• No results found

A tese parte do pressuposto de que a GEC, como área de estudos, gera um fluxo de informação, que mobiliza atores humanos e não humanos na sua propagação. Sendo a GEC não uma instituição ou uma rede estritamente física, mas sim, gerando um fluxo de informação, cuja natureza é preponderantemente abstrata, durante o processo de modelagem

da pesquisa, alguns pontos pareciam obscuros, dentre eles: Como mapear os atores não humanos? Como captar a rede que não é necessariamente física?

Para tentar responder a esses pontos, é preciso buscar ferramentas metodológicas que captem como a informação se propaga. Após algumas reflexões, por meio de leitura dos artigos relacionados no Capítulo anterior e conversas com pessoas da área, entendeu-se que, nesse campo, a informação se propaga, a princípio, por meio de: Material escrito (periódicos, livros, revistas, artigos científicos, dissertações, teses etc.); Pessoas (alunos, professores, consultores, editores de periódicos, pesquisadores e profissionais de mercado que atuem ou já tenham atuado com temas correlatos à gestão de custos, entre outros); Eventos (seminários,

workshops e congressos relacionados direta ou indiretamente ao assunto); e Produtos/Serviços

(softwares, manuais, cursos e outras ferramentas técnicas relacionadas à gestão de custos). No entanto, como Law (1992, p. 380) sugere, é importante destacar que ‘‘. . . se queremos compreender a mecânica da organização é importante não pressupor aquilo que queremos explicar’’. Tureta (2011) coloca que não se deve assumir uma estrutura ou modelo que defina o que será observado em campo. Isso acarreta alguma dificuldade em um primeiro momento para que se identifiquem com clareza os agentes responsáveis pela atuação; no entanto, a própria dinâmica social da rede auxilia na demonstração de tal identificação.

Feitas estas considerações, é importante esclarecer que, na presente pesquisa, apesar de se usarem os agentes mencionados como ponto de partida, o pesquisador teve por premissa não pressupor quem seriam os principais atores e atuantes, ou ainda, quais relações seriam encontradas, deixando tal concepção livre para o processo de observação, coleta e análise de dados.

Outro ponto que vale destacar é que não é objetivo deste trabalho discutir o conceito ou o framework da GEC, bem como as práticas gerenciais a ela relacionadas. Dessa forma, optou-se pelo trabalho de Borges Slavov (2013) como ponto de partida no que tange ao conceito e às práticas gerenciais concernentes à GEC, fazendo as considerações e adendos pertinentes, se e quando necessário.

Ainda, é importante mencionar o fato de não terem sido considerados dentro do escopo do trabalho os gestores e profissionais de mercado em geral. Apesar de a questão de pesquisa, apresentada na Seção 1.3, já fazer a devida delimitação aos campos de ensino e pesquisa, é importante destacar que esses personagens não foram incluídos por se considerar que ampliariam muito o escopo da pesquisa, dificultando a sua realização dentro do prazo e recursos disponíveis pelo pesquisador. Além disso, trata-se de função considerada estratégica por parte das empresas, na maioria dos casos, o que certamente ampliaria a dificuldade de

acesso às pessoas ou informações, limitando ainda mais o tempo disponível para realização do estudo. Ademais, foram consideradas possíveis resistências por parte dos indivíduos em serem observados (Czarniawska, 2014).

Voltando ao ponto da captação da rede, é preciso rastrear este meio. Como dito na Seção anterior, não há uma forma fixa ou única para desenvolver os trabalhos que envolvem a TAR, ou seja, para chegar à rede e seus movimentos, de forma que o pesquisador precisa usar de artifícios metodológicos que lhe auxiliem nessa empreitada.

Do ponto de vista desta pesquisa, entendeu-se que um único meio não seria suficiente para compreender como a informação se propaga, dado que o cerne da propagação dessa rede está no fluxo de informação. Assim, é preciso “seguir os atores” (Latour, 2000) por meios distintos.

Os tipos de dados a serem usados devem ser aqueles com maior capacidade de captar o fenômeno (Strauss & Corbin, 2008). Algumas formas poderiam ser utilizadas para fazer esse rastreamento, entre elas: observação de pessoas atuando; acompanhamento de eventos da área; indagação dos envolvidos; análise de material relacionado à GEC em geral; técnicas de

shadowing com os participantes na área; pesquisa etnográfica em ambientes relacionados ao

ensino e pesquisa em GEC, entre outras.

Dentre as possibilidades relacionadas, algumas foram consideradas pouco viáveis. Por exemplo, observação de professores em cursos que abordem a GEC. Lembrando que nas grades curriculares podem ter assuntos distintos em uma mesma disciplina ou, o contrário, temas dispersos em várias matérias, fazendo com que fosse necessário acompanhar o processo inteiro, em áreas diferentes e possivelmente englobando vários docentes, a fim de saber o que, de fato, compõe cada curso, necessitando de muitas horas-aula de acompanhamento. Outro exemplo seria o acompanhamento como sombra (shadowing) de um pesquisador. Nesse caso, foi considerado que, em geral, os pesquisadores se dedicam a atividades diversas e, possivelmente, de forma não predominante às atividades de pesquisa, o que também aumentaria em muito o tempo de observação de campo. Nesses casos, limitações de acesso e de tempo por parte do pesquisador tornaram inviáveis tais opções.

Spradley (1979) coloca que o pesquisador começa a compreender o meio a partir do que se fala, do que se faz e dos artefatos utilizados. Dessa forma, com base nas restrições mencionadas e nessas considerações, foram selecionadas algumas estratégias de pesquisa no sentido de tentar captar a rede que envolve a GEC. A coleta de dados em geral compreendeu: (a) horas de observação participante em eventos da área; (b) entrevistas semiestruturadas com

participantes do meio e (c) análise de material adicional correlato à GEC, a serem descritos nas próximas Seções.

A consideração da utilização da técnica Observação Participante funcionou como uma opção em detrimento à impossibilidade de realização de uma pesquisa etnográfica “pura” propriamente dita. Tal abordagem seria apropriada, haja vista que sinaliza a importância da experiência direta com um determinado contexto cultural ou social (Tureta, 2011). No entanto, no que se referem à sua duração e locais de investigação, principalmente, pode-se considerar que o presente estudo está distante da proposta de trabalhos etnográficos (Santos, 2011).

Por outro lado, apesar das limitações em se fazer uma pesquisa de cunho etnográfico, considera-se que o presente estudo adotou uma postura etnográfica: “a observação possui um papel de grande importância em estudos de inspiração etnográfica, pois ao praticá-la procuramos apreender aparências, eventos e comportamentos dos atores.” (Tureta, 2011, p. 88). Tal assertiva vai de encontro a pesquisas com iniciativas similares, como a de Hamilton (2011), que usa a TAR para avaliar políticas em educação, e demonstra como útil a coleta de dados tipicamente utilizados pela etnografia, tais como entrevistas, observação e coleções de documentos e artefatos.

Não se deve confundir a postura do etnógrafo com a produção de uma etnografia em si, cujo interesse seria a identificação de aspectos ligados à cultura. Não é esse o caso na ANT. O autor, quando menciona a forma pela qual os antropólogos fazem seu trabalho em campo, em nenhum momento trata do interesse em aspectos culturais. Destaca sim, a capacidade do etnógrafo de olhar para o campo, identificando elementos relacionados sem dissociá-los. (Pinto, 2013, p. 4).

Portanto, ao invés do levantamento e explicação de uma cultura, ter-se-ia a descrição de elementos como atuantes, de suas redes de associações e as translações ocorridas. Para Atkinson e Hammersley (1994), o termo Observação Participante apenas designa um modo de agir típico de pesquisadores, uma vez que não há como estudar o mundo social sem ser parte dele. O termo consiste em uma abordagem exclusivamente humanista com cunho interpretativo, sendo contrário às posições positivistas. Ao sugerir o uso da pesquisa intervencionista em conjunto com a TAR, Lukka e Vinnari (2014) destacam a importância da utilização da Observação Participante em vasta extensão como ferramenta metodológica.

A Observação Participante como abordagem metodológica pode ser usada para designar o que, quando e onde os fatos acontecem, como e porque eles ocorrem etc. Além disso, ela possibilita acesso ao interior, tornando possível enxergar aspectos subjetivos,

fazendo com que o pesquisador observe e experimente significados e interações de uma perspectiva interna ao ambiente estudado (Jorgensen, 1989).

No que se referem às entrevistas realizadas, optou-se pela realização de entrevistas semiestruturadas, nas quais “o entrevistador tem liberdade para desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada. É uma forma de poder explorar mais amplamente uma questão. Em geral, as perguntas são abertas e podem ser respondidas dentro de uma conversação informal” (Marconi & Lakatos, 1999, p. 199). Essa opção foi importante por possibilitar ampliar pontos de destaque nas entrevistas que fossem detectados pelo pesquisador durante as falas.

Escolhida a técnica a ser utilizada, eis algumas dificuldades iniciais: a quem questionar? Como escolher o perfil mais adequado para auxiliar na compreensão dos temas até aqui discutidos?

Neste caso, foram considerados os indivíduos pertencentes ao grupo que potencialmente influencia o meio que está sendo estudado, especialmente: professores, pesquisadores, editores de periódicos, avaliadores de pesquisas para eventos e revistas científicas, participantes de associações de classe e correlatos relacionados ao grupo estudado, bem como coordenadores de cursos de graduação e pós-graduação. O critério inicial para a seleção de um potencial entrevistado foi ter atuado ou atuar em pelo menos um dos campos mencionados, haja vista que em muitos casos os indivíduos acumulam várias dessas funções. As três entrevistas iniciais foram utilizadas como teste para o roteiro e abordagem do pesquisador, que também necessitaria ser treinado no que diz respeito à dinâmica e completude com que conduziria a pesquisa.

Outro critério utilizado foi o destaque do entrevistado, como número de pesquisas realizadas na área ou atuação em universidade, periódico ou organização de relevância para a compreensão do contexto analisado. Os primeiros nomes surgiram, por exemplo, de levantamentos dos grupos de pesquisas relacionados à gestão de custos, registrados e atuantes junto ao CNPq, bem como da análise de produtividade em pesquisa pelo Currículo Lattes dos potenciais entrevistados. Foram analisados itens como: ano de formação do grupo, última atualização, publicações e Currículo Lattes dos líderes dos grupos para avaliar atuação na área (ensino, pesquisa, docência, empresas, associações de classe etc.). No caso dos coordenadores de cursos, outro ponto avaliado foi a representatividade do curso em mecanismos de avaliação, como o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes [ENADE] (para graduação) e CAPES (para pós-graduação), fato que explica o porquê de nem todas as regiões do Brasil terem representantes diretos na pesquisa. Já para os editores de periódicos, foi

considerada a avaliação realizada pelo Qualis1 CAPES para seleção. Ademais, foram selecionados participantes adicionais em função de terem tido contato direto com entidades muito citadas durante a pesquisa, como a CAPES e o MEC (Ministério da Educação). Em relação aos participantes internacionais, foi considerada a reputação por meio do volume de publicações e tempo de atuação na área em estudo.

Considerando-se que os atores que devem ser adicionados são aqueles que de alguma forma acrescentam algo à descrição ou à explicação, do contrário, não podem ser considerados relevantes (Latour, 2006), essa foi a forma encontrada para tentar captar a relevância dos agentes, pressupondo que a participação em movimentos de destaque conduza o pesquisador a encontrar não apenas o que o agente faz, mas porque faz (Morgan, 2012), tornando possível a sua identificação como ator. Demo (2012, p. 70) coloca que “o mais importante não será estudar o que os objetos significam, mas o que fazem numa rede de atores performativos e mediadores”.

À medida que as entrevistas foram acontecendo, um terceiro critério foi adotado: a busca de indivíduos citados pelos próprios entrevistados como relevantes, dentro de um contexto ou atuação, o que vai diretamente de encontro à sugestão de Latour (2000) de seguir os atores.

Outros pontos que se tentou observar, na medida do possível, foram localização geográfica e tempo de experiência na profissão. No caso do primeiro, buscou-se procurar representantes das distintas regiões geográficas do Brasil, não se fixando apenas no estado de São Paulo que concentrava boa parte dos nomes inicialmente localizados para contato. Isso possibilitaria certa comparabilidade no que diz respeito a potenciais diferenças no ensino e pesquisa entre as regiões brasileiras.

Ademais, ampliando o escopo da pesquisa, foram contatados alguns pesquisadores internacionais, tentando também, quando possível, diversificar as regiões de onde provinham tais pesquisadores. Tal especificação deve-se ao entendimento do presente estudo de que o

insight inicial da pesquisa, a saber, o estudo de Shank (2006), trata de um contexto global e

não somente local. Dessa forma, esta pesquisa ampliou seu escopo na tentativa de possibilitar a verificação das questões analisadas não apenas no ambiente nacional, mesmo que a predominância dos entrevistados tenha sido essa.

No que tange à experiência profissional, certamente é importante conhecer o ponto de vista dos indivíduos aqui tidos como sêniores na área investigada. No entanto, há que se notar

1“Qualis é o conjunto de procedimentos utilizados pela Capes para estratificação da qualidade da produção

que a percepção sobre o assunto pode ter mudado ao longo dos anos, já que a década gloriosa para o tema foi considerada a de 1990 (Shank, 2006), e hoje há evidências de que ele sequer seja conhecido em todas as esferas de atuação (Langfield-Smith, 2008; Miranda, 2010). Dessa forma, a opção de alcançar indivíduos mais jovens, em termos de atuação, no processo de coleta de dados, também foi considerada.

Já sobre o material adicional concernente à GEC, optou-se pela análise de journals, ementas de cursos e livros. No que tange aos periódicos, os critérios essenciais foram representatividade e abrangência: representatividade em termos de relevância no meio e abrangência para contemplar diferentes áreas de pesquisa. Sobre as ementas de cursos, o critério utilizado foi a relevância em pesquisa. Partindo do princípio que os programas de pós- graduação é que concentram a maior parte da pesquisa (percepção obtida durante a coleta de dados), eles foram tomados como base em termos de referência em nível global. Já no que se refere aos livros, os critérios de seleção englobam a relevância no meio, em termos de número de citações de autores e obras entre os integrantes da área.

O resultado final da pesquisa é “contar uma estória” com base nos dados obtidos em campo e relacionados pelo pesquisador (Callon, 1991).