O grupo da linha do comboio é constituído por um escritor, Granger, três professores universitários e um padre. “My name's Granger” (Bradbury 154): mais uma vez é usado o artifício, através do qual o nome de uma personagem revela as características da sua personalidade. A palavra "grange" significa “country house with farm buildings attached” (Oxford Advanced Learner’s Dictionary of Current English 376)e é uma metáfora do papel de Granger que é o membro principal ou o edifício principal (até à chegada de Montag) à volta do qual todos os outros se congregam. Por outro lado, é um substantivo cujo significado está fortemente ligado à Natureza, que em Fahrenheit 451 simboliza o bom caminho da verdade, a cura física e espiritual e o encontro do ser humano consigo próprio. É Faber quem revela a Montag para onde se deve dirigir e quem deve procurar:
I’ve heard there are still hobo camps all across the country, here and there; walking camps they call them [ . . . ] they say there’s lots of old Harvard degrees on the tracks between here and Los Angeles. Most of them are wanted and hunted in the cities. They survive, I guess. There aren’t many of them, and I guess the Government’s never considered them a great enough danger to go in and track them down. (Bradbury 140)
O momento de encontro com do grupo de foragidos assemelha-se a um segundo nascimento: a primeira impressão que Montag tem é visual, pois detecta a fogueira à volta da qual se reúnem os homens. O modo como o fogo é descrito apresenta semelhanças com a descrição da luz emitida pela casa de Clarisse. Seguidamente é o sentido do olfato que desperta, depois a audição e por fim o tacto e o paladar. O grupo de resistentes é descrito como “five old men sitting there dressed in dark blue denim pants and jackets and dark blue suits.” (Bradbury 154) A descrição física do grupo de guardadores de livros assemelha-se aos patriarcas bíblicos e aos Pilgrim Fathers: “The faces around him were bearded, but the beards were clean, neat, and their hands were clean.” (Bradbury 154)
Granger representa o oposto do Capitão Beatty e também está associado ao acto de queimar. Mas enquanto o fogo protagonizado por Granger é benéfico, aquecendo e dando luz, o de Beatty é pleno de destruição e maldade: “We’re book-burners, too. We read the books and burnt them, afraid they’d be found.” (Bradbury 159) Granger é o autor de um livro intitulado The Fingers in the Glove: The Proper Relationship between
the Individual and Society, que poderia facilmente servir de subtítulo a Fahrenheit 451. É Granger que auxilia Montag no processo final de metamorfose ao acolhê-lo com palavras reconfortantes e repletas de pragmatismo na segurança da floresta. É simultaneamente através de Granger que Montag (e o leitor) toma conhecimento da acção que continua a desenrolar-se na cidade e que esses factos são interpretados.
Granger representa o equilíbrio que reapareceu no mundo e que irá aliviar a “Dark Age” (Bradbury 161) que agora finda com a centelha do brilho intelectual. O facto de as profissões escolhidas terem como objecto de estudo a literatura, a filosofia, a religião e a sociologia demonstram que na sociedade do futuro é apenas o conhecimento tecnológico que é valorizado, sem haver ligação alguma com o estudo das humanidades. Granger refere que Cambridge foi transformada numa “Atomic Engineering School” (Bradbury 157), deixando perceber que o conhecimento de cariz tecnológico ganhou bastante terreno face ao estudo das humanidades. A desvalorização do saber humanista teve em Fahrenheit 451 um efeito desatroso, pois deixou de se questionar a finalidade das coisas:
Through the humanities we reflect on the fundamental question: what does it mean to be human? The humanities offer clues but never a complete answer. They reveal how people have tried to make moral, spiritual, and intellectual sense of a world in which irrationality, despair, loneliness, and death are as conspicuous as birth, friendship, hope, and reason. We learn how individuals or societies define the moral life and try to attain it, attempt to reconcile freedom and the responsibilities of citizenship, and express themselves artistically. (Commission on the Humanities 1-2)
A reflexão sobre o porquê das coisas é desvalorizada porque põe em causa factos fundamentais que impediriam o Governo, o status quo ou os powers that be, como lhes quisermos chamar (porque em Fahrenheit 451 nunca é claramente referido quem lucra com este estado de coisas), de agir a seu bel-prazer.
Em contraste com Beatty e o Mechanical Hound, Granger utiliza a tecnologia com um bom propósito. Apesar de viverem em comunhão com a Natureza, Granger e o seu grupo não rejeitam os benefícios da tecnologia, pois dão a beber a Montag um líquido capaz de alterar o composto químico da transpiração para despistar o Mechanical Hound. O grupo também possui um pequeno aparelho de televisão que lhes permite
saber o que se passa nas cidades e seguir a perseguição de Montag. O recurso a operações plásticas para modificar a aparência e as impressões digitais, de modo a despistar os perseguidores também é frequente.
O grupo de guardadores de livros é descrito como sendo constituído por pessoas cuja aparência nada tem de perigoso ou repelente. As ideias que estes poderiam veicular é que constituem uma ameaça. Quando Montag refere que não pertence a este grupo, eles respondem-lhe “We all made the right kind of mistakes, or we wouldn’t be here.” (Bradbury 157) Os membros do grupo apresentam-se pelo nome dos livros que memorizaram, o que acaba por ser irónico, pois este conjunto de pessoas não é mais do que uma biblioteca: “We’re nothing more than dust-jackets for books, of no significance otherwise.” (Bradbury 160) Numa sociedade que se critica pela falta de inventividade e originalidade, a alternativa dos guardadores de livros também não é muito diferente nesse aspecto, no sentido em que também aqui não há lugar para a criação, só para a mimésis ou reprodução de um certo número de obras, que foi definido como cânone literário.
Granger explica a Montag que deve manter-se saudável, porque ele é necessário como guardião do livro de Eclesiastes, não porque é um ser humano merecedor: “Walk carefully. Guard your health. If anything should happen to Harris, you are the Book of Ecclesiastes. See how important you’ve become in the last minute! (Bradbury 160)
Na adaptação de Fahrenheit 451 ao cinema por François Truffaud, a cena final do filme, na qual centenas de pessoas/livros caminham para trás e para a frente, sem comunicarem umas com as outras, recitando os livros que memorizaram, é passível de chocar o espectador também pela falta de liberdade de acção e pela pouca interacção entre os indivíduos. Para Jack Zipes o verdadeiro herói não é Montag, mas a literatura e por isso aquele protesta contra a desumanização das personagens de Fahrenheit 451, cuja principal função é serem parcelas numa fórmula criada pelo autor, de maneira a provar a sua teoria:
There is a notion here which borders on selective breeding through the cultivation of brains. Moreover, it appears that the real possibility for future development is not in human potential but in the potential of books. That is, the real hero of Fahrenheit 451 is not Montag but literature. (Rabkin 193)
Explicando a Montag como funciona a sua organização e o registo do conhecimento, Granger faz tal como o fizeram todos os povos que estiveram sob ocupação de forças invasoras: memorizaram e conservaram a sua cultura e tradição, à espera do dia em que pudessem expressá-la livremente:
All we want to do is keep the knowledge we think we will need intact and safe. We’re not out to incite or anger anyone yet. For if we are destroyed, the knowledge is dead, perhaps for good. (Bradbury 159)
Para esta “odd minority” (Bradbury 160) esse dia só surgirá quando a guerra acabar, destruindo os grupos de poder estabelecidos e abrindo espaço para que novo mundo renasça das cinzas. Granger acalenta a esperança de que quando a guerra acabar, ele e os seus seguidores possam ser úteis na reconstrução, evitando através dos seus conhecimentos entretanto transmitidos os erros do passado. A lista de escritores, estudiosos, cientistas e filósofos internacionais mencionados, não só no discurso de Granger mas também os referidos por Beatty, demonstram a importância do papel que os livros têm na educação e no conhecimento: “We’re remembering.” (Bradbury 171)
Montag pergunta a Granger “Do you really think they’ll listen then?” (Bradbury 160) e este reponde, afirmando a sua crença no espírito humano: “If not, we’ll just have to wait. [ . . . ] But you can’t make people listen. They have to come round in their time, wondering what happened and why the world blew up under them.” (Bradbury 160) Tal como Montag aprendeu quando tentou fazer Millie ver o engano e a falsidade da vida que levavam, não se pode forçar ninguém a ver a realidade dos factos. Isso exige preparação prévia e o desejo de o fazer deve partir do indivíduo interessado, não podendo ser-lhe forçado, sob pena de se tornar contraproducente.
Na verdade, Montag reflecte enquanto caminha com os guardadores de livros, não existe nenhuma garantia de que o conhecimento dos livros venha a ser utilizado para criar um mundo melhor, mas restou a esperança, e é precisamente esta que anima estes homens para prosseguir com o seu esforço. Haverá decerto, como já aconteceu no passado, quem utilize o conhecimento para favorecer e melhorar as condições de vida do Homem, tal como haverá aqueles que deliberadamente o utilizam como força destrutiva da integridade, felicidade e liberdade.
They weren’t at all certain that the things they carried in their heads might make every future dawn glow with a purer light, they were sure of nothing save that the books were on file behind their quiet eyes, the books were waiting, with their pages uncut, for the customers who might come by in later years, some with clean fingers and some with dirty fingers. (Bradbury 162)
Em última instância depende de cada indivíduo decidir que uso dará ao conhecimento e à tecnologia que tem ao seu dispor. Granger dá como exemplo o caso do seu avô, um escultor a quem ele reverencia pela centelha de humanismo que deixou como marca da sua passagem pelo mundo. Pela capacidade de partilhar experiências e de modificação do mundo ao ser redor, o avô de Granger deixou um legado, uma chama impossível de apagar, pois esta reside agora no neto, que por sua vez a passa a quem com ele se relaciona.
He was individual. He was an important man. [ . . . ] He shaped the world. He did things to the world. ‘Everyone must leave something behind when he dies, my grandfather said. [ . . . ] It doesn’t matter what you do, he said, so long as you change something from the way it was before you touched it into something that’s like you after you take your hands away. (Bradbury 164)
Estas acções a que o avô de Granger se referia, enfatizando a importância das mãos, são acções conscientes, ao contrário daquelas praticadas por Montag e que reflectiam apenas os desejos recalcados do seu inconsciente. Millie e a grande maioria das pessoas existiam sem sequer saber que tinham essa individualidade e capacidade de transformação dentro de si. Granger faz, através das palavras do avô, a apologia da Natureza e da vivência do momento presente como se fosse o último.
E a Guerra começou neste preciso momento lembrando as palavras do Salmo 90.4: “For a thousand years in thy sight are but as yesterday when it is past”. Num instante tudo desapareceu e se transformou em pó devido ao poder destruidor da tecnologia: “And the war began and ended in that instant. [ . . . ] The bombardment was to all intents and purposes finished, [ . . . ] as quick as the whisper of a scythe the war was finished.” (Bradbury 165)
No horizonte o despontar de um novo dia surge das cinzas, tal como a Fénix, que se destrói e renasce das cinzas em que ardeu, num ciclo interminável. Granger, apesar de professar de uma visão cíclica da história, explica a Montag o significado deste mito e expressa o desejo de que o conhecimento possa acabar com a guerra e a violência:
And some day we’ll remember so much that we’ll build the biggest goddam steam-shovel in history and dig the biggest grave of all time and shove war in and cover it up. [ . . . ] we’re going to build a mirror-factory first and put out nothing but mirrors for the next year and take a long look in them.’ (Bradbury 171)
Através dos livros, espelhos da Humanidade, torna-se possível aos indivíduos e às sociedades o auto-exame, a detecção de falhas e a sua correcção. Mas Granger sabe que não está a ser realista e que mesmo quando os livros se encontravam à disposição de todos, o conhecimento lá presente não foi utilizado da melhor maneira. Além da existência de literatura é também necessária a co-existência de três premissas, enunciadas por Faber, para que o conhecimento tenha, efectivamente, uma influência positiva na evolução da Humanidade.