6.2 Resultatdiskusjon
6.2.2 Kan kreften bekjempes med mat?
Durante muitos anos, a chácara dos Meyer foi a única vizinhança da Família Dreher naquela longínqua e inóspita região de Porto Alegre. Foi, em princípios de 1920, que Bernardo Dreher adquiriu cerca de 40 hectares de terras em uma região conhecida como Pedra Redonda, Zona Sul de Porto Alegre. Conforme relata Martha:
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A área de terras por nós adquirida no longínquo ano de 1923, pela quantia de cinquenta contos de réis, pertencia ao capitalista Otto Niemeyer que também morava na Tristeza, onde possuía muitas propriedades. Naquela época, ainda não existiam os balneários de Ipanema, Espírito Santo e Guarujá, cujas terras eram propriedade particular e suas praias inacessíveis ao público. A respeito, lembro um artigo do Pe. Ruben Neis, publicado há algum tempo no Correio do Povo, em que o referido sacerdote afirma que toda a imensa área de terras, desde o hoje balneário Espírito Santo, passando por Ipanema, Pedra Redonda, Vila Conceição, Tristeza e Vila Assunção pertencia um único fazendeiro, só havendo ali campos e matos138.
As terras compradas por Bernardo eram limítrofes à Chácara de Oscar e Clotilde Bastian Meyer no Morro do Sabiá e à fazenda de João Batista de Magalhães, o Juca Batista. Atualmente, essas propriedades integram o bairro Ipanema. Após a compra das terras, Bernardo Dreher construiu a moradia da família – um lindo palacete, mais conhecido por
“Castelinho”, e que ainda está no mesmo local onde foi edificado em 1923. Para a obra foram
trazidos ladrilhos, vitrais e azulejos da Europa.
Figura 25 - Palacete dos Dreher/2013. No detalhe o ano da construção: 1923
Fonte: Acervo da Família Dreher.
O casarão adquiriu fama, anos mais tarde, pelos encontros de negócios que ali
ocorriam. Martha Dreher relembra esses momentos: “Como meu marido, através de seus negócios, era muito bem relacionado, nossa chácara vivia cheia de gente. Entre os visitantes ilustres lembro o Dr. Getúlio Vargas e Da. Darcy, entre outros”139. Com o passar do tempo, os espaços da chácara foram sendo tomados pelos estábulos, chiqueiros,
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galinheiros, hortas, orquidários, pomares e pelos bonitos jardins da dona Isabel, como era conhecida na região, a esposa do seu Bernardo:
Tínhamos criação de ovelhas, porcos, coelhos, aves. No pátio, ao redor da casa havia araras, macacos, tamanduás – um verdadeiro jardim zoológico. Certa vez, depois da enchente de 1941, até um jacaré apareceu no açude. Nos matos da chácara, viviam muitos animais selvagens, como guaraxains, tatus, porco- espinho, ratões do banhado, preás, além de cobras e lagartos. Nos campos, havia bandos de quero-queros e até perdizes apareciam de vez em quando140.
Era um grande arranchamento em terras as quais costeavam o Morro do Osso, local de fauna e flora ricas. Daí, a existência de muitos animais e plantas na chácara dos Dreher. Naqueles tempos, não havia ainda a Coronel Marcos, avenida que, atualmente, conecta o centro da cidade aos bairros mais distantes da Zona Sul. Os caminhos eram de chão batido, o que dificultava o deslocamento, consequentemente o transporte pelo Guaíba foi, durante muitos anos, uma alternativa deveras utilizada.
Contavam os antigos moradores do lugar que, nas terras pertencentes a Bernardo Dreher ocorriam fenômenos sobrenaturais. Na divisa leste da chácara, à beira da Estrada Conselheiro Xavier da Costa, fronteira ao Bairro Ipanema, existia uma centenária figueira, local de lendas e superstições. Entre as histórias contadas pelos mais velhos, figuram as de assombrações e de tesouros, como as descritas em carta por Martha Elisabeth Dreher:
Diziam os moradores da zona que às vezes apareciam luzes debaixo da árvore e, por acreditarem que o lugar era assombrado, ninguém se atrevia a passar ali à noite. Também corria o boato de que um tesouro enterrado havia ali e, de fato, notavam-se sinais de escavação próximo das raízes da figueira141.
Isso atraiu os moradores das vizinhanças que vinham em busca dos tais tesouros, aumentando desta forma, o número de famílias residindo na região. Neste período, em torno dos anos 1930, além das atividades da chácara, Bernardo Dreher envolveu-se com outros negócios. É dele a primeira usina de açúcar do Estado, a Usina Santa Martha Ltda. O empreendimento, localizado no Município de Osório, foi inaugurado em 1929 por Getúlio Vargas, na época presidente do Rio Grande do Sul. Alguns anos depois, visando à ampliação dos negócios, reatou as relações comerciais com a firma de navegação de seu pai
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“Navegação Dreher”, pois era preciso agilizar o escoamento da produção de açúcar, ou seja,
transportar a mercadoria entre Porto Alegre e a região do litoral norte.
Bernardo também era dono de um importante engenho de arroz em Tapes, cuja capacidade de produção era de 500 sacos diários. Em 1940, Bernardo Dreher abandonou essas atividades para dedicar-se, juntamente com sua esposa, às lidas da chácara na Zona Sul.
Ao desligar-se das mencionadas atividades na década de 1940, época em que a zona da chácara fazia parte do cinturão verde da cidade, Bernardo dedicou-se de corpo e alma ao cultivo e comércio de hortaliças e frutas provenientes de suas hortas e pomares, além da manutenção de seus valiosos orquidários142.
Desta forma, a família cultivava e comercializava uma infinidade de produtos extraídos de sua horta e pomar. O restante dos produtos oriundos da chácara, Bernardo transportava até o Mercado Público e comercializava no Centro da cidade.
Em matéria de verduras e frutas, as hortas e pomares organizados por meu marido primavam pela qualidade de seus produtos. Tinham praticamente de tudo e, especialmente, as frutas – maçãs, pêssegos, ameixas, marmelos, mangas, caquis, etc. Eram famosos pelo tamanho e qualidade, tanto que na época de colheita sempre aparecia muita gente de Porto Alegre para comprá-las. O que não era vendido eu aproveitava para fazer geleias, marmeladas, goiabadas e sucos143.
No auge do veraneio da Pedra Redonda144 e com o advento da Estrada de Ferro do Riacho, cresceu a procura por terrenos na região. É desta época a construção das primeiras vivendas de veraneio – as imponentes e admiradas residências com praia particular. Surgem, também, os bairros Ipanema, Espírito Santo, Guarujá e, com eles, proliferam os loteamentos, resultado da divisão das terras de antigos chacareiros, como Bernardo Dreher.
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Ibidem.
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O auge do veraneio nos balneários da Zona Sul de Porto Alegre se deu nas três primeiras décadas do século passado.
Figura 26 – Trabalhadores/Chácara de Bernardo Dreher
Fonte: Acervo da Família Dreher.
Na década de 1950, a região dos Jardins da Dona Isabel não escapou do crescimento e da urbanização imposta à Zona Sul da cidade. A chácara, outrora símbolo de opulência, transformou-se no loteamento “Jardim Vila Isabel”:
Por não se enquadrar na zona da produção hortigranjeira, nossa chácara, devido à valorização das terras e elevação dos tributos, teve de ser urbanizada, constituindo o loteamento Jardim Vila Isabel, onde os antigos campos, matos, hortas e pomares cederam lugar a bonitas vilas e aprazíveis jardins. Esta mudança, de certo modo, me causa tristeza, mas, ao mesmo tempo, fico contente quando me conscientizo de que muitos ex-moradores de apartamentos, encontraram ali a paisagem, o espaço, o ar puro, o sol e a tranquilidade que todos nós hoje tanto almejamos145.
Pelo Projeto de Lei nº 10.724 de nove de julho de 2009146, o loteamento Jardim Vila Isabel se transformou no Bairro Jardim Isabel. Resultado do empenho dos moradores e da Associação Comunitária Jardim Isabel e Ipanema (ASCOMJIP) criou-se o bairro, cujo nome foi escolhido como uma forma de homenagear aquela que foi a primeira colonizadora dessas terras: Martha Elisabeth Dreher ou simplesmente Dona Isabel.
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PREFEITURA MUNICIPAL DE PORTO ALEGRE. Os bairros de Porto Alegre criados por lei. Disponível em: <http://www2.portoalegre.rs.gov.br/spm/default.php?p_secao=129>. Acesso em: 20 dez. 2013.
Figura 27 - Martha Dreher em passeio pela chácara/1930
Fonte: Acervo da Família Dreher.
A seguir as histórias de Lya Bastian Meyer, a primeira bailarina clássica do Rio Grande do Sul, e de sua chácara de veraneio no Morro do Sabiá.