Neste Marajó das Florestas, os rios ocupam um lugar de extrema importância na vida dessa população como agente de mediação cultural. Pelas embarcações que cruzam o embalo das ondas dos rios caudalosos da Amazônia chegam produtos alimentícios, mas também roupas, remédios, cartas, frutas, água e eletroeletrônicos de todos os tipos, incluindo as Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs), como TVs, rádios, computadores,
smartphones etc. São as hidrovias que possibilitam essa interação entre os sujeitos marajoaras
e o mundo contemporâneo e suas diferentes matrizes culturais globalizadas. Eles são o grande mediador desse contato, que permite interação entre pessoas, histórias, conhecimentos e experiências. E foi o rio, a primeira rua da cidade por onde andei.
Esse traslado para chegar à Afuá já me pôs em contato com o tipo de relação que seus moradores e visitantes estabelecem com as mídias: entre as diferentes redes de algodão e de material sintético, é possível observar as pessoas utilizando equipamentos eletrônicos, como rádios, jogos eletrônicos, alguns tablets, mas principalmente celulares. Ainda que não haja sinal de telefonia no percurso da viagem, tais tecnologias auxiliam as interações interpessoais dos viajantes. Pude verificar diferentes estilos musicais vindo de pequenos “telefones inteligentes”, jovens registrando os momentos da viagem nas câmeras digitais acopladas aos aparelhos. Durantes as viagens, em vários momentos, acompanhei como o rádio de comunicação externa do barco também servia como suporte para a interação entre diferentes passageiros no fundo do navio.
Chegar à cidade também permite perceber essa experiência de seus moradores com as tecnologias de comunicação: à medida em que a embarcação se aproximou da orla, percebi
69 um ruído das ruas da cidade e que, conforme a distância diminuía, tornava-se mais audível. Gradativamente, o motor vai diminuindo sua potência e o barulho intenso dá lugar aos sons da cidade com mais nitidez. Com o barco quase encostado na beira, já é possível verificar o som da música que vem da rádio-poste, com seus autofalantes distribuídos pelo centro da cidade. À noite, esse som é substituído pela música de outros aparelhos ou pela voz das televisões de lanchonetes e bares que existem nas proximidades da beira.
Sempre há muita gente na orla, quando chegam ou partem as embarcações, independente do horário. Mesmo em outros dias de minha estadia em Afuá, pude observar como este acontecimento é recorrente: seja para acolher ou enviar as pessoas, receber familiares e notícias, garantir mercadorias ou despachar produtos. Esta rotina, bastante significativa nas teias sociais da cidade, por séculos, representou a principal forma de interação da cidade com o mundo exterior. Ela deixa ver o papel mediador que o rio desempenha no cotidiano de Afuá.
Figura 26: Embarque de pessoas em Afuá (Foto: Diogo Miranda).
Nesse curto espaço de tempo durante a aproximação da cidade e o desembarque dos passageiros também pude observar que, entre os primeiros gestos realizados pelas pessoas, está o movimento de procurar o celular e verificar sinal da rede telefônica, chamadas perdidas, possíveis mensagens etc.
Desembarcar nas ruas de Afuá, no entanto, me causou um estranhamento sensorial mais particular: a Veneza marajoara tem todas as suas ruas construídas sobre palafitas, que elevam as casas, os comércios e a cidade sobre as águas. Suas ruas são construídas sobre pontes de madeira a exceção das principais avenidas localizadas no bairro do Centro, que
70 receberam grandes pontes de concreto. E embora se possa imaginar, mesmo por onde passou o concreto não houve aterramento do solo, evidenciando que as avenidas principais também são palafitas.
Nesse caminhar pelas primeiras vias, a experiência de andar me marcou profundamente, pois a bicicleta é o principal meio de transporte dessa população. Por ser construída sobre palafitas, a cidade não possui estrutura para a circulação de carros e mesmo nas pontes de concreto, não existe a presença de nenhum tipo de transporte motorizado. Mesmo as motos têm sua circulação proibida. De acordo com o relato dos moradores, isso acontece pelo fato de haver acontecido um grave acidente no passado e, a partir desse evento, uma lei municipal foi estabelecida proibindo a circulação de qualquer tipo de veículo motorizado nas ruas de Afuá.
Dessa forma, a bicicleta ganhou lugar de destaque como meio de transporte da população, entre todas as classes sociais. São tantas e de diferentes tipos e funções, que atravessam as ruas e impelem outro ritmo ao dia a dia da cidade. Sua importância no cotidiano de Afuá pode ser verificada diante das imagens a seguir, onde destaco algumas das diferentes funções e serviços que elas desempenham na rotina de seus moradores: seja para o transporte e venda de mercadorias, para realização de serviços públicos, como prestação de socorro emergencial e manutenção da energia elétrica, para propaganda dos mercados e comércios da cidade, ou mesmo para uso pessoal de cada morador.
71 Figura 28 “Bicilância” (Foto: Shirley Penaforte).
Figura 29: Bicicleta do serviço de energia elétrica (Foto: Aislan de Paula).
72 Figura 31: Bicicleta adaptada 1 (Foto: Shirley Penaforte).
Figura 32: Bicicleta adaptada 2 (Foto: Aislan de Paula).
Para quem não sabe pedalar, como eu, é árduo o deslocamento entre as distâncias na cidade, mas o próprio caminhar pelo lugar me pareceu mais difícil. Andar em Afuá é um exercício que exigiu de mim uma atenção especial, pois ao mesmo tempo em que desejava
73 não ser atropelado por uma bicicleta, precisava tomar cuidado para não cair das palafitas. Esta é uma realidade comum aos moradores da cidade, que não sentem dificuldade nesse processo, mas para mim se revelou uma experiência singular.
As bicicletas atravessam toda a extensão da cidade e cruzam os dois bairros em que Afuá se divide: o bairro do Centro e o bairro do Capim Marinho. Em sua geografia, a pista de pouso é o marco que os separa. O Centro é onde estão os prédios da administração pública, a maioria das escolas, a delegacia e a maior parte do comércio. Foi neste bairro que surgiram as primeiras casas e vilas de Afuá. O bairro do Capim Marinho funciona como o subúrbio: é a parte mais nova da cidade, onde há espaço para serem construídas as casas novas. Mas também é o bairro da periferia, onde se encontram as famílias mais pobres e onde não há infraestrutura para garantir serviços básicos, como água encanada, energia elétrica ou mesmo pontes bem construídas para a circulação da população.