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Dar um ponto final em uma pesquisa causa a sensação de alívio e, ao mesmo tempo, de medo, talvez por não ter o autor conseguido realizar todas as sugestões propostas e aceitas no momento da qualificação. É preciso, no entanto, pensar que não é possível ao pesquisador dar conta de tudo, no máximo, se aproximar de algumas coisas. O desejo de que a investigação alcance as intenções propostas sempre comigo esteve presente. Por isso, chego a esta etapa com uma sensação de que muitas perguntas poderiam ser feitas, algumas análises revistas, tantas leituras refeitas, enfim, que poderia ser diferente.
Outra constatação que faço é apontar as dificuldades, das quais é verdadeiro dizer que foram diversas. Muitas vezes me encontrei imersa nesta dissertação, com mais desencontros e angústias do que gostaria. As facilidades que esperava encontrar se perdiam a cada leitura. Muitas vezes me senti, neste caso, seguindo Foucault (1997), uma pesquisadora cega, sem certezas nem ferramentas seguras. Apesar disso, e talvez o mais enriquecedor, foi muito interessante e desafiador conseguir superar estes impasses, dar continuidade, fazer escolhas, propor soluções aos meus próprios problemas e dilemas e chegar até aqui.
Ao ser admitida ao Mestrado, não pensava o quanto eu mudaria em apenas dois anos. Quando iniciei o fim deste experimento, ao fazer as primeiras leituras, o primeiro escrito, não imaginava o quanto ainda poderia ser mudado. Até a vontade de continuar as discussões dos dados, de refazer alguns escritos teve que ser, obrigatoriamente, controlada, para esta etapa ser “terminada”.
Se as teorias, assim como as verdades, são parciais, minha intenção neste ensaio foi de abrir fendas, questionar o aparentemente inquestionável, produzir outras verdades. As reflexões que fiz sobre o Pirambu no Jornal, de maneira geral, não se apresentam recentes nem levam às conclusões definitivas. Talvez, somente
um desses focos fosse o suficiente para ser analisado, por serem eles tão complexos e abrangentes, tanto no que se refere ao universo de autores que tratam desses pontos como as diferentes formas de conceberem os conceitos, os procedimentos de análise de cada um deles etc.
É importante ressaltar o fato de que não foi meu objetivo neste relatório de pesquisa estabelecer um valor de juízo, um julgamento do Jornal, mas sim procurar mostrar seu papel central na produção discursiva sobre o Pirambu. Espero, portanto, - tal como nos desafia Foucault (1997) – haver escrito uma história do presente, mostrando, analisando, tencionando sobre a proveniência de algumas certezas, convicções e verdades sobre o Pirambu.
As análises do material empírico – fotos, legendas e títulos das matérias – possibilitaram perceber o produto de fixação, disseminação de modos de ver, pensar e dizer sobre o Bairro estudado. Trata-se dos regimes de enunciação, ou seja, como se passa a ver de determinadas maneiras e não de outras.
O Pirambu dos discursos jornalísticos, em sua maioria, é posicionado por suportes de verdades trazidos por problemas socioambientais, questões de moradia e violência. Todos esses referentes criam estereótipos sobre ele, como de um local indesejado para viver.
Os problemas socioambientais estão relacionados à questão da água, seja pela ineficiência do sistema de esgotamento sanitário na área ou por meio do produto em abundância, advindo dos fenômenos da natureza, como a chuva e a maré alta, que causam, respectivamente, alagamentos e desabamentos das casas e acumulação do lixo.
Os marcadores mais constantes sobre a moradia estão relacionados à desapropriação, por parte do poder público, de terrenos para serem apropriados pelos moradores que há anos lutam pela propriedade do terreno para morar sossegados; o grande adensamento populacional que se perpetua até os dias atuais; a existência de moradias em áreas de risco, que serão solucionadas com a construção da Costa-Oeste pela retirada dos moradores e seu reassentamento em casas longe dos riscos. O Pirambu é apontado no passado como uma grande favela. Acredito que esse discurso perdura até o momento em que esta área não é de interesse para a Cidade; depois passa a ser considerado bairro e atualmente é
constituído por áreas de risco, que necessitam de intervenção, discurso que legitima a incorporação dos espaços litorâneos de Fortaleza para o uso de outros agentes sociais. Apesar das mudanças no discurso, este bairro continua sendo veiculado no Jornal com imagens que o caracterizam como favela, ao mostrarem casas precárias, desordenadas e inacabadas. Parece um repertório interessado em promover a necessidade de intervenções.
A violência aparece no Jornal junto a outros bairros, quando se trata da violência em Fortaleza e está atrelada a três tipos: a agressão policial contra os moradores do Pirambu; a presença das gangues, associada aos bairros pobres; quase sempre constituída por jovens que ameaçam os moradores do próprio bairro, e a insegurança do bairro, no qual os moradores não sabem se devem se proteger das gangues ou dos policiais. A violência é a marca registrada do Pirambu. Desde o passado, dava-se por intermédio da ação de um contra o outro e a polícia também atuava na repressão contra os moradores no sentido de expulsá-los das áreas, com o discurso da existência de alguns proprietários da terra ocupada. Atualmente, o discurso jornalístico traz essas ações mais no sentido individual, mas a presença das gangues amedronta a população residente na área e a polícia passa a tratar os moradores no local como se todos fossem suspeitos. Apesar do surgimento de bairros mais precários e violentos em Fortaleza, como, por exemplo o Bom Jardim e outros, o Pirambu ainda é veiculado nos jornais como violento.
Todas essas mobilizações foram alvo de deslocamentos nos seus referentes ao longo dos anos, mas a representação negativa permanece. No passado, o Pirambu, conquanto não discutido neste tipo de mídia, que é um dos mais antigos, foi eleito como local dos entulhos na reforma higienista, ou seja, era conhecido pelos moradores da Cidade por ser o local receptor dos dejetos, e de outros casos indesejáveis (doentes contagiosos, pobreza, miséria adensamento populacional), após a incorporação das idéias higienistas por parte do Poder público. Hoje, os enunciados do Pirambu n’O POVO ocorrem acerca dos problemas socioambientais: áreas de risco, praia poluída, esgoto a céu aberto, local onde está situado o emissário submarino etc.
As ações para a melhoria do bairro são evidentes. Então, por que permanece no discurso do Jornal como se ainda estivesse no estádio de ocupação lá na década de 1940, quando do seu surgimento? Por que outros bairros mais precários, mais
violentos e menos assistidos do que o Pirambu, em Fortaleza, não ganham o mesmo nível de visibilidade nas matérias jornalísticas d’O POVO? Será em virtude de sua localização em área litorânea?
Todos os referentes discursivos mostrados pelas fotos, títulos e legendas trazem dizeres que mostram o Pirambu como um bairro homogêneo em relação aos três focos analisados: pobre, miserável, sujo, violento e de moradias precárias necessitando de intervenções, seja do Poder público ou da sociedade. Assim, O POVO traz constantemente, ou melhor, apresenta com maior regularidade os pontos negativos do Bairro, não indicando a melhoria da infra-estrutura, o surgimento de outros bairros mais perigosos e violentos, no sentido de “destronar” o Pirambu de tal estigma e a diferença da ocupação socioespacial e econômica existente no bairro permite dar continuidade de sua representação do passado. É a história se fazendo presente.
No meio dessas significações, porém, que desclassificam o bairro Pirambu, foi possível perceber n’O POVO, algumas singularidades, como início de uma tentativa de possibilitar outros direcionamentos de significados sobre ele, quando são enfatizadas algumas matérias sobre projetos sociais - Projeto Quatro Varas, EMAÚS, SOCRELP, entre outros - implantados no Bairro no sentido de ajudar os moradores da área, proporcionando-lhes capacitação para a inserção no mundo do trabalho; o grande número de associações comunitárias que reflete a organização e resistência dos moradores e ao anunciar, em notas, o aniversário do Pirambu, privilegiando a importância desta área para a história de Fortaleza.
Essa nova perspectiva, ainda muito débil, trazida pelo O POVO, me permite pensar a possibilidade de abrir caminhos para a continuidade da pesquisa, que se encerra neste momento, mais no sentido de terminar uma etapa, quem sabe, dar continuidade num programa de doutoramento...
Pretendo que a regularidade desses discursos possibilite aos leitores que aprendam a incitar algumas resistências de representações, do modo como são estas formuladas, publicadas, repetidas sobre os dizíveis espaços da cidade tendo por suporte comunicativo-social o periódico jornal.
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