Identificar as práticas curriculares inclusivas e os atores/autores dessas práticas nesse contexto exigiu um processo intenso de aproximação com professores, coordenadores, gestores e pais de alunos até se definir o sujeito de pesquisa, portanto, o sujeito reconhecido pela comunidade escolar como professor que tem desenvolvido práticas curriculares inclusivas.
Diante disso, fui construindo teias de comunicação, pois identificar a prática curricular inclusiva parecia naquele momento algo impossível.
As teias de comunicação se iniciaram a partir de dois pontos: 1) o relato de professores que trabalham em escolas públicas estaduais com os quais tenho uma aproximação pessoal; 2) os relatos de alguns professores de escolas públicas municipais do
município de Bragança durante as disciplinas de Estágio Supervisionado que ministrava como docente da UFPA.
Nesse percurso acabava sendo comum as pessoas afirmarem que algum professor havia desenvolvido um trabalhado diferente ou interessante diante do processo de inclusão.
Contudo, esses caminhos iniciais não podiam ser os definidores dos sujeitos de pesquisa porque eram impressões pessoais a partir da escuta desses relatos. Assim, para validar e justificar a escolha dos sujeitos parti para elementos “externos” a minha impressão. Busquei nas Coordenadorias de Educação Especial (COEES) tanto do Estado quanto dos municípios de Belém e Bragança indicação de professores que poderiam ser definidos como inclusivos. Em Bragança houve a indicação de uma escola. Na Rede Municipal de Belém, a despeito da dificuldade em definir quem seria essa docente, foi indicada uma professora que era considerada inclusiva pela COEES por frequentemente acompanhar a criança com laudo de deficiência às suas consultas médicas. Na Rede Estadual, foram indicadas as escolas localizadas em Belém que possuem o Atendimento Educacional Especializado e que, portanto, são denominadas de “escola referência”.
Tais informações me eram muito vagas. Assim, precisava delimitar um pouco mais as questões e a possível abrangência da pesquisa para que pudesse chegar a esses professores e suas práticas. Nesse sentido, optei por abrir mão da possibilidade de buscar essa prática em Bragança porque havia começado em 2009 o movimento mais intenso para a garantia da inclusão, inclusive com elaboração de políticas locais. Essa opção se justifica pela compreensão de que a construção de práticas curriculares (especialmente as inclusivas) é derivada de um conjunto de elementos que envolvem, entre outras coisas, a política, as produções intelectuais, os suportes infra estruturais necessários à garantia da inclusão com qualidade. Portanto, “são práticas nas quais convivem ações teóricas e práticas, refletidas e mecânicas, normativas, orientadoras, reguladoras, cotidianas. Desde a proposição de currículo pelos órgãos governamentais, à recontextualização feita desses discursos pela escola e pelos sujeitos [...].” (MENDES, 2008, p. 118). Aspecto ainda muito incipiente naquele município.
No que se refere à Rede Municipal de Educação de Belém considerei o argumento da Coordenadoria de Educação Especial (COEES) pouco consistente e muito distante da perspectiva e compreensão que tenho sobre o processo de inclusão. Vale ressaltar que naquele momento ainda estava muito engessada por uma forma padrão e normativa de se fazer inclusão na escola. Assim, também descartei a possibilidade de desenvolvimento de uma pesquisa com a professora indicada.
Busquei então nas escolas públicas estaduais localizadas em Belém esses sujeitos, inclusive porque o processo de implementação da inclusão é mais intenso e se iniciou em meados da década de 1990 (MESQUITA; PANTOJA, 2000).
Assim, novamente retornei aos professores com os quais possuía uma aproximação pessoal e que estavam trabalhando nas escolas públicas estaduais (inclusive no AEE). Esses me indicaram as escolas Estadual Pará e Estadual Belém16. Essas indicações vinham acompanhadas da justificativa de que nelas já se observavam trabalhados didático- pedagógicos em que as crianças em situação de deficiência apresentavam desempenho escolar satisfatório por participarem efetivamente das atividades curriculares. A Escola Estadual Belém vinha acompanhada de uma especificidade: era a escola que estava ganhando visibilidade social por meio da imprensa pelo seu trabalho com a inclusão. No entanto, meu objetivo não era pesquisar a escola, mas a prática de professores, assim, a escolha dos sujeitos não poderia ser aleatória, em função disso, o critério para a seleção do sujeito era o reconhecimento do trabalho desse professor pela comunidade escolar.
Portanto, em ambas iniciei o contato com a comunidade escolar. Foi na Escola Pará que consegui conversar com um maior número de sujeitos, sendo possível ter um representativo de coordenadores, técnicos e professores do AEE e pais de alunos em situação de deficiência.
Com esses sujeitos, ainda em pesquisa exploratória, procurei encontrar os professores por eles reconhecidos como aqueles que desenvolvem práticas curriculares inclusivas. Assim, para cada grupo de sujeitos foram apresentados tipos diferentes de questionamentos.
Aos técnicos e professores do AEE, assim como à coordenação pedagógica da escola houve as seguintes indagações17:
1- Como vem se desenvolvendo o processo de inclusão na escola? 2- O que as crianças têm aprendido?
3- Que professor mais tem avançado nesse trabalho? 4- O que ele tem feito?
Aos pais de alunos em situação de deficiência, numa roda de conversa na Escola Pará e de forma individualizada na Escola Belém, foram feitas as seguintes perguntas:
1- Que avanços seus filhos apresentaram desde que foram matriculados nessa escola? 2- O que os professores fizeram para eles conseguirem esses avanços?
16 Por questões éticas as escolas terão seus nomes resguardados e a elas serão atribuídos nomes fictícios 17 Na escola Belém conversei apenas com uma professora do AEE.
3- Qual professora você indica como aquela que mais contribuiu com a aprendizagem de seu filho? Por quê?
Foi na Escola Pará que encontrei os argumentos mais próximos da concepção de inclusão educacional que adoto para desenvolver esta pesquisa, assim como maior clareza dos dados, especialmente na fala dos pais. Além disso, foi nela que consegui cercar os diversos integrantes da comunidade escolar.
De acordo com a fala dos coordenadores, técnicos e professores do AEE e dos pais de alunos a Professora L, do 3º ano, é aquela que mais tem conseguido garantir o processo de inclusão por: 1) Desenvolver um trabalho pedagógico que envolve todas as crianças da turma; 2) desenvolver trabalhos individuais que atendem a necessidade de cada um; 3) desenvolver uma relação afetiva saudável com as crianças; 4) possibilitar a aproximação dos pais à escola. Diante disso, essa professora tornou-se um dos sujeitos desta pesquisa e seu trabalho foi acompanhado nos anos letivos de 2011 e 2012 em turmas do 3º ano do ensino fundamental18.
2.2 O CENÁRIO E OS PROTAGONISTAS: A ESCOLA, A PROFESSORA L E SEUS