Ao reconhecer a consistência do homem enquanto sujeito real, compreende-se o humano não desde as “mediações” (políticas, econômicas, culturais), mas desde a originalidade de seu próprio ser 180.
Visto em suas instâncias, o ser humano é o único ser criado que possui a consciência de tempo e espaço e, a rigor, ele é um ser que possui sua individualidade, mas também é um ser coletivo relacional. Dessa forma, possui a relação máxima de estar no mundo, dotado de liberdade, e consequentemente, de responsabilidade, a fim de escolher conscientemente seu modo de agir que pode conduzir a ações que podem se revelar boas ou más para si e para os outros. Portanto, é fato que, por sua racionalidade, ser homem consiste em guiar-se por normas e regras que ele próprio edita em meio a uma sociedade. Ter consciência é viver eticamente, é viver conforme a justiça. Recordando Tomás de Aquino 181, que coloca a justiça como centro animador de todas as virtudes éticas, observa-se:
Dentre todas as virtudes éticas, destaca-se a justiça, que é a “justa medida” segundo a qual se distribuem os bens, as vantagens, os ganhos e seus contrários. E como bom grego, Aristóteles reafirma o mais elevado elogio à justiça: “pensa-se que a justiça é a mais importante das virtudes e que nem a estrela vespertina nem a estrela matutina sejam dignas de
180
VIDAL, Marciano. Nova Moral Fundamental. O lar teológico da Ética. Aparecida: Santuário; São Paulo: Paulinas, 2003. p. 181.
181“A virtude humana torna bons os atos humanos e o próprio homem. É o que, sem dúvida,
convém à justiça. Pois o ato humano se torna bom, ao atingir a regra da razão, que retifica as ações humanas, é claro que as torna boas. E como Túlio declara, ‘é sobretudo por causa da justiça que os homens são chamados bons’. Daí se vê, como acrescenta na mesma passagem: ‘Nela, refulge ao máximo o esplendor da virtude’.” AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Livro VI. São Paulo: Ed. Loyola, 2005 p. 58, a. 3.
admiração quanto ela”. E com o provérbio dizemos: Na justiça está abarcada toda a virtude 182.
Assim, a justiça estabelece a relação entre as pessoas e as sociedades, ou seja, o essencial da ética é levar o ser humano a formar uma sólida consciência e consequentemente conviver com os semelhantes, pois ninguém é moralmente ético por si mesmo, somos éticos em relação aos outros. Quem não consegue fazer parte de uma comunidade, que não tem necessidade de absolutamente nada, bastando-se a si próprio, acredita que “é fera ou um deus” 183. Portanto, para ser verdadeiramente humano, fazer-se original, dinâmico, ético e criativo para com todos é necessário esse encontro com o outro 184. Pois, ser um homem moralmente ético é ser social. Portanto, a ação relacional é obrigatória em um devir ético.
Para conviver, isto é, para poder suprir necessidades sociais, cada indivíduo precisa contar consigo mesmo e com os outros indivíduos. Para ser um indivíduo, o homem tem de fazer algo consigo mesmo, lidar com os elementos que o compõem individualmente. O próprio indivíduo torna-se, assim, um polo de atividade, polariza a própria atenção. Só então tem condição de postar-se aos outros indivíduos, outro polo de atividade, para conviver 185.
A percepção daquilo que cada um é, ou seja, da própria individualidade, é que proporciona a convivência entre indivíduos. Grupos de iguais, capazes de conviver autenticamente, de formar sociedades, formam-se quando indivíduos autônomos decidem ocupar espaços próximos uns dos outros. Dessa forma, a convivência grupal saudável é consequência da capacidade individual de contribuir para o todo social.
Daí a formação dos valores como ponto nevrálgico à consciência. “Parece bastante evidente que a atividade humana não se realiza a partir da realidade, mas em torno daquilo que conhecemos sobre ela, no momento da atividade” 186. Assim, a consciência do indivíduo reconhece os valores que provocam repulsa ou atração do “Eu” em relação aos objetos de sua atividade, que têm efetivamente sua localização na relação entre o “Eu” e as realidades
182 REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Historia da Filosofia. V.I. 2.ed. São Paulo: Paulinas,
1990, p. 205.
183
Ib. p. 208.
184
“O homem jamais pode sentir-se e enxergar-se como um ser isolado no mundo. em relação contra a tendência a um certo solipsismo da filosofia pós-medieval, a partir do cogito cartesiano, o pensamento filosófico, desde Hegel, não cessa de focalizar a realidade essencialmente relacional da vida; implícita na estrutura do próprio vocábulo consciência: saber conjunto, cum + scientia”. COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 461.
185
SANTOS, Antônio dos. Ética: caminhos da realização humana. São Paulo: Ave Maria, 1997. p. 29.
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circundantes. Portanto, o “Eu” nem se submete a, e nem atribui valor, apenas reconhece valores naquilo que o cerca.
Não obstante, a realidade humana não é regida simplesmente por leis independentes, cegas, irrevogáveis e nem se constrói exclusivamente segundo modelos incorporados a um devir irreversível. Pelo contrário, as realizações humanas dependem em grande parte das decisões livres e responsáveis das pessoas nelas implicadas.
Em razão desse caráter aberto da realidade humana brotam as instâncias normativas de um viver social.
As quais, através da proposta de fins e ideais, tratam de construir a história humana segundo modelos configurados livremente por pessoas racionais. Dentre essas instâncias normativas (convencionais, jurídicas, culturais, ideológicas) sobressai a instância moral, a qual procura conformar as realizações humanas com a consciência moral e com referência a valores morais objetivos 187.
Isso ocorre com todas as realizações humanas, sejam elas de caráter econômico, político, cultural, jurídico ou outras. Todas essas instâncias não tratam de coisas, mas de sujeitos humanos, ou seja, de pessoas. Por essa razão, a consciência moral brota da pessoa, e o valor moral se refere à pessoa.
A pessoa é a origem e a meta de toda ação que pretenda ser humana e humanizadora. Essa orientação personalista é uma condição imprescindível do discurso ético. É também umas das chaves, talvez a primeira, da vivência e da compreensão do fenômeno moral 188.
187
VIDAL, Marciano. Nova Moral Fundamental. O lar teológico da Ética. Aparecida: Santuário; São Paulo: Paulinas, 2003. p. 636.
188