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Nas Ciências Sociais duas posturas epistemológicas e ontológicas distintas sobre a natureza do conhecimento e da realidade têm suportado diferentes paradigmas de investigação: o paradigma quantitativo e o qualitativo (Taylor e Bogdan, 1992; Coutinho, 2008).

Segundo Stake (2007), a investigação quantitativa visa essencialmente a identificação e descrição das causas dos fenómenos, a sua explicação, enquanto que a abordagem qualitativa procura compreender os acontecimentos, descrever a riqueza e profundidade da experiência humana e dos seus contextos.

A perspetiva quantitativa considera o objeto da investigação como independente do sujeito que o estuda, supõe que esse objeto é regulado por leis que, uma vez descobertas, permitirão prever e controlar os fenómenos investigados. A validade do estudo depende das condições em

respeitando as mesmas condições do estudo anterior e os mesmos processos metodológicos (Bogdan et al., 1994; Coutinho, 2008).

A abordagem qualitativa coloca o enfoque na construção mental dos sujeitos, concebendo a realidade social como uma realidade dependente das diversas perceções dos sujeitos que são objeto do estudo e também do investigador, enquanto construtor de sentido. Procura-se conhecer o significado que os indivíduos atribuem às diversas situações que vivenciam, obter o ponto de vista do próprio objeto de estudo, de forma a compreender a complexidade social (Latorre et al., 1996, Mertens, 1998 apud Coutinho, 2008; Bogdan et al., 1994).

As ações humanas encontram-se demasiado intrincadas para que seja possível descrever todas as causas implicadas num evento, achando-se os fenómenos relacionados de forma complexa e a ocorrerem em contextos diversos, pelo que será necessário um tratamento holístico dos mesmos (Dilthey, 1976; Schwandt, 1994 apud Stake, 2007; Yin, 2005). Neste sentido, procura-se mais a compreensão ou interpretação dos fenómenos do que a sua explicação ou determinação das causas que estão na sua origem, privilegiando-se "a compreensão das complexas inter-relações entre tudo o que existe" (Stake, 2007, p. 53).

O paradigma quantitativo aborda a realidade a partir de uma teoria, formulando hipóteses, em que se procura definir uma relação entre um número restrito de variáveis que, posteriormente à recolha de dados quantificados e sua análise, serão aceites ou rejeitadas (Stake, 2007; Coutinho, 2008). Já o paradigma qualitativo adota uma metodologia indutiva, partindo dos dados para a procura de padrões de relações, esperadas ou imprevistas (Stake, 2007), nada estando definido à partida, pelo que o conhecimento do fenómeno é obtido pela interação do investigador com o objeto do seu estudo, as pessoas (Usher, 1996; Latorre et al., 1996; Myers, 1997 apud Coutinho, 2008; Stake, 2007).

Bogdan e Biklen (1994) referem que os dados de uma investigação qualitativa são ricos em descrições de pessoas, conversas e contextos onde os fenómenos em estudo ocorrem, pelo que "divorciar o acto, a palavra ou o gesto do seu contexto é perder de vista o significado" (idem, p.48) sendo por isso de complexo tratamento a nível estatístico. As questões que orientam a investigação são formuladas para um aprofundamento da investigação de fenómenos complexos e dos seus contextos naturais, não sendo definidas para uma operacionalização de variáveis. Estas questões podem ser reformuladas ou acrescentadas à medida que a investigação decorre (Bogdan et al., 1994; Stake, 2007; Yin, 2005) visando "a compreensão dos comportamentos a

partir da perspetiva dos sujeitos da investigação" (Bogdan et al., 1994, p.16) e do próprio investigador (Stake, 2007).

3.1.1.1. Estudo de caso

O estudo de caso é um plano de investigação em que se realiza uma observação minuciosa de um indivíduo ou grupo, de uma organização ou comunidade, de um acontecimento específico, no seu contexto natural, utilizando uma estratégia de pesquisa abrangente de modo a compreender a sua complexidade (Yin, 2005, Bogdan et al. 1994; Gomes et al., 1999).

Segundo Yin (2005), "o estudo de caso permite uma investigação para se preservar as características holísticas e significativas dos acontecimentos da vida real" (idem, p.20) em que pessoas, contextos e fenómenos se encontram demasiado imbricados para, separando e testando hipóteses, se obter uma compreensão global do fenómeno. Trata-se de um plano de investigação empírico, uma vez que se investiga o fenómeno num contexto real e em que não se consegue distinguir claramente o fenómeno do contexto (idem).

Algumas características identificam esta abordagem metodológica: o caso deve apresentar fronteiras bem definidas, encontrando-se claramente delimitado; esta delimitação permite clarificar o que se vai investigar, orientando a investigação; o caráter holístico e único do caso deve ser preservado; a investigação situa-se num ambiente natural; as fontes de dados e os métodos de recolha devem ser diversificados; o fenómeno em estudo deve ser retratado de forma abrangente, pelo que se usam descrições e narrativas extensas (Yin, 2005; Stake, 2007; Coutinho et al., 2002).

Yin (2005) salienta o papel que a teoria desempenha quando se utiliza a metodologia de estudo de caso. Enquanto que os estudos etnográficos pressupõem que se parta para a investigação o mais livre possível de conjeturas e suposições, o estudo de caso supõe a construção de uma teoria prévia, um esquema para a investigação, que pode ser conseguido por uma boa revisão da literatura relacionada com o tópico em estudo. Esta teoria ou esquema concetual permitirá a elaboração de um projeto de pesquisa que interligará as questões que orientam a investigação com as proposições teóricas sobre o fenómeno e, como refere Yin

"...fornecerá uma direcção surpreendentemente forte ao determinar quais dados devem ser coletados e as estratégias de análise desses dados. Por essa razão, é essencial que se desenvolva uma teoria antes que se faça a coleta dos dados para qualquer estudo de caso" (p. 50).

Também Stake (2007) chama a atenção para a necessidade de o investigador, previamente ao trabalho de campo, planear toda a investigação a partir de uma organização concetual que lhe permita elaborar "pontes conceptuais a partir daquilo que já é conhecido, estruturas cognitivas para orientar a recolha de dados, e linhas gerais para apresentar as interpretações a outros" (idem, p. 31), o que procuramos assegurar neste estudo, através da revisão de literatura efetuada.