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juni Nr. 1064 2013

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Tussebuveien, Nes kommune, Akershus

25. juni Nr. 1064 2013

Aquilo que mais claramente caracteriza uma sociedade que exclui é a sua constante fuga da assimilação, em todo o caso inevitável – às escalas pessoal e colectiva – de realidades híbridas e não estritamente binárias. Por oposição a este cenário, a imagem de uma sociedade verdadeiramente inclusiva e progressiva caracterizar-se-ia pelo desenvolvimento e formalização de uma ideia mais maleável e contextual do que significa ser-se humano; uma ideia que inclua e seja múltipla.

Nos campos do design e da arquitetura, tal como em quase todos os outros, a história da exclusão é sistematicamente delegada para um plano invisível por não se lhe fazer face de uma forma radical. Tal indolência é evidente sempre que as decisões projetuais refletem a ignorância do projetista face a realidades diferentes da sua, reproduzindo por isso o estado de segregação sociopolítica em que ele vive e cuja disseminação é análoga à sociedade pela qual é condicionado. Uma forma radical de enfrentar estas circunstâncias é aquela sugerida por bell hooks (1990) no seu ensaio sobre a marginalidade, no qual a define como o “ventre da resistência” e lhe confere um espaço físico:

“Era esta marginalidade que eu nomeava como localização central para a produção de um discurso contra hegemónico que não existe apenas em palavras mas em hábitos de ser e no modo como uma pessoa vive.”315

Retomando a anteriormente mencionada noção de cyborg – e recorrendo à metáfora de Donna Haraway316 (1991) para a clarificação das noções de “co-

dependência” e “fluidez” presentes no discurso proposto pelo campo da tecnologia assistida –, deve-se considerar que, face à sua definição, a realidade física de todos os seres humanos é, já, híbrida – assumindo que a fronteira entre aquilo que é natural e aquilo que é artificial, em termos de função, física e mental, se encontra incrivelmente esbatida.

315 Tradução livre. Citação original: “It was this marginality that I was naming as central location for the production of a counter hegemonic discourse that is not just found in words but in habits of being and the way one lives.” hooks, b., Marginality as a site of resistence, p.341.

316 Haraway, D., A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late

O que diferencia cada indivíduo na sua relação com o meio é o grau de dependência – e de organicidade da relação – entre (e com) o meio, ou a tecnologia, e o seu corpo e a sua mente.317 Neste sentido, a tecnologia (ou o desenho do espaço) tenderá a focar-se apenas nas relações que, mediante a sua presença, deve facilitar. À luz destas observações torna-se evidente o quão insustentável e excludente é o design que se centra apenas no utilizador absolutamente apto (able-bodied): todos os indivíduos têm diferentes capacidades, níveis de aptidão, objetivos, contextos e circunstâncias; e todos, sem exceção, oscilam e mudam durante os seus períodos de vida.318

Neste sentido, seria interessante – como também bastante mais inclusivo – aliar o pensamento criativo à análise de relações que se podem estabelecer entre a deficiência e outros estados temporários de limitação da ação. Pelas suas semelhanças, uma disfunção cognitiva, estados de cansaço ou velhice exigem que a utilização de um produto ou espaço se concretize sob níveis idênticos de atenção ou concentração por parte do utilizador.

Tais considerações não devem no entanto ser confundidas com uma romantização dos estados de incapacitação, limitação ou fragilidade dos corpos e mentes. Propõe-se que, ao invés, em tais situações, se vislumbre o potencial para a criação de soluções colectivas onde a autonomia dos indivíduos seja garantida por uma rede sustentável de relações de reciprocidade e de cooperação, tendo especialmente em mente um crescente número de população envelhecida. Ao envelhecimento generalizado reúnem-se ainda as mais diversas condições e conjunturas: limitações motoras, situações temporárias de deficiência, preensão comprometida, surdez, cegueira e outras variantes de patologia ocular, dificuldades de aprendizagem – cognitivas ou culturais –, diversos distúrbios neurológicos como por exemplo o autismo, contingências fisiológicas impostas pelas diferenciações na escala da introversão-extroversão, género,319 convivência de contextos culturais e socioeconómicos díspares e crenças religiosas distintas. Com o objetivo de encontrar soluções mais aptas e inclusivas para todos – em que a facilidade e intuição de uso resultem em maior “eficiência, dando mais

317Hendren, S., op. cit., p.57. 318 Clarkson, J. et al., op. cit., p.563.

319Fator particularmente relevante no que respeita a manipulação da temperatura de espaços, uma vez

rendimento com menos contribuição”320 – Hendren (2017) propõe que tanto as

tecnologias – no caso do design de produto – como as soluções de desenho – no caso da arquitetura – devem ser compreendidas num mesmo continuum, querendo isto dizer que o aperfeiçoamento de qualquer sistema, estrutura, tecnologia ou espaço deve atuar assente na crença de que a solução está aberta a uma contínua reformulação a convite de uma amostra vasta de utilizadores e de tipos de utilização e não de um só utilizador-tipo e das suas eventuais necessidade. A contabilização de aptidões e tipologias de interação com o espaço arquitectónico não deve ser portanto feita na ordem da subtração – quantidade de tarefas ou ações que um indivíduo não consegue desempenhar, dentro das configurações e estruturas institucionalizadas, e cuja ausência é considerada como perda e nunca como ganho ou alternativa – mas na perspectiva da re-invenção.

Apenas desta forma se poderá compreender como é que os corpos que já se encontram, de algum modo, aliados ou integrados com outras tecnologias ou padrões de uso menos comuns têm o poder de educar sobre os pressupostos acerca do corpo,321 sobre carências invisíveis, dependências, degeneração e possibilidades futuras do corpo em ambientes hostis e não normativos.

Segundo Lambert (2014), a persistente e colectiva prática de redução dos corpos humanos a binários (fora/dentro, sul/norte, normais/anormais) não é mais do que uma socialização desenvolvida com base em “fantasias ideológicas e mistificações retóricas”. Nesse sentido, a única forma de recriar este tipo de discursos e de lhes devolver a sua complexidade é através do imaginário.322 Alcançar uma realidade de adaptabilidade mútua entre o corpo e o ambiente construído, distinta daquela que existe e que consideramos nociva para certos tipos de corpos, consiste, neste caso, no ato de recomeçar.

Hendren expressa igualmente a importância de recomeçar quando refere a necessidade de encontrar ferramentas e designs que abordem a “deficiência” e a “normalidade” como uma interdependência complexa. Um modelo de normalidade

320 Tradução livre. Citação original: “[i]ncreased effciency, yielding more output with less input.”

Mollerup P., Man-made answers to man-felt needs, p.37.

321 Hendren, S., op. cit., p.59.

322 Lambert, L.,The Mediterranean Abyss: South Wall of Fortress Europe and Cemetery of the Poors,

tende a encolher face à “anormalidade”: quanto mais definido, mais limitado, mais redutor e menos inclusivo.

Em contrapartida, um modelo de “anormalidade” conjuga uma multitude de tipos de corpos e de idiossincrasias através das quais será possível re-inventar a noção de “utilizador-tipo” ou de “normalidade”. Ao proceder à consciencialização da natureza monótona e monolítica de uma perspectiva singular sobre a psicologia, as aptidões, os desejos, as necessidades e as formas dos seus utilizadores, a prática arquitectónica tornar-se-á finalmente apta a permear as possibilidades radicais, criativas e humanizantes que a pluralidade oferece.

Por último, o exercício de resistência à segregação – entre o corpo e o espaço – imposta pelas barreiras arquitectónicas retém o verdadeiro poder da transição. Urbano reitera, imbuído pelas ideias de Benjamin – as quais são paralelas à ideia de bell hooks sobre a “marginalidade como um lugar de resistência” –, a necessidade de uma arquitetura que se desvia de “procedimentos técnicos instituídos ou banalizados” para que, dessa forma, a obra arquitectónica, ao refletir-se nos seus aspectos formais, “constitua, por si mesma, uma chave de leitura crítica da realidade.”323 Assim sendo, não é unicamente o suporte físico e

técnico a dever ser repensado nem tão somente o suporte económico a ser reconfigurado: falta sim “desenhar (sem o prefixo “re”) o suporte moral”324 de uma Arquitetura que acolhe sem ressalvas.

323Urbano, L., op. cit., p.16.

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