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Existe todo um conjunto de mitos que nos dá a conhecer o modo como o povo a’uw explica o universo. Alguns desses mitos já foram tratados aqui, outros serão colocados adiante58. O que vem a seguir também é parte desse conjunto: aqui se narra que, antes que o Sol e a Lua fossem criados, os A’uw viviam na escuridão.

Naquele tempo não existia o céu nem o dia, era tudo escuro, era noite, e não havia fogo também. Não tinha comida, as mulheres coletavam coró, as larvas grandes, e também pau podre e seco. O povo antigo se alimentava com isso e sofria de fome. O coró faz esse barulho, cö, cö, co,... à noite dá para ouvir o som. Andando no mato se ouve todos os sons, sons dos bichinhos,... o coró faz muito barulho, dá para ouvir ele comendo pau podre, por isso as mulheres conseguiam pegar, porque era tudo escuro. Todo mundo colaborava, quem coletava mais pau podre repartia com a família.

O céu já existia, mas era uma parte só, não era inteiro. Era como uma onda da água do rio, levantando só de um lado. Era pouco. Desse lado não tinha nada ainda, era pouco ainda, era só espaço. O céu está sendo criado, era baixo. (Adaptação do texto de SHAKER, 2002, p. 79/80)

E assim, no escuro, sob um céu ainda incompleto, viviam os antigos A’uwe-xavante — que naquele tempo se chamavam wara’rada. Posteriormente, quando foram criados a Lua e o Sol, surgiu a claridade e o céu se completou. Os mitos acompanham esses fatos, relatando cada mudança no Cosmos e mostrando-se como testemunhas desse devir. Quando o céu ficou pronto, surgiram as estrelas, os homens e as mulheres, uma das quais um dia visitou a Terra e tomou para si um noivo A’uwe-xavante (SHAKER, 2002).

O rapaz e a estrela

O adolescente, quando avança de treze anos de idade, já é

ai’repudu, entende mais sobre a cultura e não quer ficar mais ao lado do pai. Eles não são wapté ainda, não estão no hö, mas têm o lugarzinho deles. Para fazer sombra tiram umas varas com folhas e fazem um cercado em volta. Isso eles faziam todos os dias, para pousarem fora da casa deles. Então eles começaram a deitar. Um deles admirou uma estrela e desejou que ela pudesse descer, ficar deitada junto dele. Ela desceu para ele, ficou deitada ao seu lado e dormiram. Quando amanheceu o grupo dele já saiu; só ele que sobrou, sozinho, deitado. O sol foi subindo. Quando a mãe sentiu a falta dele, mandou o irmãozinho para que o chamasse, porque estava na hora de almoçar. Ele foi chamar o irmão. Correu, correu e deu o recado para o irmão, mas este se recusou a voltar para casa, pediu-lhe que trouxesse o almoço. A mãe negou, mas ele insistiu. Então a mãe, desconfiada de que tinha alguma coisa errada, pediu que o irmãozinho voltasse “quietinho” e verificasse o que estava acontecendo. Ele correu, parou, ficou olhando e viu que tinha gente ao lado do irmão, era uma moça de pintura listrada. Ele contou para a mãe e eles foram juntos até o local. — “Ô filho, onde está a pessoa que estava deitada do seu lado, que seu irmão tinha visto?”. Então ela tirou aquela esteira que o estava cobrindo, mas não tinha nada mais. —

“Nada, não tinha ninguém não”. Então ele pediu para a mãe: “Mãe, manda meu irmãozinho trazer a borduna, pra eu tirar embira para ele”. A mãe foi e disse ao filho pequeno: — “Seu irmão está lhe pedindo para você levar a borduna para ele tirar embira para você”.

O irmãozinho levou a borduna e eles foram andando. Quando estavam quase chegando onde estava a moça-estrela ele avisou ao irmãozinho e pediu que não se assustasse. Pediu também que batesse com a borduna na árvore e ensinou-lhe um canto para entoar enquanto fizesse isso. Ensinou ao irmãozinho não olhar para cima enquanto estivesse batendo, que olhasse sempre para baixo. Quando chegaram ao lugar a noiva estava esperando ele subiu na árvore e sentou junto dela. O irmãozinho batia na árvore e cantava até que ele disse que poderia parar. Quando o irmãozinho largou a borduna, olhou para cima, então chorou, voltou correndo para casa e contou à mãe que o irmão havia subido para o céu. A mãe foi até o local e também chorou.

Quando o rapaz subiu com a noiva, ela estava com o colar de dente de capivara e com rabo de papagaio, e pintada com listras. Chegando no céu tudo já estava pronto para receber o noivo. Ele viveu bem por lá durante muitos anos até que um dia resolveu visitar seus pais. Então, sua sogra preparou alimento para que oferecesse aos pais, ele trouxe numa cabaça cortada. Todos na tribo comeram do alimento que ele trouxe e ele contou: “Lá em cima, vi que tem gente lá, tem povo lá. É um lugar muito bonito, é um lugar muito plano, muita gente mora lá. É um lugar com muita coisa, muita comida”. Assim ele foi contando o que viu para a família: “Aquela estrela que vocês estão vendo, é gente. É gente, pessoa. Vocês pensam que aquela lá é outra coisa, aquela lá é gente”. Não falou de pássaro, só contou que tinha bicho, que tinha comida, que tinha tudo. Então ele falou que queria voltar, essa era sua última visita. Aconselhou a família para que não brigassem e foi viver para sempre no céu.

(Adaptação do texto de SHACKER, 2002, pp. 161 a 164).

O esposo da estrela também teria contado ao povo antigo que o brilho que enxergamos ao olhar para o céu deve-se aos colares de dente de capivara — lixados para ficarem mais brancos e brilhantes — usados pelo povo-estrela. Os anciãos afirmaram a Shaker (2002, p.

188) que, naquela época em que o rapaz e a estrela se casaram, o céu era baixo. “O ai’repudu conta que à noite o céu abaixava, e de lá se ouve tudo o que aqui se fala, e quando amanhece o céu sobe. O céu estava perto. Com o tempo, o céu foi subindo, as coisas foram piorando, dizem os velhos, e o céu ficou longe”.

Os A’uwe-xavante acreditam, então, que o céu e a Terra foram se transformando, até que o universo se transformou em algo como “uma grande cúpula habitada pelas estrelas, um plano médio, ao centro do qual está a aldeia xavante, e um plano debaixo habitado por outras pessoas”59. (GIACCARIA,1990, p.74). A Terra, com suas duas estratificações planas e paralelas, recebe o nome de “Tia”. O céu — Höywa — feito de uma matéria que, como a água, não se pode cortar, é fixo sobre a Terra. O sol ilumina também a Terra de baixo, por essa razão ele se põe e volta a aparecer do lado Leste, isto é, após passar pela Terra de baixo, iluminando-a. Em conjunto, céu e Terra compõem o Ró, o mundo.

Assim, o mundo, Ró, é uma semi-esfera. Essa semi-esfera tem como base a Terra, sendo esta, portanto, um círculo. No centro desse círculo fica a aldeia a’uw -xavante e, no centro desta, o warã. O mundo dos Sarewai, o povo que não se deixa ver, é um plano horizontal paralelo ao primeiro, inferior a este. As aldeias circulares desse povo são iluminadas pelo sol quando no plano superior os A’uw -xavante estão sob a lua e as estrelas. O céu e as duas estratificações da Terra são habitados por povos diferentes, mas que se organizam social e espacialmente de modo similar aos xavante. Todos eles contam com fontes de água (lagos, rios e chuvas), fontes estas que também são habitadas por povos diferentes.

Observa-se, pois, que a cosmologia dos A’uwe-xavante evidencia as formas circulares; mas análises mais profundas — como as que constam do próximo capítulo — poderão indicar-nos outros pontos interessantes.

Chego, agora, ao inefável centro de meu relato; começa aqui meu desespero de escritor: Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartilhem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca?

Borges, p.695, vol. 1.

59 Essas outras pessoas a quem o autor se refere são os Sarewai — o povo que não se deixa ver. Segundo o mito,

dois xavantes, que procuravam evitar o assassinato de um deles, criaram um novo povo, que vive num outro lugar. As mulheres desse povo foram criadas a partir de pedaços de tora de buriti.

Capítulo 6: Encontro com o Minotauro Algumas relações entre