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3. NORSK FILMHISTORISK TILBAKEBLIKK

6.10 K RITIKK AV MRS

A questão central do problema metodológico aqui enfrentado é posta pela necessidade de realizar a análise sistemática do objeto – o instrumento das operações urbanas – articulado a seu contexto, ou seja, aos processos sociais no interior dos quais foi concebido e gerado como instrumento de políticas urbanas, ou seja, de ação sobre processos socioespaciais.

David Harvey, no primeiro capítulo de A justiça social e a cidade afirmou que "Se nossos conceitos são inadequados ou inconsistentes, não podemos esperar que identifiquemos problemas e que articulemos políticas apropriadas”. (HARVEY, 1973, p.22, tradução livre)

Na Introdução, o autor explica como, a partir das "formulações liberais" contidas na primeira parte do livro – contexto do qual a citação acima foi retirada – desenvolveu uma perspectiva de abordagem relacional tendo como guia para a investigação o "poder das análises de Marx" (id. ibid. p. 17). Tratando da relação entre processo social e forma

construção de teorias sobre a cidade e do planejamento urbano, questiona a própria separação entre sociedade e espaço subjacente àqueles conceitos:

"formas espaciais não são ... concebidas como objetos inanimados no interior dos quais o processo social se desenrola, mas como coisas que 'contêm' processos sociais, do mesmo modo como processos sociais são espaciais. [...] a interpenetração entre processo social e forma espacial que se ergue a partir da prática humana, é ela mesma um problema a ser superado pela prática humana". (id. ibid.p. 10-11, tradução livre, ênfase e aspas no original).

Esse pode ser considerado o ponto de partida do percurso teórico e conceitual que Harvey empreendeu, expondo-o ao longo dos textos reunidos naquele livro. Aceitando essa abordagem para a investigação das questões relacionadas ao espaço urbano e ao ambiente construído, faz-se necessária a articulação de um conjunto de conceitos e técnicas de pesquisa que deve ser capaz de suportar tanto a elaboração analítica e teórica quanto o teste empírico no confronto com as realidades analisadas.

Na ausência de uma teoria urbana ou de uma teoria do planejamento consolidadas31, as dificuldades de análise e de comprovação de hipóteses nas pesquisas sobre processos urbanos exige a atuação em um terreno de interfaces entre campos disciplinares que produzem conhecimentos sobre esses processos. Tal terreno pode ser compreendido como o campo compartilhado pelas disciplinas parcelares32 que tratam de processos sociais (história, sociologia, economia, demografia, ciências políticas, ciências da organização) e das que tratam das formas espaciais (geografia, planejamento, urbanismo, arquitetura, engenharias).

Como observou Ricardo Toledo Silva (2001)33, as fronteiras entre os campos mais tradicionais da pesquisa urbana representados pela sociologia e pela geografia, e também as fronteiras entre os estudos da urbanização e os de urbanismo – tendem a se atenuar, em função tanto da complexidade e interpenetração crescente dos processos reais sobre os quais a pesquisa urbana se realiza, como também em função da crescente facilidade de manipulação de dados e informações proporcionada pelos avanços na

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Como apontam diversos autores, entre eles Castells (1984), Villaça (1998), Fainstein & Campbell (2002 e 2003), Gottdiener (1993) e Gottdiener & Hutchison (2000), não há teoria completamente desenvolvida nessas áreas. As coletâneas de Fainstein & Campbell (2002 e 2003) sobre teoria urbana e teoria do planejamento tendo como horizonte estudos e pesquisas na Inglaterra e nos Estados Unidos corroboram essa afirmação. Mesmo a orientação geral para o desenvolvimento de uma "perspectiva socioespacial" esboçada por Gottdiener em A produção social do espaço (1993) e mais elaborada em Gottdiener e Hutchison (2000, p. xiii-xiv e p. 143-149), trata-se de uma teoria ainda em desenvolvimento, de uma perspectiva.

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No dizer de Henri Lefebvre, "ciências parcelares" que resultam da divisão técnica e social do trabalho, produzindo conhecimentos fragmentários (LEFEBVRE, 2004, p. 62-63).

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SILVA, Ricardo Toledo. 2001. “The urban process in the periphery of capitalism. Methodological challenges in evaluating a poorly documented reality”. IN: Alfa Ibis Seminar – October 2001: City Renewal under Globalization. Delft (The Netherlands): TU Delft [Documento em formato eletrônico]. Toledo Silva retoma uma distinção feita por David Harvey (1973: p. 38-49) entre, de um lado, o emprego da linguagem de substância para a análise dos processos sociais, supondo as formas espaciais constantes ou "dadas"; de outro lado, supondo os processos sociais constantes ou "dados", a manipulação das formas espaciais. Coloca-se, portanto, o problema de estabelecer uma "estratégia [de abordagem] para a interface" entre processos sociais e formas espaciais, já que se encontram imbricados.

teleinformática. Tal fato não torna a pesquisa mais fácil ou mais leve, ao contrário: o perigo de confundir causas com conseqüências, hipóteses com pressupostos, conclusões com propostas, em vez de diminuir, aumenta (TOLEDO SILVA, 2001).

As afirmações acima apontam para a necessidade de construção de um quadro analítico adequado ao objeto de análise, no qual a utilização de indicadores sociais e espaciais esteja articulada ao emprego de instrumentos qualitativos de análise definidos com clareza, de modo que as hipóteses colocadas possam ser testadas no confronto com a realidade estudada.

Em função dessa argumentação, dois aspectos devem ser ressaltados. O primeiro é que necessariamente a pesquisa que fundamenta este trabalho lidou com a observação de um processo em andamento, ou seja, não encerrado, o que implica uma atenção redobrada aos detalhes e aos possíveis desenvolvimentos futuros, pois aspectos que, tomados em um momento como secundários e menos relevantes, podem vir a ser essenciais em um momento seguinte. O segundo, é que a separação entre pesquisador e objeto é difícil de ser feita, já que o objeto de investigação é um processo social que inclui, nele mesmo, o investigador, implicando cuidados especiais em relação à objetividade e acuidade das informações e afirmações.

Além desses dois aspectos, há um terceiro, talvez mais importante: o caráter singular do próprio objeto de investigação empírica. As Operações Urbanas em São Paulo constituem um caso particular pelas seguintes razões: a) pela introdução pioneira34 do instrumento e pela fixação de uma forma particular de “operações urbanas” entre as formas possíveis de parceria público-privado para ações sobre o processo urbano; b) pelo seu porte em relação a intervenções ou proposições urbanísticas similares em outras cidades brasileiras; c) pelas peculiaridades e pelo dinamismo do mercado imobiliário na cidade de São Paulo; d) pelo próprio modo como se deu e vem ocorrendo o processo de urbanização, na escala do município e da região metropolitana que este polariza; e) pelo caráter único que tem o município de São Paulo no contexto nacional, pelo lugar que ocupa na rede urbana do país e em relação ao contexto global.

Tal como colocada, a pesquisa realizada para este trabalho pode ser caracterizada como estudo de caso. Conforme Yin (2003), estudo de caso trata da investigação empírica de um fenômeno atual em seu contexto de ocorrência, sendo seu emprego preferível frente a outras estratégias de pesquisa especialmente quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto não são claramente evidentes. O estudo de caso apresenta como principais características:

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• tratar de uma situação na qual há mais variáveis de interesse além daquelas cujos dados podem ser objeto de análise estatística;

• apoiar-se em diversas fontes de evidência, sendo que os dados coletados deverão convergir por triangulação [ou seja, pelo menos dois conjuntos de evidências devem corroborar cada afirmação] para sustentar as hipóteses; • apoiar-se em proposições teóricas previamente estabelecidas, que orientam

tanto a formulação das hipóteses quanto a coleta de dados e a análise.

Uma das dificuldades geralmente apontadas para os estudos de caso é relativa à generalização de seus resultados. As generalizações possíveis a partir de estudos de caso não são de natureza estatística ou quantitativa, mas generalizações analíticas feitas em direção à teoria (YIN, 2003, p. 37). Conforme afirma Campbell (2003) tratando de estudos de caso na área de planejamento urbano, o caráter excepcional do caso permite que elementos e processos ausentes ou parcialmente desenvolvidos em outros locais possam ser identificados e examinados. Pela própria ausência, diferença ou contraste dos elementos do caso excepcional em relação a casos mais típicos, o estudo do caso de exceção pode contribuir para a melhor compreensão da tipicidade ou normalidade, já que em ambos operam os mesmos processos e regras de caráter geral que operam no conjunto da formação social (CAMPBELL, 2003, p. 12). Mesmo na ausência de um conjunto de casos que possam ser qualificados como mais típicos – ou seja, a ausência uma normalidade estabelecida frente à qual a excepcionalidade do caso seria destacada – o estudo do processo particular de constituição das operações urbanas pode contribuir para a compreensão de processos análogos em outros contextos.

A análise do conjunto formado pelas cinco primeiras operações urbanas em São Paulo pode ser assumida portanto como estudo de caso onde cada uma das operações seria tratada como um caso específico dentro de um contexto geral de análise. Sendo assim, trata-se de aplicar um conjunto de procedimentos que permita a análise de cada uma delas e de seu conjunto, e que também permita fazer transposições e comparações com processos análogos, em outros lugares ou períodos, através da aplicação dos conceitos e procedimentos empregados. A metodologia aqui adotada procurou satisfazer a essas condições.

Na segunda metade dos anos de 1970, com base na teorização da escola francesa de Sociologia Urbana, Camargo, Lamparelli & George (1997, p. 51-54) definiram o

"esboço de um método de análise para os meios coletivos"35. A metodologia aqui empregada para o estudo dos casos foi inspirada naquele texto, adaptando o método sugerido para a análise das operações urbanas. Para cada uma dessas operações, trata-se de examinar: seus antecedentes, sua base física e seu processo de formação; a legislação e as normas a elas associadas; a sua operação e operacionalização; seu financiamento e sua apropriação; as formas institucionais e associativas implícitas em seus aspectos operacionais; a lógica e os mecanismos de mercado e os benefícios públicos obtidos. Os capítulos referentes aos cinco casos de operações urbanas tratarão principalmente desses aspectos.

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Os meios coletivos designam “o conjunto formado pela legislação e normas internas pertinentes, pelo financiamento operacional e de investimento, pela base física permanente e de consumo operacional interno, pelas atividades de operação, pelas práticas internas de apropriação e pelos agentes (pessoas) que realizam estas atividades e práticas, tudo isto no âmbito de uma ou varias unidades organizativas cujo objetivo seja levar a cabo as atividades socializadas de circulação, distribuição, troca e consumo coletivo” (id. ibid. p. 45). Obviamente, as Operações Urbanas não constituem objeto análogo aos meios coletivos assim delimitados. Entretanto, a transposição da metodologia sugerida naquele texto é feita principalmente com o objetivo de “permitir a análise e penetração no objeto de estudo sem perder de vista, e mais ainda, trazendo para dentro dele, as contradições e tensões existentes no contexto onde se coloca”(id. ibid. p. 61).