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K AN ELEVRÅDSSAKER MED SOSIALT PREG BIDRA TIL EN DEMOKRATISK OPPDRAGELSE ?

4. DRØFTING AV EMPIRISK STUDIE

4.5 K AN ELEVRÅDSSAKER MED SOSIALT PREG BIDRA TIL EN DEMOKRATISK OPPDRAGELSE ?

Caggiano (2005) traz um dado relevante referente à migração boliviana ao declarar que cinquenta e quatro dos bolivianos na Bolívia têm parentes no exterior. A afirmação do pesquisador é endossada, primeiramente, pelo Ministério das Relações Exteriores da Bolívia, que assume o número de mais de 3 milhões de bolivianos vivendo fora da Bolívia e, em seguida, pelo atual presidente Evo Morales, em um discurso feito, justamente, para os cidadãos bolivianos que estão fora do país. Nas palavras do presidente:

... Mas de la mitad de los bolivianos tienen algún familiar que vive en el extranjero, sabemos que ustedes (extranjeros) son reconocidos por su honestidad y por su trabajo, por eso quiero expresar mi máximo reconocimiento y mi admiración por el trabajo de ustedes. Gracias bolivianos y bolivianas compatriotas por llevar con orgullo, con valentía, con dignidad el nombre de nuestra querida tierra. No duden de nuestro esfuerzo, desde Bolivia seguiremos trabajando, luchando

20 Até mesmo o uso da expressão “Padrão Europeu” pode ser considerado um exagero, pois tal região é marcada por diferenças tão complexas e profundas que se assemelham, salvo as devidas proporções, com as diferenças encontradas na parte de baixo da Linha do Equador a qual é mencionada por nós nessa parte do trabalho. Mesmo se reduzirmos esse “Padrão Europeu” para “Padrão Espanhol” ainda assim seria demasiadamente forçoso falar em unidade, uma vez que tal “unidade” política foi feita à força e na tentativa de sufocar inúmeros movimentos identitários, como os bascos, os catalães, os galegos, ciganos andaluzes entre outros.

para que sus derechos se reconozcan en todo el mundo queridos hermanos y hermanas...21

Isso revela o quão a questão merece destaque e atenção, inclusive acadêmica, pois as interfaces da migração boliviana com a nossa realidade pode, a um primeiro olhar, não ser tão relevantes. Mas a partir de um olhar mais cuidadoso, a atuação profissional dessas pessoas no exterior, tomemos o caso de São Paulo, mesmo em uma situação de invisibilidade social, tem desfechos diretos com o nosso dia a dia. Um exemplo claro disso é que, literalmente, das mãos dessas pessoas são feitas as roupas que, como disse um coreano com o qual tivemos contato, “vestem o Brasil”. Isso é um das questões que precisam ser entendidas dentro de um contexto histórico migratório mais amplo, como rala ta Bonassi (2000), que faz um levantamento dos últimos 60 anos da mobilidade humana entre os países da América do Sul e afirma que tal fenômeno adquiriu notória relevância a partir os anos de 1950.

Os fatores gerais de expulsão e atração, assinalados pela autora, estão comumente ligados ao “empobrecimento das populações de certas regiões e, ao mesmo tempo, ao processo de industrialização pelo qual alguns países da América do Sul passaram, principalmente, Brasil e Argentina” (BONASSI, 2000 p.28). A autora complementa sua hipótese ao considerar que a complexidade da questão migratória no Cone Sul é permeada por muitas correntes que cruzam o continente de leste a oeste e norte a sul, do interior dos países para as principais cidades nacionais e, em seguida, em direção aos países mais desenvolvidos economicamente da região.22 No caso dos bolivianos, frequêntemente, El Alto torna-se a “última estação” antes da tomada de decisão em deixar o país. A Espanha e os Estados-Unidos são, também, destinos visados pelos bolivianos que decidem emigrar, mas dadas as barreiras impostas, o longo percurso de travessia, o risco de não chegar com vida ao destino planejado, às degradantes condições

21 Discurso feito em 2007 e reproduzido na Revista Centro Pastoral do Migrante em homenagem aos 50 anos da imigração boliviana para o Brasil.

22 Cabe ressaltar que o movimento migratório ao qual nos referimos é aquele em que as pessoas que tomam a decisão de migrar não possuem alta qualificação profissional e que estão à margem do processo social em seus países, ocupando profissões de baixo destaque, contando com sua força física laboral como maior bem de troca na busca por emprego e melhores condições de vida (SORJ e MARTUCCELLI, 2008 pp.86-87).

das viagens e os mecanismos criados para a seleção de estrangeiros, em alguns casos, tais destinos tornaram-se praticamente inviáveis, fazendo com que muitos imigrantes buscassem países limítrofes com perspectiva de nova vida no exterior (CAGGIANO, 2005 p.49). Além dos fatores de expulsão existentes e já citados por Bonassi, a Argentina, na perspectiva de Grimson (1999), apresentou-se até meados da década de 90 como o terceiro principal destino escolhido pelos bolivianos para imigrar, dadas boas condições salariais, linguísticas, proximidade com o país de origem e, em determinada medida, as redes sociais lá estabelecidas.23

Caggiano (2005) defende que os imigrantes bolivianos radicados na Argentina representam 73% da população que deixou o país e que naquele país eles formavam o maior grupo nacional que buscou lá buscou uma melhor perspectiva de vida. Dadas baixas perspectivas financeiras oferecidas pelo país, acreditamos que hoje ele não seja o principal destino de bolivianos na América do Sul. No entanto, isso não descarta, absolutamente, o reconhecimento de que é encontra-se lá uma coletividade muito maior que a de São Paulo e muito mais articulada em todos os sentidos, inclusive comunicacionais.24 Tal imigração, ainda tendo como base os estudos de Caggiano (id.), pode ser dividida em quatro ciclos: as duas primeiras, anteriores à década de 1960, estão nitidamente relacionadas às colheitas de frutas e safras de açúcar nas Províncias (Estados) do norte. A terceira etapa, entre 1960 e 1970, inicia-se com um deslocamento do país de origem não mais para aquelas regiões, mas sim em direção à Capital Federal. Em 1970 inicia-se a quarta etapa, com a tentativa de inserção profunda na Grande Buenos Aires, sem qualquer vínculo ou passagem por trabalhos ligados aos dos movimentos iniciados anteriormente àqueles da década de 1960.

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Por Redes Sociais o autor entende como os grupos de um mesmo país, ou de uma mesma região que se estabeleceram na Argentina de forma pioneira e criaram mecanismos sociais, culturais, políticos, artísticos, econômicos, etc. que facilitaram suas vidas no tocante a trabalho, emprego, moradia e documentação em um ambiente diferente do de origem. Dessa forma, os novos imigrantes que chegavam, por exemplo, não precisariam passar pelos mesmos problemas que os seus predecessores passaram. São, ainda, espaços criados para que se ofereça aos conterrâneos âmbitos de confiança, de uma memória compartilhada, de resolução de problemas comuns e formas de diversão (Grimson, 2005 p.89).

24 Isso abre espaço para um estudo comparativo das rádios bolivianas de São Paulo com as rádios bolivianas de Buenos Aires. Pelo que pudemos perceber em termos literários, as rádios de Buenos Aires são rádios oficiais e contam com liberação das autoridades para funcionar, dentre outros aspectos.

Novick (1992 apud. GRIMSON, 1991) contribui com Caggiano (id.), apontando que o aumento das migrações de países limítrofes em direção à Argentina ganhou notório volume entre os anos de 1947 e 1960, predominando a composição desses imigrantes de paraguaios e, principalmente, bolivianos que, com base nos fatores de atração oferecidos pelo país de destino, vinham para suprir a escassez de mão de obra no setor primário da economia Argentina situada, principalmente nas zonas fronteiriças.25 Grimson (op.cit.) relata que somente a partir da década de 1980 houve um nítido fluxo de imigrantes bolivianos que saíam da Bolívia com destino direto à Grande Buenos Aires26 e que esse fluxo ultrapassava o contingente populacional boliviano residente em Salta e Jujuy, norte do país, fazendo com que a imigração boliviana na Argentina deixasse de se concentrar nas zonas longínquas e distantes para instalar-se no “coração” das grandes cidades .27

Bajo Flores e Charrúa são os principais redutos bolivianos em Buenos Aires, 80% dos seus habitantes são bolivianos e filhos de bolivianos, unindo gerações mais diferentes que buscaram na Argentina uma nova perspectiva de vida que, até então, não lhes foi permitida em seu país de origem. A história do Bairro Charrúa começa com a chegada dos primeiros bolivianos ali assentados no início dos anos 60, desenvolvendo sua cultura e costumes e tradições, buscando inserção na sociedade Argentina e lançando-se em atividades ligadas à construção civil e ao setor metalúrgico, setores com grande projeção econômica e requerente de mão-de-obra, naquela ocasião (NOVICK, 1992 p.88).

Caggiano (2005) assinala que os primeiros deslocamentos populacionais de bolivianos em direção a Buenos Aires são marcados por imigrantes que já residiam no país, mas que ainda estavam no interior ou em cidades afastadas da metrópole bonaerense. Juntamente com estes primeiros já residentes na

25 Merece destaque o fato desses primeiros imigrantes chegados à Argentina não terem se deslocado para Buenos Aires. O primeiro destino na Argentina foram as províncias de Salta e Jujuy, ao norte do Estado, para trabalharem, principalmente, na colheita das plantações daquela região, caracterizando um processo migratório internacional com característica, denominada por Grimson, de uma mobilidade tipo Rural-Rural. Ou seja, o imigrante boliviano sai de uma zona rural no seu país de origem para uma zona rural na Argentina, por exemplo (Grimson, 1999 p.38).

26 Também conhecida como Área Metropolitana de Buenos Aires – AMBA.

27 É nesse momento que surge uma modificação no processo migratório da Bolívia para Argentina, deixando de ser caracterizado como um processo Rural-Rural para um contexto Rural-Urbano.

Argentina, mas não na Capital, somam-se a eles as novas levas de imigrantes que se direcionavam da Bolívia diretamente para a capital Argentina, gerando uma maior visibilidade do grupo em questão frente à sociedade receptora e, por consequência, causando, entre outras coisas, atritos de diversas ordens envolvendo os “nativos” e os “estrangeiros”.28 Grimson (op. cit.) relata que as relações entre bolivianos e argentinos nas ruas da Grande Buenos Aires fazem parte da história da construção e crise de espaços públicos de negociação e conflito identitário, havendo uma nítida idéia de quem somos “nós” e de quem são “eles”. O autor complementa seu pensamento de forma a expor um tipo de interação simbólica e geradora de sentidos permeados de embates identitários que envolvem, antes de tudo, o que é “ser argentino” e o que é “ser boliviano” em uma Argentina que se vê como mais um “Estado Europeu”, situado ao sul do continente Americano. Tal perspectiva, complementa o autor (id. p.44), gera, em espaços públicos, embates simbólicos em torno de quem somos “nós” e de quem são “eles”, tornando o ambiente pluricultural, como o da capital em questão, em um “laboratório a céu aberto” para que se analise as relações simbólicas quotidianas entre bolivianos e argentinos.29

O modelo neoliberal adotado pela Argentina na segunda metade de 1980 deixou a economia do país exposta às forças externas do capital internacional, contando com empresas transnacionais participando nas decisões diretas das ações do governo e permitindo que estas indicassem caminhos que levavam às privatizações de empresas nacionais com base nas prescrições de organismos internacionais, como Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (BM) (PAZOS, 2007 p.103). Os impactos sociais dessas medidas ampliaram a

28 O autor não explica os motivos das palavras “Nativos” e “Estrangeiros” estarem entre aspas. Mas tanto na literaura acerca dos bolivianos na Argentina, quanto na percepção empírica nas ruas do país, é muito comum tais expressões indicarem uma perspectiva a partir de quem está falando e de quem se está falando. Tal questão é melhor ilustrada quando um argentino se refere ao boliviano como um estrangeiro, por entrar em “seu país” para , por exemplo, “roubar” o emprego dos argentinos e ampliar as desigualdades no país. Na perspectiva do boliviano, o estrangeiro naquelas terras é o argentino, pois os seus ancestrais (dos argentinos) chegaram àquela Terra bem depois que os ancestrais deles (dos bolivianos), indígenas, já alí se encontravam. Dessa forma, o “imigrante” passa a ser uma questão da maneira ou do prisma por onde se observa a situação. 29 Grimson relata e aprofunda essas relações quotidianas como sendo a interação em espaços de comum frequência, ou comum encontro, entre argentinos e bolivianos no dia a dia (transporte público, local de trabalho, delegacia de polícia, restaurantes, Bancos, etc.).

paupepização das populações de uma maneira geral, tornando os pobres ainda mais pobres, acentuando o emprego informal, a desaparição de direitos sociais elementares no campo civil, social e cultural, sem falar na ineficiência administrativa da máquina governamental e na corrupção endêmica (Id. p. 105).30 Um verdadeiro colapso abateu-se sobre a Argentina e os países da América Latina seguidores de tais medidas, dentre eles, merecedor de destaque, também, a Bolívia. Com o avançar dos anos e o aprofundamento das medidas econômicas sugeridas pelos órgãos supracitados, a vida para os argentinos ficava cada vez mais difícil. Os postos de trabalhos, formais ou informais, tornavam-se cada vez mais escassos e a população nativa disputava as vagas existentes no mercado de trabalho, até então, de pouco interesse e que eram deixadas para que fossem ocupados por imigrantes bolivianos ou paraguaios com baixa qualificação profissional e com pouca, ou nenhuma, experiência escolar (GRIMSON, 2006 p.72). Com as crescentes dificuldades econômicas enfrentadas pela Argentina e por outros países da região, no final da década de 1980 e início da década de 1990, muitos imigrantes decidiram buscar novas perspectivas em outro local que reunisse minimamente condições para continuar sua “caminhada” em direção a um lugar no qual o “pão” lhes fosse garantido. Nesse momento, o Brasil passava a ser uma possibilidade viável com a implementação do Plano Real, a proximidade geográfica com a terra natal, a semelhança linguística e, a reboque, o promissor mercado de confecção e costura de São Paulo. Esses fatores criavam condições adequadas para que bolivianos radicados na Argentina, e/ou ainda muito frequentemente em seus países de origem redirecionassem suas expectativas para mais uma etapa que, dessa vez, seria no Brasil (SILVA, 2005 p.15).

30 Tal modelo não foi somente seguido pela Argentina, mas o “pacote” de medidas denominado Consenso de Washington previa e indicava caminhos que todos os Estados da América do Sul deveriam seguir para retomar o rumo do seu crescimento.