O corpus completo desta pesquisa se constitui de dezesseis reportagens, que foram publicadas nas revistas de informação Carta Capital, Época, IstoÉ e Veja, nas edições de janeiro de 2010. Para chegar a esse corpus, utilizei alguns critérios, a fim de que os resultados pudessem refletir com a maior segurança possível a forma como os jornalistas, num dado período histórico, constroem as sequências narrativas de reportagens. Os critérios que adotei foram:
• o gênero do discurso: a decisão de estudar exemplares de apenas um gênero é
decorrente da hipótese central desta pesquisa. Segundo essa hipótese, é inadequada a ideia de que um mesmo tipo de discurso se atualiza nos exemplares de quaisquer gêneros, ou seja, de que os tipos são transversais em relação aos gêneros. Considero, ao contrário, que cada gênero possui tipos de discurso específicos, os quais se atualizam nas sequências discursivas de exemplares do gênero. Portanto, verificou-se ser essencial estudar um corpus formado por exemplares de um gênero apenas.
• gênero reportagem: a escolha de um gênero pertencente à esfera jornalística se
justifica pelo potencial que os gêneros dessa esfera apresentam em termos de alcance e de possível influência de um grande número de consumidores. Como destaca Van Dijk (2008, p. 77),
154 A aquisição de conhecimentos e a formação de opiniões sobre a maior parte dos eventos do mundo parecem basear-se largamente no discurso jornalístico presente na imprensa e na televisão, compartilhado diariamente por milhões de pessoas.
Esse alcance aponta para um “poder potencial” (VAN DIJK, 2008, p. 77) do discurso jornalístico, poder que justifica o estudo de seus procedimentos de construção. Quanto à escolha do gênero reportagem, ela se deveu à minha familiaridade com esse gênero, o qual foi objeto de estudo em minha pesquisa de mestrado (CUNHA, 2008), bem como à grande quantidade de trabalhos sobre esse gênero produzidos na Análise do Discurso e na Comunicação, os quais poderiam oferecer subsídios importantes para a compreensão de como os jornalistas constroem sequências narrativas. Além disso, considerado um gênero nobre no campo jornalístico (ADAM, 1997a), a reportagem é o meio preferencialmente escolhido para reportar os acontecimentos de maior relevância social do espaço público, independentemente da temática.
• o suporte: conforme Hernandez (2006), há diferenças importantes entre as
reportagens produzidas em diferentes suportes. Esclarece o autor que as revistas semanais de informação, por não serem diárias, abordam acontecimentos já tratados em outros suportes, como jornal, televisão e internet. Por isso, elas costumam tratar de acontecimentos que supostamente já são do conhecimento do leitor ou, na terminologia do jornalismo (HERNANDEZ, 2006), de acontecimentos “frios”, os quais se opõem aos “quentes”, que são acontecimentos bastante atuais. Ainda conforme o autor, as revistas de informação compensam essa defasagem, por meio de uma abordagem mais analítica, recuperando as causas dos acontecimentos de forma mais profunda e contextualizando-os melhor. Como essas particularidades de reportagens produzidas em diferentes suportes podem ter impacto sobre a frequência e as características de construção das sequências discursivas, considerei pertinente selecionar reportagens veiculadas em apenas um suporte, a revista semanal de informação.
• as revistas semanais de informação: as reportagens do corpus foram publicadas
em edições das revistas Carta Capital, Época, IstoÉ e Veja. A seleção dessas revistas se deve a algumas razões. Em primeiro lugar, são as revistas semanais
155 de informação que apresentam maior número de exemplares vendidos no país (BETTENCOURT; SANTANA, 2012; HERNANDEZ, 2006). Em segundo, são considerados veículos de informação de referência, o que aponta para a influência que podem exercer sobre a forma de se fazer jornalismo de outras revistas de informação. Por fim, como essas revistas são consideradas veículos de referência, as reportagens que veiculam costumam ter grande repercussão nos outros veículos e, em alguns casos, chegam a influenciar tomadas de decisões em outras esferas, como a política.
• o período de publicação: esta é uma pesquisa sincrônica, ou seja, procura
investigar o fenômeno da construção da narrativa em reportagens em um período histórico determinado. O cuidado em compor o corpus com reportagens publicadas em um intervalo curto de tempo se explica pela minha tentativa de chegar a resultados que reflitam a forma como os jornalistas, no período estudado, constroem sequências narrativas de reportagens. Tendo em vista que um gênero é um conjunto de representações esquemáticas sócio-historicamente constituídas, considerei como bastante forte a hipótese de que a forma como narram os jornalistas de hoje é diferente da forma como narravam os jornalistas do início ou da metade do século XX72. Por isso, optei por estudar apenas reportagens veiculadas em edições de janeiro de 2010.
Um critério que poderia ser considerado pertinente é o da temática. Ou seja, o corpus, para tornar-se mais homogêneo, poderia ter sido composto por reportagens que tratam apenas de um tópico, o que implicaria colher reportagens em somente uma seção ou rubrica (política, meio ambiente, cotidiano, lazer, esporte, cultura, etc). Esse critério, previsto no projeto desta pesquisa, foi descartado, já que, se levasse em conta apenas uma temática na constituição do corpus, a pesquisa limitar- se-ia a investigar a construção da narrativa em reportagens do jornalismo político ou ambiental ou esportivo e não em reportagens de modo geral. Para que os resultados da pesquisa fossem mais abrangentes, optei, então, por desconsiderar a temática como um critério para a constituição do corpus.
72 Há pesquisas diacrônicas que fornecem subsídios para a sustentação dessa hipótese, ao apontarem
diferenças importantes na constituição de gêneros jornalísticos em intervalos de cinquenta anos (CHAPARRO, 2008; COSTA, 2009; PESSOA, 2007).
156 Com base nos critérios expostos, coletei um total de setenta reportagens nas edições que as revistas Carta Capital, Época, IstoÉ e Veja publicaram em janeiro de 2010. Como esse número de reportagens inviabilizaria a conclusão da pesquisa no prazo disponível para o término do doutorado, foi preciso adotar critérios suplementares, a fim de se chegar a um corpus viável. O primeiro deles foi escolher em cada revista o mesmo número de reportagens. Considerando que dezesseis reportagens constituiriam um corpus de extensão razoável, busquei quatro reportagens em cada revista. Das dezesseis reportagens, apenas quatro, uma de cada revista, deveriam tratar do mesmo tópico, para serem objeto da análise da terceira etapa da pesquisa, a forma de organização estratégica. Em cada revista, havia uma reportagem sobre as catástrofes naturais ocorridas na passagem de 2009 para 2010. As outras três reportagens de cada revista foram escolhidas de maneira aleatória, mas em seções diferentes das edições, para que o corpus fosse composto por reportagens de temática variada (política nacional e internacional, meio ambiente, cotidiano, polícia e economia). Recortando o corpus inicial de setenta reportagens, cheguei ao seguinte corpus definitivo:
TABELA 1 Corpus definitivo
Revistas Datas das edições Reportagens
Carta Capital 13/01/2010 (r1) A culpa não é só da natureza
20/01/2010 (r2) São Paulo na lama
(r3) Uma história bipolar (r4) Vanguarda do atraso
Época 08/01/2010 (r1) Um mensalão de R$ 150 mil?
(r2) É possível evitar?
15/01/2010 (r3) O bolívar forte ficou fraco
(r4) O pecado público
IstoÉ 13/01/2010 (r1) Caça ao vazamento
(r2) Eles não deveriam estar aqui
20/01/2010 (r3) O passado ainda presente
27/01/2010 (r4) A hora do medo
Veja 06/01/2010 (r1) Desvios subterrâneos
(r2) Ele tem 150 000 metros quadrados (r3) Sol, mar e organização
13/01/2010 (r4) Trágico, absurdo, previsível
Total de reportagens
157 Como verificamos no capítulo anterior, cada uma das três etapas de análise desta pesquisa (formas de organização sequencial, composicional e estratégica) procede a um aprofundamento dos resultados da etapa anterior, o que implica níveis cada vez maiores de complexidade no estudo do tipo narrativo e das sequências narrativas das reportagens. Por esse motivo, considerando que recortes no corpus não comprometeriam a investigação das hipóteses levantadas nesta pesquisa, realizei nas duas últimas etapas reduções do corpus definitivo.
Na forma de organização sequencial, a análise do tipo narrativo da reportagem e a identificação das sequências narrativas se basearam no corpus completo.
Na forma de organização composicional, o estudo da marcação linguístico-discursiva típica e da função cotextual típica das sequências narrativas se fez com base em um subcorpus constituído pela metade do corpus definitivo. Na segunda etapa, foram analisadas, então, oito reportagens, duas de cada revista. Dessas duas reportagens, uma é a que trata das catástrofes naturais ocorridas de 2009 para 2010. Para que a seleção da segunda reportagem não fosse aleatória, selecionei a reportagem seguinte em relação à que trata das catástrofes naturais. Na Carta Capital, por exemplo, a reportagem que trata das catástrofes naturais (“A culpa não é só da natureza”) é a primeira (r1) das quatro reportagens selecionadas nessa revista, como se vê na tabela 1. Portanto, a outra reportagem dessa revista a entrar no subcorpus dessa etapa foi a segunda reportagem (r2), intitulada “São Paulo na Lama”. Apenas na revista Veja, a segunda reportagem precisou ser a reportagem anterior em relação à que trata de catástrofes naturais, porque esta é a última das quatro. Assim, a reportagem que aborda catástrofes é a “Trágico, absurdo, previsível” (r4), enquanto a outra reportagem é a “Sol, mar e organização” (r3).
Por fim, na forma de organização estratégica, a análise da função contextual das sequências se fez com base na metade do subcorpus anterior ou em 1/4 do corpus completo. Assim, a terceira etapa desta pesquisa estudou as sequências narrativas de quatro reportagens, uma de cada revista. Como nesta etapa a comparação entre as reportagens é pertinente, todas as quatro reportagens tratam do mesmo tópico já exposto, a saber, as catástrofes naturais ocorridas na passagem de 2009 para 2010.
158 A decisão de estudar na terceira etapa reportagens que tratam dessas catástrofes se deve, em primeiro lugar, ao fato de que esse foi um conjunto de acontecimentos que recebeu bastante destaque nas edições em que foi explorado. Além disso, pareceu-me interessante abordar a temática ambiental na forma de organização estratégica, uma vez que essa temática toca diferentes setores sociais (científico, político, empresarial, policial, hospitalar, etc), acerca dos quais o jornalista inevitavelmente precisa manifestar relações de acordo ou de desacordo, para se apresentar ao cidadão de diferentes maneiras. Reforçando o interesse de uma análise discursiva de produtos midiáticos com temática ambiental, observa Ramos (2007, p. 51-52):
A problemática ambiental, porque “invisível” ao olhar desarmado do quotidiano, emergindo somente na pontual efervescência do acidente ou da catástrofe, e desfocada pelo peso testemunhal das circunstâncias, é particularmente passível de construção discursiva – e objecto da atenção sistemática dos media. Estes intensificam e extensificam causas e consequências, exploram perdas e expectativas, dão a ver e ampliam tensões sociais. Evocam vozes autorizadas, de decisores políticos, de líderes de opinião, de ambientalistas e de vítimas. E juntam-lhes uma outra voz, a do jornal enquanto instância mediática, conferindo sentido (o seu sentido) aos factos, transformando o “evento bruto” (aquilo que se passa, uma modificação dos estados das coisas, mas ainda sem significado atribuído) em “evento mediático” (o resultado do discurso sobre o evento bruto, que o torna susceptível de ser adquirido pelos receptores da informação, e que pode corresponder a um facto ou a uma declaração).
Os recortes a que submeti o corpus completo a cada etapa da análise estão representados nesta tabela:
159 TABELA 2
Corpus de cada etapa da análise
Após a descrição dos procedimentos empregados na composição do corpus, passo à apresentação e à discussão de alguns aspectos da metodologia adotada para o seu tratamento em cada etapa.