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Acreditamos que a problemática discutida por María Zambrano em Filosofía y poesía serve para simular o sentido geral do trágico em sua vida, como a saída da Espanha através do exílio que funcionaria como um acontecimento real, mas também como uma metáfora desse ser que se busca por não saber ao certo quem é ou que elementos o constituem e que tenta aplacar a angústia de se sentir um ser perdido no mundo. Isso evidentemente está representado, como dissemos, dentro de um plano filosófico, mas também dentro de uma realidade concreta, o que nos parece extremamente interessante dentro da nossa análise. Como agentes fomentadores desse sentir, é indispensável a referência, que tanto andamos debatendo, à modernidade, à sensação de melancolia, à derrota de um desejo épico pelo triunfo de uma república social e libertadora. De maneira muito perspicaz, Zambrano reflete, por meio de filósofos mestres como Platão e Sócrates, a condição trágica do homem na modernidade ao declarar que, desde tempos muito

remotos, o pensamento, muitas vezes como uma força violenta defensora de uma verdade, sempre travou rigorosas batalhas com a poesia, com a afirmação das necessidades preeminentes do sujeito. Na verdade, Platão, por meio de uma série de metáforas filosóficas, traduzia poeticamente a crise e os questionamentos intrínsecos da alma humana, que atravessam os tempos. É verdade também que enquanto a filosofia mostra um caráter de fracasso diante da perplexidade com respeito a uma realidade imediata, a poesia caracteriza-se como uma forma de esperança que confere ao sujeito uma autonomia da pessoa. De qualquer maneira, pensamos que a escritura, como um ato exclusivo do sujeito, é sempre um sinal de esperança, pois o desejo por mudança é o que motiva o ato de escrever. Sem esperanças, não se escreveria, não se discutiria, não se lutaria.

De no tener vuelo el poeta, no habría poesía, no habría palabra. Toda palabra requiere un alejamiento de la realidad a la que se refiere; toda palabra es también, una liberación de quien la dice. Quien habla aunque sea de las apariencias, no es del todo esclavo; quien habla, aunque sea de la más abigarrada multiplicidad, ya ha alcanzado alguna suerte de unidad, pues que embebido en el puro pasmo, prendido a lo que cambia y fluye, no acertaría a decir nada, aunque este decir sea un cantar. (ibid., p.21)

Como revelação, a poesia, por certo afastamento da realidade concreta, desfruta da experiência de ‘desembaçar’ o enigma do mundo, compreendendo que cada civilização detém uma visão particular do seu próprio tempo. Os pressupostos definidores do sujeito lírico, como uma entidade fragmentária, incompleta, cindida apresentam suas raízes na observação funesta de uma história, cujo sentido se quer dotar por meio do pensar poético. A poesia é, assim, “essa busca de um agora e de um aqui”, haja vista que a técnica não bastasse usurpar do homem uma imagem de mundo, não foi capaz de lhe fornecer outra visão substituta, que apoiasse as suas convicções. Um regresso às antigas mitologias tampouco seria uma solução plausível a esse problema, em virtude de uma perspectiva intelectual moderna, difusora de outros valores concordantes com as novas particularidades de uma atual vivência histórica. O poeta, dessa maneira, descobriu-se cercado pela imensa solidão de um desterrado tanto no presente como também no futuro, ocasionada pela dúvida e pela ausência dos nexos que conectavam o homem a um passado e também a um porvir. A frustração da

civilização referente à inexistência de pelo menos um espectro de futuro, no qual antes se acreditava firmemente, decantou os sonhos relativos às promessas da modernidade no tocante à imortalidade da história. O que restou foi a instantaneidade de um presente fugidio que se distingue pelo movimento e pela passagem, o qual, face à sua efemeridade, não permite ao homem uma identificação e um reconhecimento pleno de si. Ao poeta e ao homem, falta-lhes unidade e, para Zambrano, a unidade que pensa conseguir o poeta na poesia é sempre incompleta, na medida em que há sempre o desejo de saber, como muito bem decretou Aristóteles e, nesse sentido, a poesia e a filosofia, como representantes do ato de escrever, são um tempero especial que diferenciam a compreensão do mundo, que intencionam rejeitar todos esses valores impostos pela cultura da modernidade, que valorizam o forte, o grandioso, o vencedor, quando, na verdade, vivemos situações em que predominam valores ou sentimentos extremamente contrários a esses.

A pesar de que en algunos mortales afortunados, poesía y pensamiento hayan podido darse al mismo tiempo y paralelamente, a pesar de que en otros más afortunados todavía, poesía y pensamiento hayan podido trabarse en una sola forma expresiva, la verdad es que poesía y pensamiento se enfrentan con toda gravedad a lo largo de nuestra cultura. Cada una de ellas quiere para sí el alma donde anida. Y su doble tirón puede ser la causa de algunas vocaciones malogradas y de mucha angustia sin término anegada en esterilidad. (ibid., p.13)

A obra de María Zambrano procura reconciliar a filosofia e a poesia como duas formas de pensar e dizer-escrever o mundo. Parece-nos claro que María Zambrano contempla a realidade de uma maneira filosófico-poética ou através de uma razão poética, que se torna um método outro para apreender a realidade e tentar amenizar harmonicamente um conflito íntimo entre um sentir, um querer ser poeta e um precisar ser filósofa: “[...] Zambrano pretende hacer filosofía desde la perspectiva y posición discursiva del «poeta», una filosofía nueva, cuyo logos habría de traspasar los límites de lo racional.” (BUNDGARD, A., 2000, p.217) A ensaísta espanhola nunca ocultou as suas reservas quanto à filosofia clássica no que respeita ao lógos da razão e ao pensamento sistemático para expor conceitos, no geral, ontológicos dentro da escritura moderna. Desse modo, María Zambrano insiste muito na crítica da filosofia da modernidade e, a partir dela, realiza uma análise que contesta a filosofia como um todo. Para a autora, era necessária uma

filosofia diferente, mais poética, em contraste com a própria história e tradição do pensamento ocidental, para que fosse possível criar um tipo de laço adâmico entre o ato filosófico e o ato poético. Nesse discurso, há uma influência romântica que apregoa uma característica divina ao poeta e um poder redentor à poesia no intuito de exceder uma modernidade racionalista por meio do que a autora chama, como já vimos, de uma metafísica da criação. Nesse sentido, existe uma valorização do indivíduo e o seu poder de criação na arte, que, consequentemente, passa para a história como uma manifestação humana. O homem diviniza-se na medida em que é capaz de criar na arte e na história, na medida em que pode construir a realidade. Se pudermos assimilar que o homem, mediante o ato de criar, consegue (re)incorporar o divino em seu interior, poderemos também depreender que essa heterogeneidade primigênia do seu ser lhe possibilita a transcendência, o que peculiariza o pensamento zambraniano como o de um idealismo em busca do sublime à semelhança do de São Agostinho e de Platão.

Vale notar que, em Filosofía y poesía, María Zambrano não diferencia ou conceitualiza rigidamente pensamento, filosofia, poesia ou conhecimento. Nos textos, tais termos aparecem de forma alternada, sem claras distinções. De acordo com a ensaísta, a filosofia é “un éxtasis fracasado por un desgarramiento” (ZAMBRANO, M., 1987e, p.16), como um método de conhecimento que visa alcançar uma verdade transcendente ao próprio sujeito e esperançosa, que lhe conduza ao (re)encontro com o divino em um voltar-se cristão para a interioridade: “Zambrano niega, apenas sin matizar o diferenciar, que un conocimiento sistemático y abstracto como en su opinión era la filosofía, pueda nunca captar y aprehender lo radical de la vida, el claroscuro y la zona de penumbra de lo irracional humano.” (BUNDGARD, A., 2000, p.233) Na realidade, seguindo concepções unamunianas, María Zambrano vê a filosofia como uma maneira de pensar nascida do fracasso e a ele também destinada por se tratar de uma reflexão abstrata e ideal que sacrifica e arruína a vida. Em virtude desse conceito, a autora vislumbra o pensamento filosófico como uma modalidade de discurso que se notabiliza pelo saber incontestável da experiência. A poesia e o poeta estão envolvidos por um misticismo de uma vivência subjetiva, que se expressa por meio de uma escritura ficcional narrativa de representação. A

oposição entre filosofia e poesia está no fato de que existe uma espécie de traição originária de um fracasso. Explicando melhor essa questão, para María Zambrano, a filosofia nasce de uma traição do pensamento distanciado da admiração e dela ‘desgarrado’ pela violência do conhecimento. Vale a pena repetir a citação:

Diríase que el pensamiento no toma la cosa que ante sí tiene más que como pretexto y que su primitivo pasmo se ve enseguida negado y quién sabe si traicionado, por esta prisa de lanzarse a otras regiones, que le hacen romper su naciente éxtasis. La filosofía es un éxtasis fracasado por un desgarramiento. ¿Qué fuerza es esa que la desgarra? ¿Por qué la violencia, la prisa, el ímpetu del desprendimiento? (ZAMBRANO, M., 1987e, p.16)

Insistimos em que Filosofía y poesía aborda, de maneira reiterativa, a violência da filosofia e a crítica do valor sistemático e abstrato dessa forma de pensamento, que simboliza, na concepção zambraniana, o ‘poder’, a ‘soberba’, o ‘saber ambicioso’ e o ‘império da razão’. A poesia, em meio a essa crença, aparece como a vivacidade única do espírito, a partir de uma ampla sucessão de dicotomias de efeito enunciativo apresentada pela escritora espanhola.

Frente a la «soberbia de la filosofía» se alza en el discurso zambraniano el principio receptor, pasivo y apasionado de la poesía, «gracia y verdad», mas no «verdad excluyente», sino «generosa presencia», «heterogeneidad», «multiplicidad desdeñada», «esperanza», «poder dulce e inquieto que calma y no basta», «posesión de un todo recibido», «mundo abierto», «fidelidad de las cosas», «admiración ante la vida», «don, hallazgo por gracia». (BUNDGARD, A., 2000, p.234)

Desse modo, conforme assevera Zambrano, conhecimento e poesia, sobretudo na modernidade, tornaram-se saberes rivais. A única forma de congraçá-los novamente será por meio da mediação de um lógos redentor concebido pela escritora como método da razão poética, que, embora não totalmente elaborado no ano de 1939, já estava em processo de formação. Esse princípio de inteligibilidade define-se por um caráter essencialmente místico e religioso, visto que a ‘verdade’ alcançada por este método é concedida por uma ‘graça’. Por causa de sua inefabilidade, essa ‘verdade’ revelada pela razão poética à autora não pode ser compreendida totalmente pelo pensamento.

La verdad se reconoce ya como parcial y la misma razón descubridora del ser, reconoce la diferencia injusta entre lo que es, y lo que hay. Al hacerlo así, se acerca al terreno de la poesía. Y la poesía al sufrir el martirio de la lucidez, se aproxima a

la razón. Mas no pensemos todavía en que se verifique su reintegración, tantas veces soñada por quienes no pueden decidirse entre una y otro. Quien está tocado de la poesía, no puede decidirse y quien se decidió por la filosofía no puede volver atrás. Sólo el tiempo, la historia, cuando al fin, haga que se sitúe la razón, agotado el tema del ser y de la creación, más allá. Allí donde, desde hace largos tiempos, espera la verdad revelada e indescifrable, la verdad donde, realmente, la «caridad está hechizada». Caridad y comunión que no han trascendido al pensamiento, porque nadie ha podido todavía pensar este «logos lleno de gracia y verdad». (ZAMBRANO, M., 1987e, p.116)

María Zambrano afasta-se do conhecimento filosófico clássico e da metafísica moderna para, posteriormente, vaticinar a ideia de conciliação entre filosofia e poesia em um lógos que assimile uma verdade descoberta e indescifrável aos olhos puramente racionais, que se aloja em um terreno além do ser, da criação ou da lógica tradicional. Como esse lógos ultrapassa a razão, ninguém realmente ainda pôde pensá-lo.

Cabe perceber, nas interpretações que María Zambrano realiza sobre a Divina Comédia, as relações fluidas que antes vigoravam entre religião, poesia e filosofia: a obra de Dante “realiza ese momento feliz, tal vez no repetido, de unión sin vagas y nebulosas identificaciones, entre poesía, religión y filosofía.” (ibidem, p.75) Segundo a escritora, a filosofia e a religião encarnavam a esperança de ser para o homem e a poesia, por sua vez, tratava de materializar miticamente esse sentimento salvífico. Parece-nos que a razão poética tem o intuito de restaurar a identificação venturosa entre filosofia, religião e poesia, conforme o elo apresentado na Divina Comédia e na própria poesia mística.

Otro momento de unidad profunda entre las tres cosas se verifica, según se nos ha aparecido, por el camino de la mística. Pero esto es preciso al menos dejarlo ahora señalado, comporta un problema aparte: la cuestión un tanto grave, de que toda poesía sea en último término, mística o la mística sea en su raíz poesía; una forma de religión poética o religión de la poesía. (ibid.)

Na visão de María Zambrano, na época da modernidade, o homem reempreende, por meio de uma ‘metafísica da criação’, a abertura de outros horizontes de esperança, que consistem em atrair para o nosso mundo o que, em tempos passados, aceitava-se como uma bênção do além-túmulo: “La nueva esperanza no se encierra dentro del asceticismo; lo quiere todo, sin tener que renunciar por el pronto a nada.” (ibid., p.76) Se antes somente a deidade tinha o

poder de se autodeterminar, nos novos tempos, o homem possui a faculdade de se conceber a si próprio como um ente livre, autônomo e fecundo.

Éste era, al parecer, el programa del pensamiento; programa francamente religioso. La razón caminaba por el cauce de una desmedida ambición religiosa. El hombre quería ser. Ser creador y libre. Y seguidamente: ser único. Son los pasos decisivos sin duda de la historia moderna, de eso que propiamente se llama Europa. Y su angustia y su tragedia. (ibid., pp.77, 78)

Sem lugar a dúvidas, María Zambrano destaca a realidade da pessoa como um assunto de foro íntimo e reconhece que todo ser é heterogêneo em relação ao mundo que povoa, posto que em vez de se pensar a partir das coisas ou dos objetos, se reflete a partir do sujeito.