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Mídia, parcialidade e coerência

[É muito comum ouvir dizer que o fato só existe quando se torna notícia na televisão. Pode ser uma visão determinista e radical da influência dos meios de comunicação na construção da realidade, mas de modo algum podemos subestimar a influência da mídia na leitura que fazemos dos acontecimentos.]

O editorial procura reforçar a idéia de que a im pren sa – com destaque para o veículo televisão – ten ta assum ir para si o papel de con struir a realidade: só é real aquilo que é divulgado n os m eios de com un icação, ou seja, se um protesto de um grupo n ão foi veiculado pela m ídia en tão ele n ão acon teceu “de fato”, n ão teve força, n ão foi n otícia.

Nessa perspectiva, a mídia tenta convencer as pessoas de que não é necessário que saiam de casa para se manterem conectadas aos acontecimentos mundiais, basta que estejam “ligadas” através dos veículos de comunicação.

Há uma relação dialógica desse trecho do editorial com a pesquisa de pós- graduação de Paolo Crepaz (2001), um dos colaboradores da edição italiana da revista. Em sua dissertação – apresentada na Itália, que teve como título “Il reportage

‘Intenzionale’” – Crepaz defende que a informação é estruturada pela mídia em forma

de ficção, elaborada muito mais com o objetivo de distrair o público do que informá-lo. O colaborador da edição italiana da revista afirma que a mídia, de um certo modo, cria nas pessoas a ilusão de que é possível informar-se sem esforço e isso significa que não é necessário ir em profundidade nos fatos e passar pelo exaustivo processo da análise crítica para manter-se informado.

Para Bakhtin os signos são relevantes na formação das ideologias que são as grandes formadoras do repertório de conhecimento e posicionamento dos indivíduos. O pensador russo destaca ainda que os signos apresentam especificidades que orientam e retratam a realidade à sua própria maneira: e isso significa que a consciência individual é um fator sócio-ideológico.

É nesse sentido que Cidade Nova, assim como Crepaz, defende que a imprensa tenta incutir, muitas vezes com grande êxito, aquilo que ela pretende apresentar com sendo o real.

[Como está o mundo? Em que direção a política e a economia nacionais estão se encaminhando? Em que pé está o conflito no Iraque? É inevitável que busquemos respostas para perguntas como estas nos jornais e na mídia em geral. E isso é muito positivo porque nos mantém antenados com o que acontece ao nosso redor a fim de nos mantermos solidários com toda a humanidade. Mas atenção: aquilo que a mídia nos apresenta como a verdade sobre os fatos é, em geral, apenas um “olhar” sob uma perspectiva muito particular e parcial: o “olhar” de um jornalista, de um editor ou de um grupo de pessoas. Mas não é, certamente, um “olhar” capaz de ver a realidade na sua totalidade.]

Nesse trecho, Cidade Nova inicia seu comentário enfatizando a importância da mídia para a informação das pessoas; concomitantemente, chama a atenção para alguns conceitos cristalizados pelos meios de comunicação e que, na verdade, vêm sendo continuamente desmistificados ou mesmo desmascarados, principalmente pelos estudos lingüísticos. São conceitos ligados à objetividade, imparcialidade e coerência.

Aqui, além de uma intertextualização com os conhecimentos lingüísticos, há novamente uma relação dialógica consonante com o texto de Crepaz que, em sua pesquisa, defende que o mundo da informação vive um período de crise e de transformação.

Segundo Crepaz, até mesmo conceitos antes pensados como imutáveis, como o conceito de verdade, vêm sofrendo modificações, principalmente após o surgimento da internet:

Hoje um fato é verdadeiro não porque obedece a critérios objetivos, rigorosos e confirmado por fonte, mas simplesmente porque outros meios repetem a mesma informação “confirmando- o”. A repetição, portanto, substitui a demonstração. (Crepaz, 2000- 2001, p. 2)

Por tudo isso, Crepaz afirma que está em crise sobretudo a idéia da informação:

Até pouco tempo, informar significava não somente dar uma descrição precisa e verificada de um fato, de um acontecimento, mas fornecer também um conjunto de parâmetros contextuais que permitiam aos leitores a compreensão de significados mais profundos sobre a temática abordada. (ibid, p. 1)

Essa postura crítica da revista com relação à mídia é muito freqüente: somente nos cinco editoriais do semestre, que foram analisados em nossa pesquisa, apenas o

primeiro não teceu alguma crítica aos meios de comunicação; os demais procuram reforçar a leitura parcial e limitada dos veículos de imprensa:

Isso, que nos parece uma grande conquista para o país, foi apresentado pela mídia, em geral, como uma decisão que bloqueia o caminho da ciência, e até irresponsável porque, em nome da defesa de um grupo de células, o embrião, prejudica muitas vidas atormentadas por doenças degenerativas que seriam beneficiadas pela clonagem, com a disponibilização de células- tronco (capazes de se transformar em qualquer tecido)”.

Mas de que vida estão falando a mídia e os cientistas?” (editorial nº 3, 2004).

Mas atenção! Esse é o cenário que podemos construir a partir da leitura da mídia, mas não é o único. (editorial nº 4, 2004).

A mídia com a sua velocidade na exposição dos acontecimentos poderia nos dar a impressão de que os fatos acontecem fora de nós. (editorial nº 5, 2004)

Nota-se, portanto, a preocupação de Cidade Nova em mostrar a seus leitores que é um grande equívoco absorver os fatos veiculados pelos meios de comunicação sem uma reflexão criteriosa. De uma certa forma, a revista evidencia que a capacidade da metacomunicação é condição indispensável para uma leitura eficaz das informações da mídia de um modo geral. Nessa postura subjaz a necessidade de confrontar as informações com outros textos, ou seja, não basta apenas consultar um veículo e um ponto de vista sobre as notícias.

Mas essa postura crítica no que diz respeito à mídia não é exclusiva de Cidade Nova. Atualmente diversos veículos de comunicação questionam algumas das posturas adotadas pela imprensa, como a excessiva invasão de privacidade das pessoas, a falta de critérios na apuração e análises tendenciosas das notícias.

O Manual de Redação da Folha de São Paulo (2001), por exemplo, afirma que, com a evolução do jornalismo brasileiro na década de 80, que culminou com o impeachment do então presidente da República, Fernando Collor de Mello, houve uma espécie de impulso de “um jornalismo baseado na investigação nem sempre

conscienciosa, de irregularidades na administração pública, divulgadas de forma categórica, às vezes bombástica” (p. 13).

Segundo a Folha, da mesma forma que cresceu a percepção crítica da imprensa com relação aos poderes instituídos, concomintantemente aumentaram também as críticas feitas aos meios de comunicação. “O mal-estar que cerca a imprensa passou a se traduzir em três acusações predominantes: ela seria superficial, invasiva e pessimista (p. 13).

A Folha afirma que a imprensa, ao invés de se voltar para o esclarecimento de processos complexos e contraditórios, opta “por pinçar seus fragmentos mais estridentes, praticando simplificações que só aparentemente refletem uma disposição crítica, na verdade coniventes com as estruturas que finge ignorar” (p. 13 e 14).

Denuncia também o atropelamento da mídia a quaisquer limites, como os direitos individuais, de privacidade e o direito a reputação das pessoas, sobrepondo-se até mesmo ao interesse público para conseguir revelações. “Tangida pela competição do ‘furo pelo furo’, permeada por uma atmosfera de descrença reinante nas Redações, a imprensa adota uma linha destrutiva – daí o seu alegado pessimismo” (p.14).

Para o pesquisador italiano e para Cidade Nova, a mídia, de um modo geral, vende a idéia de que ver significa entender. Cria-se, dessa forma, uma noção distorcida sobre a objetividade e a imparcialidade, declarando que as informações veiculadas são objetivas e imparciais.

Para Crepaz é um equívoco se pensar numa interpretação linear e unidirecional das notícias, pois a informação produz efeitos circulares – e não-tão somente de causa e efeito. Isso porque com a comunicação as pessoas influenciam e são influenciadas umas pelas outras, portanto, informar é muito mais do que transmitir e apresentar, porque cria e molda comportamentos.

Há ainda uma intertextualização dessa postura, apresentada pela revista, com o pensamento de Watzlawick (1971), segundo o qual comunicar não significa apenas transmitir uma informação, mas representa sobretudo a imposição de um comportamento.

Dentro de uma perspectiva dialógica esses conceitos também encontram eco nos estudos bakhtinianos, que destacam o caráter interativo e dinâmico da linguagem,

declarando que a comunicação é altamente relevante para as mudanças sociais e para mudanças comportamentais da sociedade.

[Não é difícil então entender que, por trás de cada artigo, de cada notícia, há sempre uma ideologia, um condicionamento cultural. E mais ainda: basta estarmos um pouco atentos nas manchetes de primeira página dos jornais ou nas chamadas de telejornais para percebermos que os noticiários têm se alimentado diariamente das contradições que eles mesmos suscitam com base no confronto.]

Para o editorial, a mídia condiciona as pessoas a uma visão parcial da sociedade. Uma das marcas desse condicionamento pode ser observado na forma com que os meios de comunicação abordam certos assuntos, enfatizando uma postura de confronto: na política, esquerda x direita, oposição x governo, PSDB x PT, ruralista x sem-terra; assuntos internacionais, palestinos x israelesens, americanos x árabes, Xaron x Arafat, Bush e Blair x Chirac e Schroeder.

O editorial não nega a existência desses confrontos, mas, de forma subjacente, afirma que a mídia faz deles palco para uma postura que alimenta e até mesmo “suscita” o conflito. Como analisamos no editorial “Tomada de posição (CN nº 5, 2004, p. 3), essa é uma visão parcial e limitada que instiga atitudes negativas da comunidade internacional. Isso significa que com esse tipo de cobertura as pessoas não têm instrumentos para uma análise mais aprofundada sobre essas questões, algumas vezes altamente complexas, como no caso da Palestina.

[E isso é um grande paradoxo porque os meios de comunicação têm uma clara vocação de criar pontes de fraternidade; de ajudar todos a se sentirem parte da humanidade; de fomentar o protagonismo solidário de todos na construção da história.]

Aqui o editorial dá uma definição clara sobre a função dos meios de comunicação: “criar pontes de fraternidade”, “ajudar todos a se sentirem parte da

humanidade”, “fomentar o protagonismo solidário de todos na construção da história”.

particularidades que, ao invés de aproximar, distanciam, está em contradição com a sua própria identidade.

Certamente essa definição do papel da mídia não pode ser considerada senso comum e isso ocorre não porque as pessoas discordam desse tipo de atribuição aos meios de comunicação, mas porque sempre que se apresenta que o papel da imprensa é informar, ou, quando muito, se diz que a mídia interliga todos os habitantes da terra. Mas essa noção de interligar está mais para o sentido de conhecer a situação do outro, ou seja, saber o que está acontecendo no Afeganistão ou no Haiti, conhecer a previsão para a economia da Ásia.

Mas criar “pontes de fraternidade” e “fomentar o protagonismo solidário de todos

na construção da história” vai muito além do simples fato de saber quantas pessoas

foram vitimadas no conflito da Indonésia ou do Iraque, exige participação ativa e concreta. A revista parte do conceito de que a informação não deve ser apenas absorvida, mas participada e compartilhada.

Portanto, nota-se que essa definição sobre a função dos meios de comunicação não nasce de um conceito estritamente jornalístico. Os textos que tratam da atividade jornalística, normalmente, trazem outras definições sobre o jornalismo.

O Manual de Redação da Folha, por exemplo, diz o seguinte: “O jornal não existe para adoçar a realidade, mas para mostrá-la de um ponto de vista crítico. Mesmo sem opinar é possível notificar de forma crítica” (2001, p. 44,).

O Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de São Paulo (1997) apesar de se concentrar no trabalho de edição de texto de um veículo de comunicação, aponta algumas indicações sobre a função do jornalismo: “Nunca se esqueça de que o jornalista funciona como intermediário entre o fato ou fonte de informação e o leitor” (p. 16).

Luiz Beltrão (1976, p. 11) declara que “a essência do jornalismo é a informação da atualidade, ou seja, de fatos, situações e idéias que estão correndo, desenrolando-se ou atuando em e sobre determinada comunidade no momento preciso de sua manifestação”.

Para Alceu Amoroso Lima (1960, p. 52) a marca do jornalismo é a objetividade e a ligação com os acontecimentos. “O importante é manter o contato com o fato. Tudo

mais deriva daí: a informação do fato; a formação pelo fato; a atualidade do fato; o estilo determinado pelo fato”.

Na visão de Luiz Amaral (1969, p. 16) o jornalismo é uma das ciências da informação coletiva ou da comunicação coletiva e “pode ser definido como o estudo do processo e transmissão de informação, através de veículo de difusão coletiva, com características específicas de atualidade, periodicidade e recepção coletiva”.

Observando todos esses conceitos sobre o jornalismo, percebe-se que há uma particularidade no conceito apresentado por Cidade Nova que nasce da idéia de que os meios de comunicação devem, sobretudo, evidenciar o positivo, “criar pontes de

fraternidade”, “fomentar o protagonismo solidário”. Tudo isso para que todos se sintam

“parte da humanidade”.

Portanto, esse conceito que Cidade Nova tem sobre a função dos meios de comunicação não nasce do mundo jornalístico, mas, assim como outros aspectos que marcam o estilo da revista, encontra suas raízes na relação dialógica com o Movimento dos Focolares.

Por exemplo, Lubich – no Seminário Internacional sobre a Comunicação de 2003, promovido pela NetOne, uma entidade ligada ao Movimento – enfatizou a necessidade de uma comunicação que gere acolhida e não hostilidade, incompreensão, dúvidas, medo e confronto. Para ela, deve-se evidenciar muito mais aquilo que na sociedade constrói pontes, diálogos entre as pessoas e não aquilo que as separa:

Sempre foi do nosso estilo (do Movimento dos Focolares) ressaltar aquilo que é bom, pois estamos convencidos de que é infinitamente mais construtivo evidenciar o bem, insistir sobre as coisas boas e sobre as perspectivas positivas, do que ficar no aspecto negativo, ainda que a denúncia oportuna de erros, limites e culpa seja imperiosa para quem tem essa responsabilidade (…). O importante, porém, é que todos juntos possamos imbuir-nos da comum determinação de usar os meios de comunicação social para aquilo que eles devem ser: instrumento para realizar um mundo mais unido. (Venderleene, 2003, p. 368 e 369)

Na visão de Lubich, essa postura redimensiona o conceito que se tem da mídia atualmente:

- veremos os meios de comunicação social não como invasores, mas como instrumentos aptos para aumentar a socialização do homem;

- teremos estruturas produtivas não dilaceradas pela competitividade, mas guiadas pelas busca de uma relação autêntica com o público. (idem, p. 369)

Para reforçar a idéía de evidenciar o positivo, Lubich utiliza a metáfora da “pupila” dos olhos de Deus: não obstante as mazelas humanas, Deus – assim como a pupila humana que tem a capacidade para fazer a inversão da imagens – inverte a forma de enxergar o homem, ou seja, “nós entramos em Cristo pecadores e saímos remidos” (idem, p. 369).

Portanto, a proposta de Lubich com relação à comunicação consiste justamente na idéia de agir como a pupila e inverter essa idéia negativa dos fatos e colher o positivo que está presente nos acontecimentos.

Esses textos de Lubich mostram que, de fato, a matriz dos conceitos apresentados por Cidade Nova nasce do diálogo intertextual que a revista mantém com o Movimento.

Essa postura da revista, que nasce dessa relação dialógica com os Focolares, pode ser observada com muita clareza nas matérias que dizem respeito ao Oriente Médio: enquanto a maioria dos veículos de comunicação apresentam continuamente notícias de ataques militares, atentados terroristas, confrontos armados entre israelenses e palestinos, os artigos de Cidade Nova procuram mostram também um outro aspecto da região, como as iniciativas de paz que às vezes não conseguem espaço entre os noticiários.

[Então, o que fazer? Primeiramente é necessário desenvolvermos em nós a consciência de que qualquer pessoa – em qualquer situação em que estiver – é nossa irmã, nosso irmão, é parte de nós, portanto deve ser tratada com respeito e dignidade incondicionais.

Só isso já seria uma grande ajuda para discernir se a informação veiculada respeita ou não a verdade das coisas. Mesmo a denúncia deve preservar a dignidade de cada pessoa.]

Nos dois trechos grifados, esta inserido um dos fundamentos defendidos pela linha editorial da revista: o suposto respeito pela integridade das pessoas. Cidade Nova defende que, ainda que se faça uma reportagem sobre qualquer tipo de denúncia – deve-se sempre evitar o direcionamento dos ataques aos indivíduos, mantendo o foco das denúncias nas ações ilegais praticadas, ainda que os envolvidos sejas políticos acusados de desvio de verbas, juizes que vendem sentenças ou ditadorores. Isso significa, concretamente, que, mesmo nas matérias de denúncia, deve-se evitar informações que possam atinger diretamente a moral de alguém. Essa postura está intertextualizada com a idéia de condenar o pecado e não o pecador, de João XXIII.

Esse conceito é altamente complexo devido seu elevado grau de subjetividade, uma vez que as fronteiras entre as ações e aqueles que as praticam são de difícil demarcação. Alguém sempre poderia sentir-se ofendido e atingido moralmente diante de acusações contra suas atitudes ou posicionamentos. Como também pode ocorrer que um veículo de comunicação seja tachado de conivente ou complacente com o ilícito, caso não estenda o rigor de suas críticas diretamente ao indivíduo em questão. De fato, essa é uma tendência no mundo midiático.

Por exemplo, no caso do impeachment do ex-presidente Fernando Collor, as críticas veiculadas pela mídia não se restringiram aos seus atos de corrupção como chefe do Estado brasileiro. Houve uma verdadeira devassa em sua vida privada, sendo levadas a público situaçõe de cunho moral – como a possível infidelidade de sua esposa – que não estavam necessariamente ligados aos atos ilegais cometidos por ele como presidente do Brasil.

Por tudo isso se pode afirmar que essa atitude proposta no editorial com relação ao outro também é uma das especificidades de Cidade Nova.

[Além disso, para sermos coerentes com a nossa fé de que o projeto de Deus para a humanidade é que ela seja uma grande família, não podemos compartilhar o conceito de que o mundo é uma arena de luta livre, nem tampouco aceitar a idéia de que são os contrastes e os conflitos que provocam as mudanças. Acreditamos na força da unidade e do diálogo e sabemos, por experiência, que é na dinâmica da unidade que a verdade pode emergir mais plenamente.]

Aqui a revista explicita o paradigma que ela defende como metodologia para os meios de comunicação: a unidade (na concepção de Lubich desse termo). Para comunicar é necessário estar projetado no outro, escutá-lo profundamente; nesse sentido, a mídia deveria interessar-se pelos anseios e necessidades de seu público e criar com ele uma reciprocidade. “Desse modo a mensagem não é só recebida intelectualmente, mas também participada e compartilhada” (Vanderleene, 2003, p. 368).

Sobre isso, Bakhtin afirmou que no contexto da pragmática da comunicação o relacionamento entre os interlocutores – no caso, mídia e público – é essencial para o sucesso comunicativo. Portanto, na visão bakhtiniana, é através da palavra que alguém se define com relação ao outro e, nesse sentido, “a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra se apóia sobre meu interlocutor” (Bakhtin, 2004, p. 113).

Bakhtin defende ainda que se deve identificar com o outro e com seu mundo por meio de seu sistema de valores e de sua concepção. “Devo colocar-me em seu lugar, e depois, voltar ao meu lugar que ocupo, fora dele; devo emoldurá-lo, criar-lhe um ambiente que o cabe, mediante o excedente de minha visão, de meu saber, de meu desejo e de meu sentimento” (Bakhtin, 1988, p. 45).

Portanto, as idéias de Bakhtin também são alicerçadas no protagonismo dos participantes do processo comunicativo. O sujeito bakhtiniano nasce da enunciação e é fruto de um processo de interação entre indivíduos socialmente organizados, ainda que não haja um interlocutor real: entre mídia e público nem sempre é possível uma interação presencial em tempo real.

Tudo isso mostra que a intertextualidade e o dialogismo são essenciais no processo de significação dos textos. Evidencia ainda que a relação de interdependente entre os discursos atua diretamente sobre o processo cultural e ideológico do homem, evidenciando, dessa forma,