A vegetac¸˜ao consiste na mistura de formas de crescimento (como ´arvores, arbustos e gra- mas), de altura (estratos, camadas ou cont´ınua) e espac¸amento variados (cobertura de folhas ou separac¸˜ao de copa). Essas trˆes feic¸˜oes (forma de crescimento, altura e espac¸amento) con- ferem a maior parte da aparˆencia da vegetac¸˜ao e s˜ao usadas para classificar sua estrutura (MacDonald et al., 1990).
Medidas de altura do estrato, forma de crescimento e separac¸˜ao da copa permitem o agrupamento estrutural da vegetac¸˜ao em classes de formac¸˜ao ou de fisionomia (MacDonald
et al., 1990).
Muitas s˜ao as divis˜oes e mapas fitogeogr´aficos propostos para o pa´ıs, classificando com mais ou menos detalhes os biomas brasileiros. O sistema de classificac¸˜ao adotado para este trabalho foi o proposto por Ribeiro e Walter (1998), adaptado de IBGE (1993) e de Macedo (1996), e tamb´em adotado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu´aria (EMBRAPA) especificamente para o cerrado. Este sistema baseia-se na caracterizac¸˜ao dos atributos fi- sionˆomicos ou estruturais da vegetac¸˜ao.
que emprega termos regionais amplamente difundidos.
S˜ao onze as principais fisionomias do cerrado, que podem ser enquadradas em formac¸˜oes florestais (mata ciliar, mata de galeria, mata seca e cerrad˜ao), formac¸˜oes savˆanicas (cerrado
sensu stricto ou sentido restrito, parque cerrado, palmeiral e vereda) e formac¸˜oes campestres
(campo sujo, vereda, campo limpo e campo rupestre).
A apresentac¸˜ao das fisionomias ´e restrita `as encontradas no Parque Estadual Veredas do Peruac¸u: cerrad˜ao, cerrado sentido restrito, campo limpo e veredas, sendo que estas n˜ao foram abordadas neste estudo.
• Cerrad˜ao
O cerrad˜ao ´e uma formac¸˜ao florestal do ponto de vista de sua fisionomia, mas floristica- mente ´e similar a um cerrado, composto por esp´ecies que ocorrem no cerrado sentido restrito e nas matas galeria e ciliar (Ribeiro e Walter, 1998). A altura m´edia do estrato arb´oreo chega a atingir 15m de altura e normalmente o dossel ´e cont´ınuo, havendo contato entre as copas das ´arvores, o que lhes garante um aspecto fechado (Figura 3.2). A cobertura arb´orea no cerrad˜ao varia entre 50 e 90% (Ribeiro e Walter, 1998), havendo deciduidade em determi- nados per´ıodos para algumas esp´ecies. Os solos s˜ao geralmente arenosos e profundos, bem drenados e de baixa fertilidade.
Figura 3.2:Exemplo de uma borda de cerrad˜ao no vale do Peruac¸u. Foto: Philippe Maillard, 2004.
Os cerrad˜oes s˜ao muito distintos das florestas secas pelos aspectos fisionˆomicos e es- truturais, mas normalmente estes coexistem lado a lado e compartilham v´arios elementos flor´ısticos (Rizzini, 1997). Alguns autores admitem que o cerrad˜ao seja uma fase transit´oria
Figura 3.3: Cerrado sentido restrito. Foto: Mar´ılia F. Gomes, 2004.
para as florestas secas (Rizzini, 1997) e acreditam que, em alguns casos, protegidas do fogo, corte, pastagem, se transformariam nessas florestas (Pivello e Coutinho, 1996).
• Cerrado sentido restrito
O cerrado sentido restrito ´e caracterizado por apresentar sin´usias lenhosas tortuosas com ramificac¸˜oes irregulares. ´E diferenciado dos cerrad˜oes por apresentar fisionomia arbustiva e gram´ınea, sendo mais suscept´ıvel ao fogo anual (Figura 3.3). Os arbustos e subarbustos disp˜oem-se de maneira aleat´oria em diferentes densidades, com algumas esp´ecies apresen- tando ´org˜aos subterrˆaneos perenes (Ribeiro e Walter, 1998). Pode existir tanto por ser um subgrupo de formac¸˜ao natural como devido `a ac¸˜ao antr´opica (Veloso et al., 1991), por e- xemplo, a partir de uma degenerac¸˜ao do cerrad˜ao.
As plantas arb´oreas n˜ao sofrem com estresse h´ıdrico na estac¸˜ao seca, visto as ra´ızes pro- fundas, no entanto h´a falta d’´agua para os estratos subarbustivo, herb´aceo e gram´ıneo nessa estac¸˜ao. Com a chegada da estac¸˜ao chuvosa estes estratos tornam-se exuberantes devido ao seu r´apido crescimento (Rizzini, 1997).
O cerrado apresenta densidade arb´orea vari´avel de acordo com as condic¸˜oes ed´aficas, condic¸˜oes h´ıdricas, profundidade do solo, queimadas e ac¸˜oes antr´opicas, fatores que ser˜ao refletidos na estrutura, na distribuic¸˜ao espacial dos indiv´ıduos lenhosos e na composic¸˜ao flor´ıstica do cerrado sentido restrito (Ribeiro e Walter, 1998). Trˆes subdivis˜oes desta fi- sionomia do cerrado s˜ao originadas desses complexos condicionantes: cerrado denso, cer- rado t´ıpico e cerrado ralo.
Figura 3.4:Veredas ao longo do rio Peruac¸u. Foto: Mar´ılia F. Gomes, 2004.
O cerrado denso ´e um subtipo de vegetac¸˜ao predominantemente arb´oreo, com cobertura de 50% a 70% e cinco a oito metros de altura. J´a o cerrado t´ıpico ´e predominantemente arb´oreo-arbustivo, com cobertura arb´orea de 20% a 50% e altura m´edia de trˆes a seis metros (Ribeiro e Walter, 1998).
Os solos da vegetac¸˜ao de cerrado sentido restrito s˜ao principalmente Latossolos e Areias quartzosas, com alta concentrac¸˜ao de ferro e alum´ınio.
• Veredas
As veredas apresentam-se como uma formac¸˜ao perenif´olia que segue os rios, onde a mesa de ´agua ´e superficial e os solos s˜ao hidrom´orficos. Observa-se mata galeria, margeada por um cintur˜ao de gram´ıneas (campo limpo, geralmente ´umido), sujeitas a inundac¸˜oes peri´odicas (Pivello e Coutinho, 1996; Ratter et al., 1997), com a presenc¸a constante das colˆonias ou agrupamentos de buritis Mauritia sp. (Figura 3.4).
Possuem ´arvores com altura aproximada entre quatro e seis metros e um maior n´umero de arbustos (Rizzini, 1997), sendo que os buritis possuem altura m´edia entre 12 e 15 metros. As veredas ocorrem geralmente nas suaves depress˜oes dos terrenos ondulados, condicionadas ao afloramento do lenc¸ol fre´atico, e s˜ao sempre contornadas pelo cerrado, que a partir das suas bordas, expande-se por todas as direc¸˜oes (Rizzini, 1997; Ribeiro e Walter, 1998). As veredas funcionam como local de ref´ugio, fonte de alimento e local de protec¸˜ao para a fauna terrestre e aqu´atica, al´em de ser local de pouso para a avifauna (Ribeiro e Walter, 1998).
Esta formac¸˜ao campestre do cerrado se apresenta como uma fitofisionomia predominan- temente herb´acea, com raros arbustos e ausˆencia completa de ´arvores (Rizzini, 1997).
O campo limpo pode ter localizac¸˜ao variada no perfil da vertente, mas no PEVP ´e en- contrado circundando as veredas, em ´areas cont´ıguas aos rios (Figura 3.5). Os solos s˜ao normalmente do tipo Hidrom´orficos, marcados por peri´odicas inundac¸˜oes, o que denomina por vezes o campo limpo de “v´arzea”ou “brejo”.
Figura 3.5:Campo limpo circundando uma lagoa no cerrado. Foto: Mar´ılia F. Gomes, 2004.