- SPSS
A utilização da ferramenta computadorizada SPSS correspondente aos registros dos editoriais foi construída com 9 variáveis, agrupadas nas modalidades forma, conteúdo e discurso também adaptadas para a análise de conteúdo e análise de discurso dos editoriais da revista Raça Brasil.
1.2.2. Análise referente à forma
A revista Raça Brasil, na totalidade dos anos de 2003, 2004 e 2005 somou 28 peças. Em 2003, ano em que Raça Brasil passou de publicação mensal para bimestral contou com 6 peças. Em 2004, inicia o ano com publicação ainda bimestral no mês de janeiro e a partir de abril retorna à publicação mensal, o que resultou em 10 peças anuais. Em 2005, Raça Brasil somou 12 peças (publicação de janeiro a dezembro).
Quanto ao gênero jornalístico o único escolhido para a análise foi o gênero editorial. No período abrangido pela pesquisa o corpus de texto é constituído por 28 peças, ou seja, 28 editoriais.
1.2.3. Análise referente ao conteúdo
O tema mais focado nos 28 editoriais da revista Raça Brasil, durante 2003, 2004 e 2005, é auto-estima com 7 peças, seguido do tema cultura, com 6 peças. No tocante ao tema auto-estima, a origem encontra-se no black is beautiful, movimento de afirmação política e cultural dos negros norte-americanos na década de 196027,
ou seja, para a via da ascensão social para negros de classe média, que se expressa no plano do consumo.
O resultado geral aparece com algumas modificações quando os resultados são verificados ano a ano. Em 2003, entre os 18 temas, 6 aparecem empatados, com uma peça cada: condições sociais, cultura, legislação, discriminação, beleza e outro, o que demonstra uma tendência mais variada na opção das temáticas, que possivelmente está relacionada à crise editorial da revista Raça Brasil, que, após 7 anos com publicação mensal, passara a circular bimestralmente, numa fase de declínio, com boatos de extinção, numa possível crise de identidade editorial, fato
27 Este fato pode ser confirmado no editorial, assinado por Aroldo Macedo, na edição de número 1, de setembro
de 1996, na Seção Editorial, página 4, da referida revista em que apresentada na proposta editorial da nova publicação, a qual enfatiza que “Raça Brasil nasceu para dar a você, leitor, o orgulho de ser negro. Todo cidadão precisa dessa dose diária de auto-estima: ver-se bonito, a quatro cores, fazendo sucesso, dançando, cantando, consumindo. Vivendo a vida feliz”.
comum no mercado editorial depois de um certo período de boom de produtos novos, principalmente quando dirigidos a um público específico.
Em 2004, com o retorno no mês de abril da circulação mensal, auto-estima e cultura voltaram a ocupar o topo. O mesmo ocorrendo em 2005.
Os resultados apresentados demonstram que as temáticas que a revista Raça Brasil privelegiou são auto-estima e cultura. Não se deve esquecer que quando a revista aborda o tema cultura é sempre como sinônimo de entretenimento. A cultura na revista aparece como um forte aspecto da contribuição dos negros brasileiros na formação do imaginário nacional por meio da música, da dança e de histórias de vida, porém sempre com um destaque para aqueles que são reconhecidos como “celebridades midiáticas”, bem-sucedidos economicamente, que ascenderam socialmente, legitimando o reconhecimento da cidadania do negro por meio do poder de consumo. Portanto, mesmo quando se trata do tema cultura, o olhar editorial é sempre focado no resgate da auto-estima. As histórias de sucesso pessoal de “celebridades midiáticas”, a música, a dança nos discursos apresentados nos editoriais possuem a intenção de remeter ao processo de mobilidade social do negro brasileiro pelo esforço individual, que leva a um sucesso também individual, intimamente ligado ao poder do reconhecimento da auto-estima e como modelo para o resgate da auto-estima de outros negros. Ou seja, a auto-estima está vinculada ao poder de consumo como um fator de empoderamento na conquista da cidadania do negro na sociedade brasileira.
1.2.4. Análise referente ao discurso
As argumentações mais utilizadas nas 28 peças, em 2003, 2004 e 2005, foram de ordem social e política, ambas com 10 peças cada. Somadas, as argumentações de natureza social e política representaram quase a totalidade das 28 peças analisadas. Mesmo quando os dados são destacados ano a ano, o resultado permanece idêntico. As argumentações utilizadas nos editoriais da revista Raça Brasil adotam um enfoque político e social para os temas que em sua maioria estão entre auto-estima e cultura. As argumentações de teor político e social mostram que a revista tem conhecimento da esfera em que se encontram as questões, que envolvem o negro na sociedade brasileira, porém a resolução para tais questões são buscadas na esfera da ascensão social por via do consumo, do processo de conquista de cidadania pelo caminho do individualismo.
No cruzamento dos temas mais focados na totalidade dos editoriais durante os 3 anos com as argumentações mais visadas, o tema auto-estima aparece em primeiro lugar, com 4 peças, relacionado com a argumentação social. Este resultado é bem próximo quantitativamente dos demais cruzamentos entre tema e argumentação: legislação com política, 3 peças; condições sociais com política, 2 peças; cultura com política empatada com social e cultural, 2 peças cada; outro com 2 peças cada; beleza com cultura, 2 peças e educação com social, 1 peça.
Quando a análise é a narrativa mais focada nos 3 anos, das 28 peças, 10 são para épico e 10 para factual. No resultado ano a ano, factual e épico também são as duas narrativas mais utilizadas.
No que se refere ao tom dominante das peças durante os 3 anos analisados, o resultado positivo aparece em 26 peças, ou seja, em maioria absoluta.