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Após ter se entregado a um processo de transformações, em função do contato que estabeleceu com o outro, ainda que obedecendo a alguns de seus limites, o protagonista dirige-se para o momento de maior tensão, no clímax, com o sumiço do hippie: “Aconteceu uma coisa horrível. É muito tarde e ele não veio. Não consigo compreender. [...]. Chorei muitas vezes olhando a margarida que ele me deu. Logo hoje que ia desenhar o último retrato [...]” (ABREU, 2001, p. 56-57). O vínculo comercial estabelecido entre os personagens se quebra, afetando, com isso, o vínculo afetivo que apenas o personagem protagonista havia

estabelecido com o hippie. Este vínculo se quebra contra a vontade do protagonista, levando-o ao desespero por não encontrar o outro. O agravante da situação se deve ao fato de que no próximo encontro seria feito o último retrato, quando, supostamente, o processo de transformação, tal qual um ritual, estaria completo. A ausência do hippie, contudo, antecipa a impossibilidade de o protagonista concluir o seu percurso. Numa tentativa desesperada, o protagonista ainda espera pelo hippie e passa a procurá-lo pela cidade, na esperança de encontrá-lo: “Saí a caminhar pela cidade, gastei o resto do dinheiro em cerveja, não consegui encontrá-lo. Telefonei para todas as delegacias e hospitais, fui ao necrotério. Não estava” (ABREU, 2001, p. 57).

No desfecho do conto, o protagonista realiza uma espécie de ritual que simboliza a sua própria morte. Esta morte simbólica se anuncia na própria aparência dos retratos: “Passei o dia na praça. Ele não apareceu. Levei os retratos comigo. Olhei-os, atentamente. São seis. O último parece um cadáver” (ABREU, 2001, p. 57-58). Antes de concretizar sua morte simbólica, o protagonista se desvinculará por completo das amarras sociais com as quais se comprometia, antes do início de seu processo de transformação:

À tarde, a secretária passou com o namorado e me viu deitado na grama. Não me cumprimentou e cochichou qualquer coisa com o namorado. [...]. Voltei devagar para casa, mas o porteiro não me deixou entrar. Mostrou-me uma circular feita pelas vizinhas dizendo coisas que não li. (ABREU, 2001, p. 58)

Verifica-se, neste trecho, que o protagonista atingiu um estado de mudança de comportamento a partir do qual ele já não é mais aceito pelos demais personagens do círculo social ao qual ele, antes, pertencia. A impossibilidade de retornar para o seu próprio apartamento indica que o protagonista sofreu uma mudança, a tal ponto, que ele não é mais reconhecido, por si mesmo e pelos outros. Isso caracteriza a experiência do desencontro do personagem consigo. Atrelado ao desencontro do personagem consigo mesmo, há o

desencontro do personagem com o outro, pois o sumiço do hippie revela ao protagonista que suas expectativas de aproximação fracassaram.

Um dado importante diz respeito ao tempo da narração. O texto é construído como se fosse um diário, com notas feitas dia a dia. O tempo verbal utilizado, para tanto, é o passado, apresentando os fatos ocorridos no dia, ao longo da semana. A partir do momento em que o protagonista não encontra mais o hippie, o narrador protagonista passa a privilegiar, em alguns momentos, o presente como o tempo verbal do conto, intensificando a sensação de angústia ao sugerir que ela esteja sendo vivenciada concomitantemente à leitura. Este efeito está presente na finalização do ritual de morte do protagonista:

Vim para o bar onde estou escrevendo. [...]. Espalhei os retratos em cima da mesa. Fiquei olhando. Despetalei devagar a margarida até não restar mais que o miolo granuloso. O sexto retrato é um cadáver. Acho que sei por que ele não veio. O barulho da chuva é o mesmo de seus passos esmagando folhas que não existem.

Flor é abismo, repeti.

Flor e abismo. E de repente descobri que estou morto. (ABREU, 2001, p. 58)

O final do conto, transcrito acima, instaura um paradoxo. Ninguém que morre pode perceber estar morto. Isto evidencia o caráter simbólico da morte do protagonista, que iniciou um processo de transformação incompleto, diante da ausência do hippie, e que não pode mais retornar a seu estado inicial. A concepção que o protagonista tinha sobre sua própria identidade – de pequeno-burguês bem integrado à ordem e aos valores dominantes – foi afetada pela presença e, sobretudo, pela posterior ausência do outro personagem. O paradoxo de reconhecer-se como morto é reforçado pela imagem em que o protagonista aproxima, numa mesma sentença, dois elementos distantes: flor e abismo. A imagem soa absurda, pois a flor, objeto belo, frágil e concreto é identificada a abismo. Este nos remete ao sentido de imenso vazio e de força capaz de tragar, de aniquilar qualquer um que dele se aproxime. A flor, objeto que o protagonista havia ganhado do hippie, ganha, com isso, o caráter de símbolo do modo de vida alternativo do movimento hippie, algo novo para o protagonista e que, até

então, apresentava-se como uma promessa de felicidade. Ao associar flor e abismo, o protagonista percebe que sua promessa de felicidade tornou-se impossível, instaurando o grande vazio que o domina, no presente: flor e abismo – promessa de felicidade e vazio avistado pela impossibilidade de realização efetiva desse ideal de felicidade – representam o desencontro do personagem consigo mesmo.

A morte simbólica revela que o processo do protagonista não pôde ser concluído. Como o último retrato não foi feito, o protagonista foi levado a uma situação de indefinição, pois ele não tem mais como retornar a seu estado inicial, uma vez que já não mais se reconhece nele, mas também não tem forças para completar sua mudança, o que exigiria que adotasse um novo modo de vida, desvencilhando-se de seus antigos valores. A imagem da margarida despetalada é metáfora deste processo de mudança vivido pelo protagonista, que se desintegra, gradualmente, a ponto de não mais poder reconstituir-se. Resta-lhe apenas a morte, ainda que simbólica, desse homem que ele fora um dia e desse outro que ele não veio a ser, que foi abortado logo na promessa de uma nova e outra existência.

Dias (2006) avalia que o procedimento adotado pelo protagonista de escrever o seu dia-a-dia com o hippie, como num diário, é uma espécie de “ponto de fuga” possível para sua situação de perda afetiva e de desintegração social: “esta auxilia o narrador na recomposição de si por meio da reorganização/reelaboração de sua experiência. A escrita, portanto, configura-se como uma espécie de redenção ao final do percurso da paixão; o próprio conto é a evidência disto” (DIAS, 2006, p. 69-70). A escrita, por outro lado, registra a experiência de sofrimento de modo a eternizá-la, prolongando-a para além dos limites da própria narração. Desse modo, o protagonista é levado à situação de vivência do desencontro consigo no presente, no momento da vivência da situação de desencontro, e, também, no futuro, uma vez registrada sua experiência na escrita, eternizando-a. O processo de transformação não é completado, o que significa que o desfecho não resolve o problema estabelecido pelo conflito

dramático, estendendo o sofrimento do protagonista para além do fim da narrativa. O sumiço do hippie restabelece a tensão do conflito entre os personagens e de seus respectivos e opostos modos de vida.

O estado de carência e de solidão do personagem protagonista, no início da narrativa, é reforçado pelo lugar ao qual pertence: a grande cidade. Verifica-se que o personagem se define como um habitante tipicamente citadino, seja em suas vestimentas, seja em seu trabalho. Este dado influi no modo de o protagonista encarar as situações às quais é exposto, uma vez que sua tentativa de estabelecer vínculos afetivos está sujeita aos vínculos sociais e comerciais das grandes cidades. Esta forma de se relacionar com os outros demonstra o quão desumanizadora é a ordem social na qual se insere o protagonista, pois este não consegue estabelecer vínculos interpessoais dentro ou fora do contexto de trabalho.

Logo, estamos diante de um personagem que experimenta o desencontro consigo mesmo em função de uma transformação. A transformação é interrompida, impedindo que o personagem complete seu processo de mudança e, também, que retorne ao seu estado inicial. O personagem é lançado em uma situação de indefinição – o que caracteriza a experiência do desencontro consigo mesmo. A transformação se iniciou no contato com o outro – o hippie. Neste contato, o protagonista conhece um universo e um modo de vida opostos aos seus valores, o que possibilita que ele passe a contestar o seu próprio modo de vida. O protagonista sofre, desse modo, com a perda da segurança de sua identidade e, consequentemente, de sua própria identidade. O desencontro se caracteriza pela dificuldade de o protagonista adotar uma nova identidade delimitada para si, sendo lançado num processo de indefinição e, portanto, de perda de si. Este estado de indefinição, contudo, revela-se, paradoxalmente, como um dado libertador, pois somente por meio deste processo o protagonista pôde distanciar-se da ordem social dominante, que o desumaniza. Isto, contudo, não significa que ele tenha rompido com a

ordem social dominante, mas que ele passou a ocupar um lugar marginal dentro dessa ordem social.

O desencontro em função de uma transformação será vivenciado, também, pelas protagonistas do conto “Fotografias”. Aqui também o processo de transformação das protagonistas ocorre em função de uma promessa, de uma perspectiva satisfatória para o futuro que não necessariamente será concretizada. Este dado faz com as protagonistas sofram alterações em seus modos de ser e de pensar, agindo em desacordo com seus valores e referenciais iniciais, vivenciando a experiência do desencontro consigo mesmas.