3. UTDANNINGSPOLITISKE PERSPEKTIVER
3.1 K UNNSKAPSSAMFUNNET
A titulação do Samba como Património Cultural do Brasil trouxe consequências tanto positivas quanto negativas (Nogueira, 2015; Pavão, 2008).
Entre as positivas, destaca-se o crescimento da consciência coletiva dos sambistas sobre a importância das suas partecipações nas ações promotoras e nas reuniões (Galvão, 2015); isto graças, sobretudo, à criação do Conselho do Samba, que se ocupa do resgate da memória do Samba, do depoimento de documentos, da preservação com meios digitais e da organização e disponibilização em banco de datos (Nogueira, 2015).
Em relação as negativas, destacam-se todas as várias iniciativas que não partiram de uma iniciativa dos sambistas, nem tinham sua anuência92.
Após reconhecimento, seria importante o desenvolvimento de trabalhos em redes para favorecer o diálogo entre os detentores do bem patrimonial e o Estado, no entanto, este diálogo occorre somente quando há interesses comerciais e económicos envolvidos (Nogueira, 2015).
Num mundo globalizado e estandardizado, caracterizado por elevados fluxos culturais, os PCI e suas medidas de salvaguardas são vistos como factores de estabilidade e de identidade; daí a perpetuação de traços definidos “autênticos” e “essenciais”93 (Pavão, 2008).
92 “A comercialização e a difusão de um património cultural, é justa e necessária se vem dos artistas e dos
detentores, com critério e com objetivos bem definidos para garantir a salvaguarda da cultura tradicional e para trasmiti-la de forma correta às novas gerações. Sem esse tipo de trabalho, o Samba como todas as manifestações culturais, seriam totalmente absorvidas pela globalização e pela manipulação do mercado musical.”: entrevista a Celso Luís de Oliveira (Apêndice B).
93 O reconhecimento como PCI nacional agregou valor simbólico adicionado ao Samba e as Escolas de Samba,
valor que provavelmente foi explorado demais no âmbito turístico (Pavão, 2008). Um exemplo disso é a construção, por parte da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, de um “parque temático” chamado “Cidade do Samba” (http://cidadedosambarj.globo.com): neste espaço os turistas podem fazem passeios e conhecer os instrumentos musicais, aprender como as Escolas produzem as fantasias, as alegorias e as esculturas, podem tirar fotos com as indumentárias típicas do Carnaval ao lado dos famosos carros alegóricos, podem comprar tradicionais souvenires, mas, sobretudo, assistir a “shows relâmpagos”, isto é, um grupo de sambistas que, saindo de um surdo gigantesco, apresentam alguns Sambas populares, enquanto sensuais passistas enlouquecem os homens com suas danças (Pavão, 2008). A exploração turística dos estereótipos é evidente, mas isto é o que vem apresentado como “verdadeiro samba brasileiro” (Pavão, 2008).
O turismo, portanto, leva ao local uma série de vantagens económicas como a ocupação dos hotéis, novos postos de trabalho, a divulgação das belezas naturais e culturais de um país, por outro lado, constitui uma ameaça para as tradições (como já mencionado nos capítulos anteriores), sendo que motiva os detentores a aplicar modificações às práticas das expressões culturais originais para torná-las mais atraentes94 (Nogueira, 2015).
No princípio, o Samba existia apenas nas memórias das comunidades negras e transmitidas de geração em geração por meio da oralidade; com a evolução do género e a criação das Escolas de Samba, as pequenas rodas de Samba començam aumentar significativamente de número de partecipantes e a ter necessidade de se organizarem (Nogueira, 2015; Pavão, 2008).
O carnaval popular, consequentemente, deixou suas características simbólicas tradicionais para se tornar um “espetáculo grandioso” (Nogueira, 2015); graças à popularidade obtida, as Escolas començaram mudar as suas políticas: os ensaios, antes fechados aos desfilantes, passam a atrair turistas tornando necessários serviços complementares como trasportes, guias, serviços de alimentação, segurança, limpeza, manutenção e apresentações artísticas com
passistas (Pavão, 2008).
Hoje em dia, quase todas as Escolas cariocas possuem boutiques para venda de
souvenires, uma estrutura de marketing para a venda de ingressos (seja pelos ensaios ou pelos
desfiles), para a divulgação e o fortalecimento da imagem da Escola de Samba, um serviço de imprensa que envolve as TVs, a rádio, os jornais e internet, mas sobretudo, contam com subvenções do governo e dos patrocinadores (Nogueira, 2015).
Parecem bastante claros, por isso, as quantidades de dinheiro e de interesses que giram em torno deste evento.
O Carnaval transformou-se no período de maior afluência de turistas para a cidade de Rio e passou a movimentar cifras cada vez mais generosas95 (Pavão, 2008).
A necessidade de criar uma identidade nacional, em redor do Samba, començou com o Estado Novo em 1937, foram retiradas e censuradas algumas características que “degradavam” a
94 No Brasil, práticas culturais como o Samba, o Pagode, a Capoeira e o Candomblé, foram padronizadas pelos
setores dos mídias, do turismo e da política para a divulgação simbólica da imagem de um Brasil “cordial” (Yúdice, 2004).
95 Os dados do Carnaval 2018 anunciados por Marcelo Alves, presidente da Riotur, resumem-se em: 1,5 milhão
de visitantes (400 mil mais que em 2017), incluindo os moradores do Rio são mais de 6 milhões de foliões; R$ 3,5 bilhões em recursos, com 90% de ocupação hoteleira (em 2017, o valor foi de R$ 3 bilhões); R$ 38,5 milhões em patrocínios de várias empresas privadas; 464 blocos autorizados no Carnaval de rua (28 blocos desfilaram por primeira vez) e 16 palcos populares relacionados ao Carnaval. (Fonte:
imagem do Samba, como o malandro, a rejeição do trabalho e alguns temas musicais e foram substituídos por elementos de valorização do País, tais como as belezas naturais e outras “belezas” (Caetano, 2004; Galvão, 2015).
No dia 18 de novembro de 1966, foi criada, pela Ditadura Militar (1964-1984), a Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR), com decreto-lei n. 5596; o contexto turístico da época era caracterizado principalmente por turistas europeus e os locais visitados fora da Europa eram, na sua maioria, as antigas colónias associadas a paraísos terrestres (Feijó & Calazans, 2002; Gomes, 2010; Nova, 2006).
Esta empresa, vinculada ao Ministério da Indústria e Comércio, tinha entre os seus objetivos: fomentar e financiar iniciativas, planos, programas e projetos visados ao desenvolvimento do turismo, estudar o mercado turístico para obter controlo sobre o mesmo, organizar, promover e divulgar as atividades ligadas ao turismo (Gomes, 2010; Kajihara, 2010).
Naquele período, o Brasil vivia um momento de medo, censura e repressão, devido ao regime militar; neste contexto a EMBRATUR era responsável por fazer propaganda positiva no exterior sobre as maravilhas deste país97.
Analisando o material publicitário da EMBRATUR dos anos setenta, observa-se que a promoção se baseou fundamentalmente em três grandes imagens estereótipadas: Rio de Janeiro (quase a única cidade divulgada), Carnaval (representado quase exclusivamente pelos desfiles das Escolas de Samba) e as mulheres brasileiras (as famosas “mulatas”) (Caetano, 2004; Feijó & Calazans, 2002; Gomes, 2010; Kajihara, 2010; Spinola, 2001).
A figura da “mulata” é uma invenção de raça, género e sexualidade, que foi espetacularizada e vendida como atrativo turístico, na verdade, ela era o foco central do processo de turistificação do Brasil, não somente em relação ao Samba, mas também como verdadeiro produto do turismo sexual (Feijó & Calazans, 2002; Gomes, 2010; Nova, 2006).
Existem vários exemplos deste processo, como o da Rede Globo da televisão com a “Mulata Globeleza”, ou seja, uma mulata que dançava totalmente nua, com o corpo pintado, enquanto eram apresentados os dias do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Gomes, 2010).
96 Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960-1969/decreto-lei-55-18-novembro-1966-
371224-norma-pe.html
97 “É interessante observar o contraste entre a situação política do país na época e as imagens de festas e alegria
do material promocional oficial do país divulgado no exterior no mesmo período.” (Kajihara, 2010: 7). Santos Filho (2004) sustenta que a EMBRATUR foi usada pelo regime militar como um instrumento para desviar o olhar do mundo sobre as repressões que ocorriam no país naquele período, focando a atenção sobre as belezas do Brasil como as mulheres, o Carnaval e a hospitalidade do povo (Santos Filho, 2004).
Com o passar dos anos esta espetacularização da “mulata” foi tema de muitos debates, por claros sinais de exploração, de racismo, de machismo e de colonialismo, que foram muito difíceis de erradicar.
Atualmente, com o reconhecimento do Samba de Roda como Património da UNESCO, e com o aumento dos movimentos anti-racistas e feministas que vão contra esta imagem da mulher negra hiper-erotizada, o Samba erotizado está em declínio (Gomes, 2010). Apesar destes resultados, o Carnaval brasileiro tornou-se tão popular que também noutros lugares do mundo começaram a aparecer eventos similares (Feijó & Calazans, 2002), de fato, é comum ver em países da Europa, Estados Unidos e Canadá manifestações de Samba nas quais nunca faltam as mulatas98.