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Hipócrates, o primeiro historiador médico, nascido no ano 460 a.C. na ilha de Cós, Grécia, foi quem deu grande impulso à Medicina em todos os seus aspectos, formulando o conceito histórico de ‘doença’, ou seja, a idéia de que as doenças seguem um curso, dos primeiros sinais até o clímax ou crise e decorrem para uma resolução feliz ou fatal.

O dicionário Aurélio eletrônico (1999) registra o termo ‘doença’, em um de seus sentidos médicos, como uma patologia, uma alteração biológica do estado de saúde de um ser (homem, animal etc.), manifesta por um conjunto de sintomas perceptíveis ou não; enfermidade, mal, moléstia; alteração do organismo como um todo ou de qualquer de suas partes, marcada por rápida evolução dos sintomas que têm caráter mais ou menos violento, terminando na recuperação ou morte.

Tais definições centram-se no aspecto biológico do conceito de doença, no sentido de perda, e ainda em um sentido muito genérico, aplicável a qualquer ser vivente, humano ou não-humano.

Hipócrates, ao conceber o relato de caso, uma descrição ou representação, da história natural da doença – resumida pela antiga palavra patologia, também se ateve apenas ao registro biológico.

Segundo Sacks (2002), porém, esse modelo de relato hipocratiniano constitui uma forma de história natural, nada nos dizendo sobre o indivíduo que detém a doença e sua história, nada revelando sobre a própria pessoa e sua experiência de estar envolvido com a doença, lutando para sobreviver a ela, aprender com ela, ou para conviver com ela por toda a vida.

O ‘sujeito’ simplesmente não é levado em conta em um relato de caso no modelo hipocratiniano e nem incluído, na atualidade, em um modelo tradicional médico; pelo contrário, o próprio doente é apagado, desconsiderado. O médico trata a doença, como se não existisse um sujeito lidando com ela, como se não existissem outras pessoas ao lado do doente também envolvidas naquele problema.

Os relatos de caso modernos referem o sujeito, mas de forma genérica em uma descrição meramente superficial (por exemplo: indivíduo trissômico (com síndrome de Down) e albino, sexo feminino, 21 anos), descrição aplicável tanto a um rato como a um ser humano.

Para retornar o sujeito (humano) ao centro da análise – aquele ser sofredor, angustiado, em luta contra a doença de que está acometido e, ao mesmo tempo, tentando superar seus sintomas, deve-se aprofundar o relato de caso, transformá-lo em uma narrativa ou história, introduzindo, além de um ‘quê’, o ‘quem’, a pessoa real, o ser-doente diante de sua doença, numa descrição que leve em conta aspectos físicos, psíquicos, simbólicos, enfim, que preserve a identidade humana, mesmo em circunstâncias adversas. Somente assim, o processo de superação pelo próprio doente dos problemas que lhe são acarretados pode se dar.

Na verdade, a individualidade do doente está essencialmente envolvida, e o estudo da doença e da individualidade não pode desarticular todos os registros humanos. O abismo categórico que possam colocar entre instâncias como o psíquico e o físico, entre o simbólico e a doença, não pode ser mantido nos relatos, nas histórias que concernem a tais instâncias. É preciso aproximá-las mais, para que os relatos de caso digam mais do ‘sujeito’ em sua subjetividade, a relação dos processos fisiológicos com a sua biografia.

Pensando no idoso, via de regra pensa-se nas doenças chamadas degenerativas, como numa relação causal em que as segundas fossem inevitavelmente obra da idade.

É preciso logo ressaltar que não apenas na velhice se manifestam doenças como Parkinson, Alzheimer, cárdio-circulatórias, arteriosclerose, dislipdemias, hipertensão arterial, hipotensão ortostática, insuficiência coronariana, ICC e doenças vasculares periféricas, doenças do aparelho osteoarticular, osteoartrose, artrite reumatóide, osteoporose, afasia, distúrbios do equilíbrio e delírio, doenças metabólicas como diabetes e tireopatias, além dos grandes Is da Geriatria: incapacidade mental, incapacidade funcional, imobilidade, incontinência urinária, instabilidade postural e iatrogenia.

Apesar de essas doenças poderem acometer pessoas das mais variadas idades, na verdade, elas são mais freqüentes naquelas com idade mais avançada. As mais preocupantes para idosos e familiares são: a Doença de Parkinson e a Doença de Alzheimer.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Doença de Parkinson, responsável pela degeneração progressiva de neurônios produtores de dopamina,23 embora afete pessoas com menos de 60 anos, têm nos mais idosos o contingente mais expressivo, com cerca de 2% dos brasileiros.

23 ‘Dopamina’ refere o neurotransmissor responsável pela comunicação entre as células nervosas, que se encontra deficiente na D.P. Sua falta resulta em importante ruptura da função motora normal. Cf. site: http://www.parkinson.med.br/

A Doença de Alzheimer, por sua vez, que é responsável pela produção exagerada de uma proteína em determinadas células nervosas, e leva à morte todos os neurônios que rodeiam essas células, está entre as quatro maiores causas de óbito no mundo, de acordo com a O.M.S.

Em ambas as doenças, ou em qualquer outra que acometa um indivíduo, o essencial não deve ser o foco na doença em si, mas tratar o ‘sujeito’ na relação com sua doença. Aí está o ponto em que iremos nos centrar, neste trabalho, trazendo relatos de pessoas que enfrentam uma das mais temidas doenças por todos, a D.P.

Procedimentos diversos vêm sendo utilizados para postergar as doenças para mais tarde, se possível evitá-las ou mesmo superá-las, seja com novas medicações alopáticas, farmacológicas, seja com tratamentos alternativos.

A possibilidade de uma vida mais longa dos idosos tem conseqüências, pois isso não deixa de exigir um acompanhamento médico-geriátrico, um acompanhamento psicológico ou psicanalítico para aceitação das mudanças na vida, tratamentos alternativos concomitantes aos alopáticos, despesas que se avolumam e não são cobertas pelas atuais aposentadorias irrisórias fornecidos pelo Estado e até pelos planos de saúde privados.

Tudo isso exige um novo posicionamento e novas atitudes dos órgãos públicos e da própria sociedade. É preciso de que se pense urgentemente, no Brasil, em novos sistemas de apoio, oficiais ou não, a essa nova geração de idosos que ultrapassam o limite-médio de 68,6 anos e que, mais do que em outras décadas, têm exigências maiores.

É preciso que se pense também que nem todas as pessoas concebem da mesma forma a velhice e nem mesmo a aposentadoria. Há aqueles que planejam mais, enquanto outros se preocupam menos com a questão da previdência e das doenças e só mais tarde, quando muito idosos, é que vão sentir na carne seu despreparo ou sua omissão sobre o assunto na juventude ou na idade adulta.