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4. H UMAN T ISSUE K ALLIKREINS

4.4. Kallikrein 4 (KLK4)

No caso de Angola, duas missões preliminares serão realizadas na colónia, uma em 1948 e outra no ano seguinte, antes que a Missão Antropobiológica seja estabelecida, em 1950. A primeira viagem constitui uma missão de estudo para a qual António de Almeida é enviado pela Escola Superior Colonial, onde é professor de Etnografia Colonial.

Segundo relatório enviado pelo chefe da missão à Junta, o objectivo desse projecto “(…) consistia em apreciar somática e etnograficamente os indígenas de raça

negra não pertencentes à grande família bânto, ou sejam os vátua (…)”. Entretanto, no

mesmo relatório, afirma que, estando em S. João do Sul, no Morro Cubal, havia efectuado investigação de algumas sepulturas cilíndricas e de escavações naturais dos arredores de onde havia retirado grande quantidade de ossos humanos enviados a Lisboa a fim de se verificarem a sua origem e idade. Também afirma ter encontrado alguns sítios arqueológicos com variados instrumentos líticos em Humpata e Capangombe e vários fósseis animais e vegetais no deserto de Moçâmedes e em Capangombe, que também haveria enviado à metrópole com o objectivo de serem estudados (Almeida, 1949:01).

Tais aspectos fazem perceber que, embora os objectivos do projecto, explicitados por António de Almeida em seu relatório, não contemplassem explicitamente as pesquisas arqueológicas, ou mesmo em outros campos científicos,

158 como a paleontologia por exemplo, essas pesquisas acabaram por se efectivar no decorrer do trabalho de campo realizado.

Já a segunda missão preliminar a Angola e a primeira campanha da Missão Antropobiológica estão ambas relacionadas a um projecto inicial relacionado à proximidade do censo populacional angolano, que ocorreria em 1950, e que traria uma oportunidade ideal de estudar os caracteres somáticos e biológicos e os hábitos alimentares dos indígenas com o intuito de combater a crise populacional da qual, segundo António de Almeida, a colónia sofreria (Almeida, 1948).

O investigador propõe, então, um plano de trabalho de dois anos, que funcionaria com a cooperação de seis equipas formadas, cada uma, por um pesquisador e um ajudante com a incumbência de examinar, pelo menos, cem homens e cem mulheres de cada tribo visitada. Enumera como vantagem para o projecto, o facto de se adequar às exigências da Conferência Internacional de Hot Springs, da “Food and Agriculture Organization” (FAO) e de outras organizações internacionais com as quais Portugal havia se comprometido no tocante ao estabelecimento de normas alimentares adequadas à saúde dos indígenas (Almeida, 1948)

A esse projecto, acrescenta Mendes Correia, em parecer emitido em 1949 por pedido da Junta, que deveriam ser acrescentados estudos em Antropologia Social, Linguística e Pré-História, notando, entretanto, que tal alteração exigiria mais vastos investimentos financeiros e humanos. Em virtude disso, o Ministro da Colónias emite um primeiro parecer, em Junho do mesmo ano segundo o qual considerava o projecto pendente até melhor oportunidade (Silveira: 1949).

159 Não obstante tal parecer negativo, António de Almeida viaja à Angola entre o final de 1949 e o início do ano seguinte com o propósito de dar continuidade aos trabalhos anteriormente iniciados. Dessa missão destaca o Governador-geral de Angola “(…) os notáveis resultados que conseguiu obter e a extraordinária e valiosa colecção de objectos de sílex que reuniu” (Carvalho, 1950a).

Assim como havia feito em Janeiro, também em Abril de 1950 o Governador de Angola renova o pedido de realização de uma missão em conjunto com o censo a ocorrer no mesmo ano e, em Março, o próprio António de Almeida em reunião com o Ministro das Colónias reelabora seu pedido inicial propondo uma Missão Antropobiológica de seis meses, chefiada por ele e por José Camarate Andrade França (1923-1963), geólogo dedicado à investigação arqueológica.

Segundo António de Almeida, essa missão deveria ter como objectivos “(…)

efectuar a prospecção geral, antropométrica, fisiológica e etnográfica (nomeadamente

no que interesse à alimentação, aldeamento e organização social) das várias tribos de

Angola” (Almeida, 1950; Carvalho, 1950a; Carvalho, 1950b).

Novamente, nota-se a ausência da Arqueologia nos objectivos a serem alcançados pelo projecto, que será aprovado através de despacho do Ministro das Colónias em 04 de Junho. A partir de então, passa a ser constituída a Missão Antropobiológica de Angola tendo António de Almeida como chefe e Camarate França como auxiliar (Silveira, 1950).

Em documento de 17 de Junho, no qual o chefe da Missão assume compromisso em relação ao gasto da verba que lhe fora destinada, os objectivos do projecto são mais especificamente descritos:

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a) Estudo antropométrico e fisiológico de indígenas pertencentes ao maior número de tribos de Angola

b) Estudo da alimentação dos nativos (JMGIC, 1950)

Muito embora em ambas as descrições dos objectivos desta missão, António de Almeida exclua a Arqueologia como parte integrante da proposta, em relatório enviado ao Presidente da Junta em 1951, quando da elaboração da segunda campanha, o autor deixa claro ter recolhido, nas três viagens realizadas, inúmero material pré-histórico e encontrado mais de uma centena de sítios em todas as províncias da colónia, dando a certeza de que esse campo científico continua a ser explorado a despeito de não ser contemplado em suas directrizes gerais (Almeida, 1951).

Nesse mesmo relatório, António de Almeida propõe a execução de mais duas campanhas científicas, em 1951 e no ano seguinte, justificando sua importância pelo grande número de tribos a serem ainda estudadas e aos milhares de estações arqueológicas que acreditava existirem nesse território (Almeida , 1951).

Entretanto, muito embora o próprio governador de Angola tenha enviado, em 10 de Março de 1951, ao Presidente da Junta, um pedido para que uma nova campanha viesse a se realizar ainda naquele ano, justificando sua urgência pelo interesse e proficiência com que essas investigações estavam a ser desenvolvidas por António de Almeida (Carvalho, 1951), a próxima Missão só virá a efectivar-se no ano seguinte, devido a problemas de saúde que acometem o investigador, como se faz perceber em nova carta enviada pelo Governador da província ao Ministro do Ultramar, em 25 de Março do ano seguinte (Carvalho, 1952).

161 A última das campanhas da Missão Antropobiológica de Angola é realizada em 1955. Em relatório enviado por António de Almeida acerca dessa campanha, o autor exalta os resultados obtidos tanto no estudo de povos de língua Hotentote e Bosquímanos quanto da descoberta de várias estações pré-históricas, o exame de importantes sítios rupestres e alguns recintos muralhados (Almeida, 1956b).

Com relação aos resultados dessas campanhas, segundo currículo produzido no período, António de Almeida publica, até o ano de 1965, sete obras acerca de temas arqueológicos angolanos, sendo eles “Prehistoire de l’Angola”, em colaboração com Camarate França, em 1954, “Contribution a l’étude dês gravures et peintures du desert de Mozamèdes (Angola)”, “Introduction a la préhistoire de l’Angola, ambas em colaboração com Henri Breuil, publicadas em 1959, “Recintos Muralhados de Angola”, em colaboração com Camarate França, em 1960, “Notícia sobre o paleolítico do território de Cabinda”, juntamente com Camarate França, em 1963, “Sobre a pré- história de Angola”, com o mesmo colaborador, em 1964 e “Le Magosien du sud de l’Angola, ainda com Camarate França, em 1965. O mesmo currículo ainda cita uma obra em fase de publicação intitulada “Gravuras e pinturas rupestres de Angola” (Almeida, 19--).

Nota-se o pequeno número de trabalhos arqueológicos publicados, em comparação com os antropológicos, que perfazem 21 títulos efectivados e sete em fase de publicação, incluindo na contagem somente os textos publicados a partir de 1948, quando se dá a campanha preliminar a Angola. Curioso também perceber que o primeiro dos títulos arqueológicos citados no referido contexto surge somente em 1954, um ano antes de dar-se por finalizada a Missão Antropobiológica a essa província.

162 Já em outro currículo, que pretende abarcar a obra de António de Almeida até 1980 (IICT, 19--), os textos publicados acerca de temas angolanos perfazem 33 itens, enquanto os estritamente arqueológicos são apenas sete, os mesmos registados como publicados no currículo anterior. Isso indicaria que o texto considerado em fase de publicação no outro currículo não teria chegado a se concretizar e que as obras subsequentes publicadas por Almeida, teriam tido somente conteúdos antropológicos.

Entretanto, à parte tal quadro de aparente desvalorização do tema, nota-se que a maioria dos títulos arqueológicos é publicada em colaboração com especialistas nacionais e internacionais e cinco deles em contextos de congressos internacionais. No caso dos textos antropológicos/etnológicos, são sete participações em eventos internacionais e cinco textos em colaboração com outro autor, sendo que, com excepção de apenas um, a colaboradora é a sua filha, Maria Emília de Castro e Almeida.

Interessante também perceber que, no caso da Arqueologia, metade dos títulos (quatro de oito) é publicada em Francês, enquanto no caso dos textos em Antropologia/Etnologia dos 21 títulos analisados, somente quatro textos eram em Francês e um em Inglês. Tal quadro nos indica certa posição universalista que os trabalhos arqueológicos ocupam no contexto da Missão angolana e que vem confirmar um posicionamento diferenciado que esse investigador estabelece em relação a essa temática, se comparado ao ocupado por Santos Júnior, muito mais retido ao cenário nacional ou ibérico.

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CAPÍTULO XII

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