É através do conceito de foco de apreciação que Davies faz convergir toda a averiguação inicial da sua teoria, que pode ser apresentada através da seguinte pergunta: "We need to ask what kind of properties of things are the focus of our appreciative attention to works, and - what may amount to the same question - what kind of properties of things enter into our assessments of artistic value (...) what is required (...) is a clearer conception of the structure of the focus of our appreciative attention to a work." (Davies, 2004: 22).
Depois da detalhada descrição de Blue Morph e de Nature? pode agora, apropriadamente, esclarecer-se em que consiste a estrutura deste foco de atenção apreciativa relativa a uma obra de arte. Recorde-se que o conhecimento da prática artística, do 'fazer' ('doing') do artista, inicia-se analisando o modo como aquele trabalha o meio veicular (que, repete-se, na ACI envolve não apenas a manipulação dos meios tecnológicos, mas também dos meios teóricos), através de um determinado meio artístico. O foco da consideração apreciativa de uma obra de arte consiste na análise cuidada da relação entre os três elementos da teoria de Davies já apresentados e amplamente exemplificados através da descrição das diversas OACI: o meio veicular, o meio artístico e a mensagem artística. É através da análise do modo como estes três diferentes elementos são trabalhados pelo artista, conferindo propriedades à entidade final resultante do processo criativo (HCPOA), que Davies designa por foco de apreciação, que se pode ter um conhecimento adequado de uma obra de arte. Repete-se a apresentação introdutória de foco de apreciação feita no capítulo 1:
96 Artworks (...) come into existence through the intentional manipulations of a vehicular medium. Through these manipulations, an artistic statement is articulated in virtue of shared understandings [entendimentos partilhados152] as to how those manipulations are to be characterized in the vocabulary [ou linguagem] of an artistic medium, and as to the import of particular manipulations so characterized. In our attempts to appreciate the artwork brought into existence through such activity, we are interested in the product of that activity in virtue of both the artistic statement articulated and the manner in which that statement has been articulated. Since the latter depends upon both the manipulations carried out in the vehicular medium and the shared understandings that the artist is able to utilize in performing those manipulations, our appreciative interest in the product of the artist's encompasses three interrelated elements: an articulated artistic statement, a vehicular medium, and an artistic medium. In brief, then, the focus of appreciation in our engagement with an artwork is an artistic statement as articulated
in an artistic medium realized in a vehicle. (Davies, 2004: 60).
Apresentando o modo como Davies pormenoriza a relação entre os três elementos do foco de apreciação, recoloca-se novamente o ênfase no trabalho do artista sobre o meio veicular, através de um meio artístico:
(...) the elements that enter into the focus of appreciation stand in very complex relationships to one another and to provenance, through the mediating role of the artistic medium whereby an artistic statement is articulated through the manipulation of a vehicular medium. If our attempts at appreciating a given work are to have a coherent focus, then it seems necessary that we tell a single story about the provenance of the different elements constitutive of that focus. We are unlikely to prosper in our critical and appreciative endeavors if we sunder our conception of how the vehicular medium was manipulated from our conception of the artistic medium operative in those manipulations, for example. But this again suggests that our critical and appreciative engagement with a structure as an artwork will be inextricably tied to our locating that structure in a particular art-historical context. (Davies, 2004: 75,76)
A cisão na consideração do meio artístico em separado do meio veicular ("We are unlikely to prosper in our critical and appreciative endeavors if we sunder our conception of how the vehicular medium was manipulated from our conception of the artistic medium operative in those manipulations (...)") tem sido, neste estudo que aqui se desenvolve, sistematicamente negada, e deve chamar-se novamente a atenção para a análise crítica que se fez em relação às histórias e teorias da arte da ACI, no final do capítulo 1, onde essa cisão é, muitas vezes, incorrectamente feita.
O 'contar de uma única história' ("If our attempts at appreciating a given work are to have a coherent focus, then it seems necessary that we tell a single story about the provenance of the different elements constitutive of that focus (...)"), e a localização da
152
Repete-se, será apenas no sub-capítulo 3.1 que se considerará este conceito de Davies, mas pede-se para que desde já se retenha o mesmo.
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estrutura (ou de uma qualquer entidade final resultante do trabalho do artista) num determinado contexto histórico-cultural remete para o conhecimento da HCPOA, da qual se começa a ter conhecimento a partir do modo como o artista trabalha um meio veicular através de um meio artístico. A HCPOA é conceptualizada por Davies através do conceito de performance generativa, sendo o seu conhecimento obtido através da análise do foco de apreciação:
In appreciating an artwork, we appreciate something that exists through a generative act on the part of one or more individuals (...) A central question in the epistemology of art is the relationship between the generative act that brings a work into existence and the receptive act that is a proper appreciation of that work. In what ways does the former act constrain the latter? More specifically, how should we construe the product of the generative act in so far as that product enters into the proper appreciation of the work? (...) the term "focus of appreciation" (...) denote[s] the product of the generative act so construed. The focus of appreciation, then, is that which, as the outcome or product of a generative performance on the part of one or more individuals, is relevant to the appreciation of the artwork brought into existence through that performance. (Davies, 2004: 26)153
Como se pode perceber, todas as obras descritas nos capítulos anteriores constituíram uma performance generativa por parte quer dos artistas, quer dos cientistas e engenheiros envolvidos, através das quais foi especificado um foco de apreciação. Note-se na citação anterior "(...) we appreciate something that exists through a generative act on the part of one or more individuals (...)", sendo que naqueles casos, como se viu, ocorreu a participação, para além dos artistas, de cientistas, engenheiros, e no caso de Blue Morph até de monges budistas, e de artistas não visuais, nomeadamente músicos.
A descrição das performances generativas de Blue Morph, e de Nature? (das quais resultaram duas entidades artísticas finais, nos dois casos duas instalações), do conjunto de obras seleccionadas, e tendo em conta a informação disponível acerca das mesmas, foram as performances generativas informativamente mais completas, através das quais os artistas especificaram dois focos de apreciação, nomeadamente as duas instalações.154 No entanto, deverá também considerar-se o conjunto de declarações
153
Pede-se também para que se retenha a focalização epistemológica aqui feita por Davies, uma vez mais também porque a mesma será considerada no sub-capítulo 3.1, e a partir da qual se apresentarão alguns elementos acerca da dimensão ontológica da sua teoria da arte.
154
Tal como tem sido feito neste estudo, Davies dialoga sobretudo com a arte da pintura, neste caso, para a introdução da noção de performance generativa, com uma pintura do já referido pintor holandês do século XVII Vermeer (recorde-se, na apresentação da obra de arte de software de 3D, A Leiteira, em 1.5).
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como também pertencentes ao foco de apreciação especificado pelo artista, como será demonstrado no capítulo 3. Assim, apreciar uma obra de arte consiste em apreciar um foco de apreciação:
(...) To appreciate a work is to appreciate a focus of appreciation (...) specified by the artist (...) We can only grasp such a focus if we refer the "manifest work"155 to the performance whereby a focus was specified via that manifest work. For, as has just been argued, many if not all of the properties of the focus that bear upon the appreciation of the work are properties of [a] (...) structure, or an object with a particular history of making, not properties of a structure or object per se. (Davies, 2004: 77-78).
Encerra-se assim a primeira parte deste estudo, onde se apresentou o quadro conceptual que permite concretizar o entendimento que aqui se tem defendido para a ACI. A análise crítica destes três últimos conceitos apresentados terá lugar durante a apresentação do problema da definição do conceito de arte, que por sua vez servirá como quadro introdutório para a apresentação da narrativa histórica, baseada na proposta do filósofo Noël Carroll.
Na pintura A Arte da Pintura, da autoria daquele pintor, encontra-se a representação pictórica de um pintor (o próprio Vermeer), num dos momentos de execução de uma pintura, a da personagem mitológica Clio, a musa da história. Davies faz a distinção entre todo o conjunto de actividades realizadas pelo artista, desde a ideia inicial, aos esboços, e outros estudos e actividades relevantes, e o resultado final desse processo, uma pintura terminada, neste caso, a própria A Arte da Pintura, do próprio Vermeer. (Davies, 2004: ix-x; ver img. 2.4). Assim, a representação pictórica presente em A Arte da Pintura representa uma performance generativa, que está a ser realizada por um artista, o próprio Vermeer, e que consiste no trabalho de execução de uma dada pintura, e a pintura que está a ser executada naquela representação pictórica é o resultado daquela performance generativa, é a entidade final, neste caso um objecto de madeira, no qual estão inscritos um conjunto de pigmentos formalmente organizados, isto é, uma estrutura de linhas, cores, volumes, etc., através dos quais é possível aquela representação.
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A entidade final resultante de toda a performance generativa, como as instalações Blue Morph e
99 Capítulo 3 - A construção de uma narrativa histórica para a arte biológica
3.1 Conclusão e concretização final do quadro teórico desenvolvido para a