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Journal of Geophysical Research: Atmospheres 10.1029/2018JD028889

O conflito de identidades entre arianismo e cristianismo e a recorrência ao passado para a afirmação do presente se fazem perceber pelas imbricadas relações entre identidade, imagem e memória. Fernando Catroga trata da questão do pertencimento “em que cada subjetividade se auto-reconhece filiada em totalidades genealógicas que, vindas do passado, se projetam no futuro”60. Isso pode ser visto na basílica de Santo Apolinário, o Novo.

57

HALL, Stuart. Op. cit., p. 108-109.

58

ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da UNICAMP, 2002, p. 30.

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Condenação da memória.

60

CATROGA, Fernando. ‘Memória e História’. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Fronteiras do

História e Memória são representações narrativas que propõem uma reconstrução do passado e que se poderia chamar de registro de uma ausência no tempo. Enquanto representação, a Memória permite que se possa lembrar sem a presença da coisa ou da pessoa evocada, simplesmente com a presença de uma imagem no espírito e com o registro de uma ausência dada pela passagem do tempo.61

A memória é uma construção do presente para o passado. Assim, a presença dos Mártires e das Virgens traz uma lembrança que foi construída no presente, inspirada no passado. Esta procissão também está impregnada de relações de poder, pois sendo de registro seletivo, institui-se uma memória única e coletiva, construída de forma a poduzir uma nova identidade. Os laços do passado com o presente são criados de forma arbitrária, de forma a que cada presente construa a sua história, “não só em função da onticidade do que ocorreu, mas também das necessidades e lutas do presente”.62

“A memória será sempre fundacional, sacralizadora e reatualizadora de um passado que, estando ainda vivo, tende a fundir-se num eterno presente”.63 Para esta constante recorrência ao passado, exige-se uma autoridade que o legitime: a testemunha. Em Santo Apolinário, o Novo, existem quarenta e sete testemunhas figuradas como Mártires e Virgens, encarregadas de perpetuar a tradição do Cristianismo. São testemunhas lavadas pelo sangue de Cristo64, que morreram em defesa da Igreja.

Somente com os primeiros cristãos, na virada do primeiro século de nossa era, a testemunha vai se tornar esta figura indispensável, crucial para o estabelecimento e a validação de uma cadeia da tradição. […] Enfim, compreende-se como, em tal contexto de valorização da testemunha, pode- se passar da testemunha – martus – ao mártir, aquele que dá testemunho, com sangue, não de si mesmo, mas de Cristo e que se torna, por sua vez, um elo na cadeia das testemunhas.65

Seguindo tais testemunhas, tem-se não só uma procissão de Mártires e Virgens, mas também uma procissão de espectadores, pela reprodução das práticas, das homenagens e dos ritos prestados à Maria e a Cristo. A memória diminui, ou até mesmo anula, a distância

61

PESAVENTO. História & História Cultural, p. 94.

62

CATROGA, Fernando. ‘Recordação e esquecimento’. In: Memória, História e Historiografia. Coimbra: Quarteto, 2001, p. 22.

63

CATROGA. Fronteiras do milênio, p. 54.

64

Figura de linguagem recorrente na literatura do Cristianismo dito primitivo.

65

HARTOG, François. ‘A testemunha e o historiador’. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Fronteiras do

entre o presente e o passado, revive o ritual, cujo efeito está presentificado nas figuras da procissão e nos observadores. As testemunhas funcionam como mediadores entre o profano e o sagrado, já que, como exemplos de virtude, viveram no profano mas estão no sagrado. Talvez como pontos de intercessão entre as duas esferas. “A memória só poderá

desempenhar sua função social66 através de liturgias próprias, centradas em reavivamentos, que só os traços-vestígios do pretérito são capazes de provocar”.67

Memória também é esquecimento, pois “há que pensar que as pessoas são ensinadas a lembrar e a esquecer, fazendo com que determinados acontecimentos não sejam considerados importantes ou mesmo que não tenham acontecido”.68 A damnatio memoriae seria, então, a condenação da memória, mas, principalmente, a condenação de um tempo passado, o tempo de Teodorico, que deverá ser apagado para dar lugar ao “retorno” do Império Romano, agora Cristão.

Deve ser lembrado ainda que a memória não está apenas no ato de recordar, mas também no ato de esquecer. Isto é muito marcante em Santo Apolinário, o Novo, pois vestígios foram deixados, penso que de forma proposital, para lembrar que outros registros foram apagados. No entanto, este esquecimento representado na basílica, leva a refletir que o ato de esquecer não significaria a perda de informações para sempre, mas, o contrário, seria fazer com que fossem lembradas como aquilo que não deve ser rememorado. “É verdade que, se o monumento é símbolo que espera a recordação, o seu significado mais radical só será apreendido se as suas conotações forem confrontadas com o que elas também omitem e ocultam”.69 Talvez as mãos e braços que estão figurados na colunata do Palácio de Teodorico estejam ali justamente para recordar o observador de que aquilo que estava por baixo deve ser esquecido. Adélia Meneses assinala que “há, por sinal, no verbo

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Sobre a função social da memória, Ulpiano Meneses coloca: “A memória, como construção social, é formação de imagem necessária para os processos de constituição e reforço da identidade individual, coletiva e nacional. […] A memória é operação ideológica, processo psíquico-social de representação de si próprio, que reorganiza simbolicamente o universo das pessoas, das coisas, imagens e relações pelas legitimações que produz. A memória fornece quadros de orientação, de assimilação do novo, códigos para classificação e para intercâmbio social”. Cf: MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. ‘A crise da memória, história e documento: reflexões para um tempo de transformações’. In: SILVA, Zélia Lopes da (org.). Arquivos, patrimônio e

memória. Trajetórias e perspectivas. São Paulo: Editora Unesp, p. 21.

67

CATROGA, Fernando. Fronteiras do milênio., p. 48.

68

PESAVENTO. História & História Cultural, p. 96.

69

‘esquecer-se’, em grego uma ambigüidade extremamente significativa. Assim, ‘eu me esqueço’ pode ser entendido também como ‘eu me escondo’”.70

O restante dos corpos destas figuras foi coberto com cortinas feitas em mosaico. Tal me parece bastante significativo, pois não foram destruídos, ou totalmente apagados, mas apenas escondidos, não sendo permitida ao fiel a sua observação. O uso de cortinas é uma metáfora em si. Instiga o observador a imaginar quem está e o que está por trás das cortinas, mas não existe certeza. Esta seria a damnatio memoriae do título, isto é, a condenação de uma memória, em prol de outra que, no caso, satisfizesse os interesses de Justiniano na recriação do Império Romano Cristão.

Just after the first half of the sixth century, when Archbishop Agnellus had Justinian give over the Arian church to a Catholic cult, not only did he proceed to efface the characters of King Theodoric’s court represented in the mosaics, but he even held a damnatio memoriae over those scenes which originally covered the walls between the town of Ravenna and the Redeemer and the town of Classe and the Madonna. He had these replaced, as the historian Andreas Agnellus of Ravenna tells us, by the line of Martyrs and the sumptuous train of the Virgins, preceeded by the Three Kings of the East bearing gifts.71

No Batistério dos Arianos, a damnatio memoriae funcionaria de outra forma. Os mosaicos que representariam o arianismo não foram cobertos, mas re-significados, de forma a que se percebesse que aquela memória deveria ser esquecida em prol de outro que passava a ser entendida e lida nos mesmos mosaicos. A vitória do projeto de Justiniano e a imposição do Cristianismo do Concílio de Nicéia estavam na preservação do esquecimento, pois o antigo lugar de culto fora remodelado pela memória. O Império, então, expunha o que lhe parecia vergonhoso de outro modo, mostrando sua supremacia e força.

A legibilidade da imagem faz a memória ecoar, “as redes de memória, sob diferentes regimes de materialidade, possibilitam o retorno de temas e figuras do passado,

70

MENESES, Adélia Bezerra de. ‘Memória e ficção II (Memória: matéria de mimese)’. In: Do poder da

Palavra. Ensaios de literatura e psicanálise. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1995, p. 156.

71

“Logo após a primeira metade do século seis, quando o Arcebispo Agnelo fez Justiniano entregar a igreja ariana ao culto católico, não apenas ele procedeu o apagamento das figuras da corte do Rei Teodorico representadas nos mosaicos, mas ainda empreendeu uma damnatio memoriae sobre aquelas cenas, que originalmente cobriam as paredes entre a cidade de Ravena e o Redentor e entre a cidade de Classe e Nossa Senhora. Ele as substituiu, como o historiador Andreas Agnellus de Ravena nos diz, pela linha de Mártires e a suntuosa caravana de Virgens, precedida pelos Três Reis Magos portando presentes.” (Tradução Livre). Cf. BOVINI, Giuseppe. Op. cit., p. 35.

os colocam insistentemente na atualidade, provocando sua emergência na memória do presente”.72 O silenciamento é, assim, recorrente para que, de acordo com Pêcheux, sobre o “discurso-real autoprotetor”, se permita “calar o que cada um entende sem confessar”73. A cortina descerrada nas colunas de Santo Apolinário, o Novo, silencia um mundo que acontece atrás dela, até mesmo porque o arianismo somente foi banido no século VII. Mesmo a chegada dos longobardos na região, durante o século VII, traz a idéia de que o mundo bárbaro ainda existia, embora silenciado nas paredes de Ravena.74

72

GREGOLIN, Maria do Rosário. ‘Sentido, sujeito e memória: com o que sonha nossa vã autoria?’. In: GREGOLIN, Maria do Rosário & BARONAS, Roberto (orgs.). Análise do Discurso: as materialidades do

sentido. São Carlos: Claraluz, 2001, p. 71.

73

ORLANDI,Eni Puccinelli. Op. cit., p.40.

74

GIORDANI, Mário Curtis. ‘O Reino dos Lombardos’. In: História dos povos bárbaros. Vol. 2.

3. As procissões de Deus: Santo Apolinário, o Novo e o Batistério