tordesilhas, Rainha de Portugal, Lisboa: A Esfera dos Livros, 2007, p. 285.

100SOUSA, António Caetano de - “ Capítulo XVI. Da Infanta D. Maria Princesa das Astúrias” in Historia Genealógica da Casa Real Portuguesa (1737), Tomo III, Coimbra: Atlântida – Livraria Editora Lda,1947, p. 338.

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