Nas duas versões da reportagem procura-se, através das histórias de seis rapazes, traçar um “retrato de uma geração marcada pela baixa escolaridade”.
Na reportagem escrita, após o superlead abre-se com uma descrição visual e sonora: “A algazarra das gaivotas anima o céu cinzento da doca de Matosinhos. Paulo Almeida, 23 anos, embalado no passo, cumprimenta aqui e ali os parceiros da lota”. A reportagem televisiva começa do mesmo jeito, sem que no off se descreva o ambiente do local: a imagem e o som demonstram isso mesmo (Figura 21). Ao mesmo tempo que surgem as primeiras imagens informa-se que Paulo “tem 23 anos” e que “é filho de pescadores”.
Paulo Almeida é, portanto, o primeiro dos seis protagonistas nas duas versões da reportagem. No entanto, na televisão as suas declarações - vivos, no caso - ganham mais “tempo de
41 A versão televisa da reportagem tem o título “Abandonar a escola”.
antena”. Na reportagem televisiva, Paulo explica, na primeira pessoa, o porquê de ter abandonado a escola tão cedo e de só ter o 4.º ano. Além disso, Paulo explica que não consegue arranjar emprego devido à falta de dentes (Figura 22), informação que nunca surge na reportagem escrita (apenas se dá conta da falta de dentes). Outro pormenor importante é que, devido à falta de dentes, é difícil perceber aquilo que Paulo diz. Esse pormenor só é percetível na reportagem televisiva (daí que tenha legendagem).
Na reportagem televisiva parte-se do caso de Paulo para anunciar que “os números do abandono escolar colocam Portugal no fim da tabela da União Europeia”. Na reportagem escrita, e através de quatro infografias, vai-se mais ao fundo da questão, apresentando-se os dados do abandono precoce na União Europeia (Figura 23) e em Portugal: por sexo, por regiões e a percentagem de população empregada por níveis de escolaridade.
Na reportagem televisiva, anteriormente já se tinha dito em off que a escola onde Paulo frequenta o curso de cozinha – a Escola de Segunda Oportunidade - é a “única instituição do país que faz parte da Rede Europeia contra o Abandono Escolar”. Na reportagem escrita são introduzidas declarações do diretor e de um professor de Educação Física da escola - Luís Mesquita e Vítor Pinto, respetivamente – para aprofundar a questão da falta de financiamento e de apoio. Nenhum dos dois “especialistas” é introduzido na reportagem televisiva. Diz-se apenas que a escola de Matosinhos “já ajudou mais de 200 jovens, mas que não tem verba assegurada, apesar dos bons resultados”.
Mantendo sempre o mesmo encadeamento de ideias, as duas versões da reportagem apresentam o seu segundo protagonista: João Pereira. A história de João resume-se a um único parágrafo na reportagem escrita e a pouco mais de um minuto na reportagem televisiva. Tal como aconteceu atrás, as mesmas informações são divulgadas nas duas versões da reportagem, ainda que na televisão parte dessas informações seja avançada na primeira pessoa. A título de exemplo, pode ler-se na reportagem escrita: “o caso dele também se pode
explicar por dificuldades de aprendizagem”. Na reportagem televisiva é João que explica as dificuldades de aprendizagem que tem: “Quando me dão uma folha para a mesa, eu leio aquilo, mas para entender não consigo. Tem de estar uma pessoa sempre ali a explicar-me as coisas” (minuto 03:14).
Igor Brás é o terceiro protagonista da reportagem. Uma vez que o texto da reportagem escrita usa, na sua grande parte, frases curtas, encontramo-las repetidas no off da reportagem televisiva (ainda que, por vezes, por outra ordem).
Aproveitando uma semelhança entre Igor Brás e Ruben Soares – o facto de ambos pensarem que precisam do 9.º ano para tirar a carta de condução - na reportagem televisiva introduz-se mais um protagonista. A ponte de ligação entre as duas histórias é feita através das seguintes frases: “Igor também quer o 9.º ano para tirar a carta. Não sabe que para isso basta ler e escrever. Nem ele nem Ruben Soares”. Ruben Soares surge na reportagem escrita como o último interveniente. Na versão televisiva da reportagem demonstra-se, através da imagem, quase tudo aquilo que é dito da versão escrita: o facto de ajudar os pais no café (Figura 24) e o facto de praticar boxe (Figura 25).
Reportagem escrita: Reportagem televisiva:
Igor Brás, por exemplo – já fez 28 anos e não foi além do 6.º ano. Desistiu da escola há dez anos.
(…)
O pai é serralheiro, a mãe trabalha a dias. Um fez o 4.º ano, o outro o 3.º ano. (…)
O último trabalho foi como “alpinista”, a lavar prédios. Desempregado, ocupa-se agora com os clubes do bairro.
O pai é serralheiro, a mãe trabalha a dias. O pai fez o 4.º ano, a mãe o 3.º. Igor desistiu da escola há dez anos. Não foi além do 6.º ano.
(…)
Igor tornou-se alpinista. Ganhava a vida a lavar vidros de prédios. Agora está desempregado. Como lhe falta o 9.º ano não tem muitas opções. Ocupa-se com os clubes do bairro.
Figura 24 – O café Figura 25 – O boxe
Até ao final da reportagem televisiva ainda surgem mais dois protagonistas: Gonçalo Ramos e Filipe Araújo. Na reportagem escrita, ainda há espaço para uma declaração de Felícia Costa, vereadora municipal da Educação de Sesimbra (fica de fora da reportagem televisiva). No caso de Gonçalo, na reportagem televisiva dá-se mais informação que na reportagem escrita. O facto de querer ser um exemplo para o irmão mais novo nunca é adiantado na revista. Na reportagem televisiva, Gonçalo diz: “Começava a querer fazer as coisas que eu fazia, então eu tinha de mudar de atitude, que era para ele não fazer as mesmas coisas que eu. Já tive de falar com ele, porque ele já percebe algumas coisas e eu já lhe disse várias vezes para não ser como eu, para não fazer as asneiras que eu fiz e para se portar sempre bem” (minuto 07:04). Existe, portanto, uma complementaridade das informações divulgadas nos dois meios. No caso da história de Filipe Araújo oferecem-se praticamente as mesmas informações que na revista. No entanto, na versão televisiva da reportagem, Gonçalo explica na primeira pessoa o porquê de voltar à escola aos 20 anos: “Como eles queriam que eu estudasse, visto que agora o país também está assim, acabei por concluir o 12.º” (minuto 07:50). A complementaridade entre as informações avançadas pelos dois meios é, por isso, também aqui evidente.
Mais uma vez, tal como nas reportagens atrás analisadas, procura-se encaminhar, da mesma forma, o leitor da reportagem escrita para a reportagem televisiva.
Tal como nas anteriores reportagens, também nesta se faz uso de um formato de crossmedia e não de transmedia. No entanto, de todas elas, esta é aquela que tinha maior potencial para se transformar numa narrativa transmedia, sobretudo devido ao número de protagonistas. Por exemplo, se as três histórias apresentadas nas duas versões fossem narradas na revista e as restantes três na televisão, os dois meios contribuiriam para um todo – para traçar o tal “retrato de uma geração marcada pela baixa escolaridade” - sem que houvesse repetição de informações nos dois meios, tal como exigem as especificidades das narrativas transmedia. Não sendo esse o caso, verifica-se apenas uma adaptação das linguagens ao meio que as histórias são apresentadas e, por isso mesmo, chega-se à conclusão que este é mais um exemplo de crossmedia e não de transmedia.