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A pesquisa qualitativa origina uma vasta e densa quantidade de informações e materiais, que devem ser organizados e analisados de modo sistemático, possibilitando o desenvolvimento de categorias potentes para descrever e explicar os fenômenos sociais (POPE; ZIEBLAND; MAYS, 2009). Segundo Minayo, a fase de análise dos dados, de modo sintético, visa alcançar três objetivos: ultrapassagem da incerteza, voltando-se às questões e perguntas colocadas no estudo; enriquecimento da leitura, aprofundando um olhar que supera o imediatismo e espontaneísmo; e integração das descobertas, onde se apreende uma lógica interna ao material produzido no campo (MINAYO, 2010). É o momento onde são apresentados os resultados da pesquisa, construídas as discussões sobre as questões de pesquisa e as considerações finais, a partir de cruzamentos entre o corpus empírico, os objetivos da pesquisa e o marco teórico utilizado.

Em Paul Ricoeur (1989, 2009), como vimos em nossas referências teórico- metodológicas, buscamos colocar em prática a proposição de uma hermenêutica do texto como obra aberta a apropriações. Essa foi nossa postura interpretativa diante dos textos transcritos das entrevistas. Procedemos de modo a executar, várias vezes e de diversas formas, movimentos de análise e compreensão das entrevistas para a elaboração de uma interpretação pertinente sobre a prática psicológica na ESF. Nosso embasamento teórico em Ricoeur nos permitiu colocar em prática de modo fundamentado o estudo hermenêutico dos 15 textos produzidos nas entrevistas e que compuseram o material empírico da pesquisa.

Primeiramente, partindo de um movimento de compreensão naive, ou ingênua, onde se conhece de modo superficial o todo dos textos das entrevistas, numa compreensão conjectural. Dessa “conjectura” inicial partimos num movimento mais aprofundado de compreensão apoiado em processos analíticos das partes e relações entre as partes do texto, problematizando nossa perspectiva de interpretação. Nesse processo, onde se busca uma

espécie de “distanciação” visando à objetivação do texto, pode-se chegar ao que Ricoeur chama de “apropriação” (RICOEUR, 2009).

O termo conjectura liga-se à ideia de que não é possível acessar a intenção do autor, que elaborou o texto. Assim, Ricoeur propõe o conceito de conjectura como modo de explicitar um primeiro passo de interpretação, que logo recorrerá aos procedimentos de explicação e análise dos textos. A passagem da conjectura à apropriação deve contemplar um processo de encadeamento de “um discurso novo no discurso do texto” (RICOEUR, 1989, p.155), a partir de um exercício hermenêutico que entrelaça explicação e compreensão. Assim, visando à apropriação dos textos das entrevistas, na composição de uma interpretação apropriada para a prática da psicologia na APS, recorremos a vários movimentos de leitura e releitura dos textos, bem como de composição e recomposição de nossas interpretações.

Nesse movimento de interpretação das entrevistas, primeiramente, identificamos, como resultado da escuta das gravações e de leituras e revisões das entrevistas já uma estrutura inicial do material, que podemos identificar como parte dessa interpretação conjectural inicial, composta por alguns temas: âmbitos e prerrogativas de atuação, a construção da demanda, especificidade de psicólogo, o espaço da APS, a busca do reconhecimento, perspectivas e a experiência na APS. Com o intuito de aprimorar e agilizar a codificação dos textos das entrevistas e subsidiar a análise aprofundada das unidades de significação do material, utilizamos como ferramenta o software Atlas TI, especificamente para auxiliar no processo de codificação dos textos das entrevistas.

O programa Atlas Ti consiste em uma ferramenta para a análise de dados qualitativos que pode facilitar a codificação, categorização e interpretação de textos. Tal programa permite ao pesquisador realizar a codificação e categorização do material, a criação de notas de pesquisa e de comentários, assim como o estabelecimento de relações entre as categorias analisadas e o agrupamento e gerenciamento de tais categorias, bem como a visualização gráfica de todos esses procedimentos (WALTER; BACH, 2009). Utilizamos o software de modo bem delimitado, somente para a criação e identificação de unidades de significação pertinentes aos textos das 15 entrevistas, que compõem o material empírico da pesquisa. Interessou-nos, assim, a utilização do programa para a organização dos dados pelas facilidades que este permite na codificação e categorização das partes dos textos. Nesse processo, criamos 22 unidades de significação associadas a citações de partes das entrevistas, compostas por falas dos participantes ou pequenos diálogos entre pesquisador e participantes. As unidades de significação foram as seguintes (TABELA 2):

Tabela 2: Unidades de Significação

Unidades de Significação 1. Âmbitos da Prática Psicológica na APS 2. Demandas pra Psicologia

3. Especificidade da Psicologia na APS 4. O reconhecimento da Psicologia 5. Desafios do trabalho na APS 6. O problema da Psicoterapia 7. Prerrogativas para atuar na APS 8. Experiências na APS

9. Obstáculos para o reconhecimento 10. Hierarquia no CSF

11. O desafio da formação 12. Objeto da Psicologia na APS

13. O Lugar do Psicólogo na Hierarquia da APS 14. O trabalho com outras profissões

15. O que se espera do psicólogo 16. Exemplos de casos

17. Tradução da Demanda

18. A relação com a rede de Saúde Mental

19. A necessidade de ter psicólogo na equipe mínima 20. A transformação da demanda

21. Características do trabalho da APS 22. Serviço Social e Psicologia

Fonte: Elaborado pelo autor

As 22 unidades de significação foram organizadas de acordo com nossos objetivos específicos de pesquisa e referenciais teóricos, que subsidiaram a organização dos resultados em 4 capítulos de discussão. A organização das unidades de significação a partir dos objetivos específicos é ilustrada na Tabela 3, apresentada a seguir:

A tabela reflete o processo de organização dos capítulos de apresentação e discussão dos resultados. Esse processo fora bastante complexo e marcado por um movimento espiral de análise e compreensão das entrevistas permeado por análises de partes e do todo do material empírico. O programa de estudos realizado no decorrer da pesquisa cumpriu também função importante na delimitação dos recortes e na composição do texto final da tese. De modo resumido, o processo de análise do material empírico da pesquisa pode ser expresso nas etapas abaixo:

2) Escutas para a correção das transcrições (cada escuta aqui era mais demorada e detalhada).

3) Leituras naive de material impresso e definição de um conjunto inicial de temas organizadores das discussões.

4) Utilização do software Atlas Ti para a organização e definição de unidades de significação (implica em novas leituras do material das entrevistas).

5) Organização de 22 unidades de significação em 4 capítulos.

6) Adaptações e recomposições dos capítulos e da ordem da discussão. 7) Revisões dos capítulos e articulação entre estes e o objetivo geral.

Tabela 3: Unidades de significação em função dos objetivos específicos

OBJETIVOS Descrever o campo de práticas profissionais da APS e o lugar ocupado pelos psicólogos nele Analisar a construção social das demandas pra prática psicológicas na APS Compreender o modo distinto como a Psicologia intervém profissionalmente Analisar o significado histórico da inserção da Psicologia na APS UNIDADES DE SIGNIFICAÇÃO Características da APS Demandas pra Psicologia Especificidade da Psicologia na APS/ Objeto da Psicologia na APS (mesclados na análise) Desafios da Formação O trabalho com outras profissões Exemplos de Caso Experiências na APS Psicologia e Serviço Social Tradução da demanda O lugar do Psicólogo na hierarquia Prerrogativas pra atuar Transformação

da Demanda O reconhecimento da Psicologia

Desafios da

APS A relação com a rede de SM

Obstáculo para o reconhecimento Hierarquia no

CSF O que se espera do psicólogo

Âmbitos da prática O lugar da psicoterapia A necessidade de psicólogos na equipe mínima

Fonte: Elaborado pelo autor

A interpretação do material empírico, dentro de nossa proposta hermenêutica de inspiração ricoeuriana, foi marcada pelo esforço de apropriar-se do enorme material produzido nas entrevistas, e composição de um texto de discussão pertinente à experiência vivida pelos psicólogos na ESF. Assim compomos um escopo de temas e reflexões pertinentes ao mundo dos textos e ao necessário encadeamento de novos discursos aos discursos já existentes, próprio do processo de interpretação que, ao buscar compreender os textos como obras abertas, permite-nos alcançar uma maior compreensão de nós mesmos.

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