O conhecimento apreendido pelo aluno em ambiente escolar deve fazer parte de sua vida e ao mesmo tempo servir como ferramenta para auxiliá-lo em seu dia-a-dia. Os documentos normativos da educação, suas diversas edições, e atualmente a BNCC16 (Base Nacional Comum Curricular), estabelecem que o ensino deve preconizar os conteúdos que tenham relação com o cotidiano.
No desenvolvimento das diversas atividades práticas propostas na SD foram evidenciados momentos em que a contextualização do conhecimento é propiciada pela atividade diversificada. Ocorreram conexões com assuntos já abordados, de forma a relacionar conhecimentos prévios dos alunos, buscando explicar fenômenos físicos, que com o tratamento matemático tradicional e a aula exclusivamente expositiva seria improvável sua compreensão.
A seguir alguns trechos de produções dos alunos.
Eu achei muito interessante saber que a onda que tem maior potência, ela predomina sobre a transmissão mais fraca. (A4)
Se passarmos um ímã de maior força, acontece que a fita tem um código que fica apontando um norte e um sul, se passarmos o ímã ficam tudo do mesmo, por exemplo, norte, você irá perder o código da fita. (A7)
Por exemplo, temos o rádio de Galena que funciona sem uma fonte de energia, porém, só consegue captar rádio AM que tem um sistema mais fraco, então a energia serve para amplificar o som do rádio, conseguindo tocar rádio FM também. (A6)
Muito diferente, não pensava que o rádio tinha tantas especialidades como agora eu sei. Mas hoje tenho uma visão muito diferente, aprendi que o rádio é um recurso de desenvolvimento em diversas modalidades desta ciência. (A16)
E os rádios vieram logo após a energia, e com a descoberta da energia, as ondas. Com essas descobertas veio logo a tecnologia que revolucionou o mundo. (A18)
Para se informar do que se acontecia no mundo era preciso ir para a casa de vizinhos ou amigos que tinham televisão (imagem preta e branca) ou rádio para escutar o que acontecia. (A13)
Outros meios de comunicação da época era os telégrafos, telefones (que só tinha um na cidade) e a televisão, porém esses meios eram mais caros, como a minha família era carente demorou usá-los. (A21)
16 Consideramos a versão preliminar para o Ensino Médio. A versão final será divulgada no site oficial:
Na casa da minha tia J. eles mandavam cartas e usavam orelhões que ficavam na rua. Com a evolução e as tecnologias avançadas surgiram os celulares, as redes sociais, os orkuts depois o MS, agora o Facebook e o Whatsapp que podemos comunicar, conhecer as pessoas novas, saber das notícias e estudas com pessoas que estão longe. (A20)
A contextualização do conhecimento pode ser relacionada à aplicação e uso do conhecimento apreendido. Também o gosto em aprender se relaciona com a contextualização e significação conceitual, conforme Bonadiman eNonenmacher (2007):
Consideramos que as atividades devem promover o gosto pelo aprendizado uma vez que a aplicação no contexto do aluno favorece a significação conceitual, assim o desenvolvimento de um propicia o desenvolvimento dos demais. Um dos aspectos fundamentais no ensino da Física, que é de cunho teórico-metodológico, capaz de motivar o aluno para o estudo e, deste modo, propiciar a ele condições favoráveis para o gostar e para o aprender, está relacionado com a percepção que o estudante tem da importância, para a sua formação e para a sua vida, dos conteúdos desenvolvidos em sala de aula. Essa importância fica evidenciada para o aluno se o professor atribuir significado à Física por ele ensinada na escola, satisfazendo, dessa forma, parte da curiosidade do estudante, que comumente é explicitada pela conhecida pergunta: para quê serve isso, professor? (BONADIMAN E NONENMACHER, 2007, p. 198)
Os conhecimentos utilizados nas aulas de Física na escola foram utilizados pelos alunos como forma de compreender o mundo, fenômenos da natureza com os quais eles convivem, consideramos que o aprendizado transcendeu a aplicação escolar básica, exercícios, atividades e a aplicação deu-se no contexto dos aprendizes. O aluno A4 faz a relação entre potência da onda eletromagnética na transmissão da estação de rádio e a interferência de ondas. Na fala do aluno A20 verifica-se um grande salto temporal saindo de uma época que usavam cartas e o telefone público como meio de comunicação e passando para os tempos atuais com as redes sociais, celulares e internet acessível a quase todas as pessoas. É possível que este aluno não tenha conhecimento de como esses meios de comunicação evoluíram e que as ondas eletromagnéticas são a base das telecomunicações.
Verifica-se que alguns textos que os alunos produzem individualmente (A13, A16, A18), são curtos e com poucas informações, o que indica ainda pouco domínio sobre o assunto ou desconhecimento quanto à evolução dos meios de comunicação na comunidade onde vivem. Estes conseguem estabelecer relação com o dia-a-dia, mas os conceitos são superficiais e é possível que os significados ainda não foram consolidados.
Ao utilizar o rádio de Galena, como equipamento gerador, propiciamos que os adolescentes de hoje, que convivem com comunicação instantânea, reflitam sobre o contexto em que estão inseridos. Promove a reflexão sobre uma realidade que as pessoas precisavam se deslocar grandes distâncias para utilizar um telefone público proporciona aos alunos o pensamento sobre as dificuldades enfrentadas por seus pais, avós e outros antepassados.
A contextualização, associada à interdisciplinaridade, também é considerada como relevante nos documentos normativos da educação básica, como as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio - DCNEM (BRASIL, 1998).
Interdisciplinaridade e contextualização formam o eixo organizador da doutrina curricular expressa na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996). Elas abrigam uma visão do conhecimento e das formas de tratá-los para ensinar e para aprender que permite dar significado integrador a duas outras dimensões do currículo de forma a evitar transformá-las em novas dualidades ou reforçar as já existentes: base nacional comum/parte diversificada, e formação geral/preparação básica para o trabalho. (BRASIL, 1998, p.50)