2. UTFORDRINGER KNYTTET TIL KOMMERSIALISERING
2.3. K OMMERSIALISERINGSPROSESSEN RELATERT TIL FASER
A atividade missionária dos capuchinhos bretões no Estado do Brasil pertenceu a um contexto bastante particular. Não integrando os percursos coloniais portugueses, os religiosos de origem francesa aportaram em Pernambuco durante a ocupação neerlandesa, na qual se professava o calvinismo. Tomando partido dos luso-brasileiros na guerra de Restauração, entendendo-a como um conflito religioso, em defesa da fé católica, os capuchinhos acabaram por se estabelecer na capitania. No entanto, estavam sujeitos à autoridade direta da Santa Sé, por meio da Sagrada Congregação de Propagação da Fé, o que se chocava com o direito do padroado régio, conferido à monarquia portuguesa. Apesar deste aparente imbróglio, os missionários capuchinhos foram inseridos na empresa colonial portuguesa, sobretudo, após a expulsão dos neerlandeses.
A principal causa que motivou a permanência destes religiosos na colônia foi a necessidade de apoio político que Portugal enfrentava, diante da guerra com a Espanha, a fim de ter reconhecida a sua independência. A França, já despontando como potência, aparecia como importante aliada a D. João IV, ainda que o acordo tão esperado tenha demorado alguns anos a se concretizar. Tendo em vista esta conjuntura, a Coroa portuguesa iniciou uma política de tolerância acerca da presença dos capuchinhos bretões no Brasil. Não era interessante confrontar missionários franceses, quando se pretendia uma aliança de cooperação para enfrentar a Espanha, ainda que não fossem poucas as suspeitas sobre o que poderiam empreender a favor de El Rei Cristianíssimo, pois se acreditava que “persuadiam a muitos portugueses que solicitassem a proteção de El Rei de França”, na impossibilidade de D. João IV enviar auxílio para a guerra de Pernambuco.
Mas por que estes capuchinhos continuaram atuando na colônia até o início do século XVIII, após sessenta anos de sua chegada a Pernambuco? O percurso feito por este trabalho demonstra que diversos interesses estiveram em jogo, ao longo do século XVII, para que os capuchinhos de origem francesa, e não subordinados ao padroado régio, pudessem permanecer no Brasil. O casamento de D. Afonso VI com Maria Francisca de Sabóia, em 1666, confirmava uma aliança há muito procurada por Portugal. Nesse sentido, a política portuguesa passou a estar alinhada com o governo francês, especialmente quando da regência de D. Pedro, já casado com a sua ex-cunhada, depois do afastamento de D. Afonso VI da governança. A política de tolerância aos capuchinhos na colônia se explica em
100 decorrência desta proximidade entre Portugal e França, estendendo também a Rainha sua proteção sobre os missionários, até a sua morte, em 1683.
Quanto aos anseios da Coroa francesa, a tutela sobre a política portuguesa atendia aos seus interesses hegemônicos. Interesses voltados tanto para a conjuntura européia, quanto para as possessões no Ultramar. A própria continuidade de Maria Francisca de Sabóia na corte portuguesa, passando de Rainha a Princesa, foi apoiada por Luís XIV. E os capuchinhos no Brasil representariam a presença francesa no território, o que poderia servir a “futuros contingentes”, mantendo aí a Coroa francesa “vassalos e língua”. Vale lembrar que a Ordem dos Capuchinhos assistiu a uma rápida expansão na França, com ampla adesão de frades observantes. E que alguns capuchinhos, como frei José de Paris – secretário e confidente do Cardeal Richelieu – assumiram importantes posições na política francesa.1
Todavia, esta presença francesa não era vista com bons olhos por muitos colonos e autoridades portuguesas no Brasil. Tal situação acarretava uma postura
hostil em relação aos capuchinhos, visto que as desconfianças sobre os missionários
não cessaram por todo o período em que estiveram na colônia. Os receios a seu respeito eram: a proximidade com os indígenas poderia significar que eles suscitariam nos nativos a revolta contra os portugueses, inclusive fornecendo-lhes armas; e que os próprios religiosos preparariam, ou apoiariam, uma invasão francesa na colônia, oferecendo risco à soberania portuguesa no Brasil. Como se isto não bastasse, boatos acerca dos capuchinhos ainda causavam temor na população de Recife, como no caso de que o governador da capitania, Jerônimo Mendonça Furtado, o Xumbergas, entregaria a cidade aos franceses, com a colaboração dos religiosos.
O conflito protagonizado por Martin de Nantes e Francisco Dias d‟Ávila também acarretou prejuízo ao trabalho missionário dos capuchinhos. Além de toda a disputa, as acusações do coronel da Casa da Torre cumpriram o papel de desgastar a imagem dos capuchinhos frente às autoridades coloniais, imagem esta que já não inspirava tanta confiança. Dando-se seqüência à tentativa de minar o trabalho realizado pelos missionários franceses, a Câmara de Salvador ainda manifestou as razões pelas quais não seria indicado que estes religiosos erigissem hospício na cidade. Buscando-se uma alternativa à casa religiosa dos capuchinhos bretões, os oficias da Câmara demonstraram a vontade de que capuchinhos italianos estabelecessem uma casa em Salvador, gerando-se uma contenda dentro da própria Ordem.
No tocante à saída dos capuchinhos do Brasil, além de sua origem francesa, as disputas entre a Coroa portuguesa e a Santa Sé acabaram por originar o impasse
1 Pietro Vittorino Regni. Os capuchinhos na Bahia. Salvador – Porto Alegre, Casa Provincial dos
101 que se estabeleceu acerca do juramento de fidelidade, exigido aos missionários estrangeiros. Desde os primeiros anos em que estiveram na colônia, os capuchinhos por serem missionários apostólicos, com faculdades especiais e diferentes dos demais religiosos sob o padroado régio, enfrentaram desconfianças também neste sentido. Acreditava-se que não se deveria permitir religiosos estrangeiros no Brasil de posse de faculdades apostólicas. Mesmo com o pedido dos capuchinhos à Santa Sé, para que permitisse a realização do juramento, o papado não os atendeu.
A partir de 1683, com a morte de Maria Francisca de Sabóia, o já então D. Pedro II buscava um distanciamento da influência francesa na sua política. Depois, no início do século XVIII, com a guerra de sucessão espanhola, e a aliança com a Inglaterra, Portugal se desligou da órbita de influência de Luís XIV. No entanto, mesmo com este progressivo afastamento, e o veto para a entrada de novos capuchinhos na colônia, El Rei Cristianíssimo empreendeu negociações, visando à permanência dos missionários no Brasil. Caso tal matéria fosse concernente apenas ao âmbito religioso, os esforços teriam durado por tanto tempo, já que os últimos capuchinhos deixaram o Brasil apenas em 1702, após quinze anos da proibição do ingresso de novos capuchinhos? Teria Luís XIV suportado esta condição de desconfiança da política portuguesa acerca dos seus vassalos capuchinhos, se a matéria não fosse de considerável importância?
Participando da empresa colonial portuguesa, os capuchinhos bretões exerceram o seu trabalho missionário, mesmo estando sujeitos a várias desconfianças, o que ocorreu por todo o tempo em que missionaram no Brasil. A continuidade da sua atuação missionária durante sessenta anos, ao longo do século XVII e início do XVIII, esteve envolvida com interesses diversos, de modo que foram colocadas em prática algumas estratégias, de cunho político e diplomático, tanto da monarquia portuguesa, quanto por parte da Coroa francesa. Tais estratégias tinham por objetivo alcançar determinadas posições políticas, num conflituoso contexto europeu e ultramarino.