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Enquanto forma de ação, a Revolução Francesa foi o ponto de partida dos revolucionários de 1848 incluindo Marx e Engels, pois representou “o exemplo clássico da luta de classes em sua forma revolucionária e o laboratório mais importante de experiência histórica no qual se formaram a estratégia e a tática da revolução.”140 Desta experiência de
ação coletiva, o período jacobino representou o movimento fundamental sendo justamente onde se constatou como a relação entre os jacobinos e o Estado burguês foi ambígua, na medida em que ele se colocava para liberar os movimentos da sociedade burguesa. Tanto o terror, quanto Napoleão “tentaram, cada qual à sua maneira, comprimi-lo no âmbito de uma comunidade/nação dirigida pelo Estado; um, subordinando-o à 'revolução permanente' – termo que Marx usa exatamente com este propósito, outro, à conquista e à guerra permanente” resultando numa reacomodação entre as classes que impulsionaria o Estado a mudanças capazes de acomodar os interesses particulares (necessariamente em conflito) dentro do “Estado constitucional representativo.”
Ao aproximar-se 1848 colocou-se em destaque outro aspecto do jacobinismo. Ele somente completou a destruição dos vestígios do feudalismo, que de outro modo talvez ainda se perpetuassem por várias décadas. Paradoxalmente, isso se deveu a intervenção na Revolução do proletariado, ainda bastante imaturo para poder conseguir objetivos próprios. A discussão continua em aberto (embora hoje não possamos considerar os sansculottes como um movimento proletário), já que envolve o problema fundamental da função das classes populares na revolução burguesa e das relações entre burgueses e revolução proletária. Esses seriam os temas centrais do Manifesto do Partido Comunista, dos escritos de 48 e do debate posterior e permaneceriam entre as temáticas mais significativas do pensamento político de Marx e de Engels, para não dizer do marxismo de nosso século. Ademais, na medida em que o advento da revolução burguesa comportava a possibilidade, verificada no precedente jacobino, de chegar a regimes que fossem além do governo burguês, o jacobinismo propunha também algumas características políticas de tais regimes, a exemplo da centralização e da função do corpo legislativo.141
Certamente, aos olhos do momento, o programa mínimo identificado por um membro dos reinos alemães passaria pelo fim dos restos feudais segundo um projeto revolucionário capaz de unificar todas as pautas de grupos políticos diversos, ainda que a viabilidade deste processo não fosse de modo algum clara a seus participantes. No entanto, a recepção do debate sobre a Revolução Francesa na Alemanha continha uma marca muito particular para a maioria dos intelectuais, muitas vezes expressa como uma aversão ao período do terror e os efeitos ainda presentes da dominação napoleônica sobre um orgulho nacional latente, apesar
140 HOBSBAWM, Eric J. Aspectos políticos da transição do capitalismo ao socialismo. In: HOBSBAWM, Eric. J. [et al.]. História do Marxismo vol. I. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1983(a), p.310-311.
disso, a ideia de uma revolução aos moldes franceses representava para os intelectuais excluídos da política e do reconhecimento profissional e social, um comprometimento por parte do indivíduo e uma vinculação entre princípios e prática. Para os jovens intelectuais alemães, a teoria política nunca deixou de guardar relação com o modelo francês, mesmo quando isto se resumia apenas a um gesto teórico como apontou o jovem Gyorg Lukács
Enquanto em Paris os doutrinários perdidos nos seus sonhos levavam com cruel e sangrento rigor as possibilidades do racionalismo até suas últimas consequências, nas universidades alemãs um livro após outro minava e destruía a esperança orgulhosa do racionalismo.142
O Estado prussiano evitava a todo custo qualquer forma de mobilização da sociedade tentando evitar outros efeitos políticos tributários da Revolução Francesa e mantendo a política estritamente nos limites dos grupos dominantes da sociedade alemã, nobres e junkers, militares e donos de terra. Um último respiro do poder absolutista que, volta e meia, mantinha certas instâncias básicas para o metabolismo da sociedade civil, como a educação e a imprensa, solo e oxigênio da intelectualidade alemã que convivia com um equilíbrio delicado que poderia sem aviso ora restringir um pouco o espaço disponível, ora o oxigênio.
Se pensar publicamente era possível, nos limites do que se poderia defender de avanço no debate alemão, como fruto de uma liberdade relativa de imprensa, o era apenas como um uso privado e distinto do radicalismo que lhe revestia o tom francês do discurso político, como acentua a descrição de Paulo Arantes sobre a passagem política dos gêneros. Era o limitado escrito de jornal, que se dirigia em tom cifrado aos pares, versados no mesmo código ilustrado que visava um sentido, certamente político e mais abrangente, mas que fugia dos resultados ativos possíveis de sua realização, ao menos se nos atemos ao modelo reiterado da formação da intelectualidade francesa. A crise política que dividia a sociedade alemã, resumindo-se à crítica ilustrada dentro dos limites que lhe eram dados pelo vigilante estado prussiano.
1.4 A CONJUNTURA POLÍTICA DA PRÚSSIA E DOS REINOS ALEMÃES
Quanto ao momento político em que se encontravam os jovens estudiosos de Berlim, a condição era bem peculiar, especialmente se considerarmos sua localização e origem, entre os diversos pequenos reinos sob domínio dos Hohenzollern, mesmo que apresentassem o verniz de um regime partilhado formalmente entre diversas “casas” com sede em Frankfurt. A
Confederação germânica dava um sinal de paz aos países de fala alemã, como um tipo de
governo de mediação entre a Prússia Hohenzollern e império austro-húngaro dos Habsburgos, garantindo certa estabilidade (paz entre reinos e repressão interna) desde o Congresso de Viena, quando foi selado um acordo entre as monarquias para refrear qualquer avanço republicano e outros conflitos de menor intensidade entre os líderes, até mesmo do avanço do mais simples liberalismo constitucional. O que significa como projeto ideal, grosso modo, de um governo sem limites para o poder do rei, na forma de uma constituição que obrigasse normas ao estado, ao menos em relação aos interesses dos cidadãos, e mesmo os mais notáveis, ou seja, os capitalistas que apareciam como grupo de interesse com poder maior de barganha frente ao poder estatal, por justamente serem aqueles que poderiam financiar obras e guerras.
Internamente, a coroa tinha problemas organizativos, pois, se queria construir uma
nova Alemanha, precisaria constituir uma unidade mínima entre grupos fora da nobreza,
especialmente a burguesia, para conseguir arrecadar impostos quando de projetos mais ousados, que continuamente eram negados. Por mais que Frederico Guilherme unificasse instâncias ao criar uma câmara única, a “Dieta Unida” onde se discutiam as questões dos estados alemães em termos de uma Confederação Alemã, esta possuía baixa representação e pouca abrangência em temas, não conseguindo, por exemplo, sequer a aprovação das taxas que permitiram a construção das estradas de ferro. Os poucos representantes da burguesia queriam um compromisso maior, negado pelo rei prussiano, na forma de uma constituição e da garantia de encontros periódicos, o que perpetuou o impasse entre nobreza e burguesia por muito tempo143. Certamente o sinal de que perpetuava desde Meternich um sistema político vinculado aos valores nobiliários da aristocracia monárquica estamental mesmo que necessitasse de um fundamento mais sólido para essa estrutura social. O que certamente era um incômodo aos grupos da sociedade que não eram militares ou nobres e desejavam participar do poder, ou ao menos das decisões sobre os gastos do governo.
Nas várias partes do país a popularidade do novo Rei diminuiu a diferentes velocidades. Os renanos nunca gostaram de estar sob a Prússia, à qual foram ligados somente em 1815, frequentemente preferindo o governo da França napoleônica. Carl Schurz conta como em sua infância “a palavra prussiano servia para injúrias ofensivas, e quando um menino lançava contra o outro era difícil encontrar uma injúria mais contundente para devolver” Eram os adultos da Renânia, burgueses de classe média que desejavam progredir mais rápido do que estavam e que deram suporte ao jovem Karl Marx e seus esforços iniciais na edição da Rheinische Zeitung em 1842. 144
As classes médias que conheceram melhores condições legais e políticas desejavam
143 ROBERTSON, Priscilla. Revolutions of 1848. A social history. Pinceton, New Jersey: Princeton University Press, 1971, p. 114.
garantir ainda mais poder empoderando a sociedade civil, sem contentar-se com o que acenava o governo prussiano e passando a dar ouvidos inclusive aos ecos alemães da marselhesa. Mas não apenas os brugueses, pois também se iniciava a mobilização espontânea dos trabalhadores na conjuntura política de 1848, que teve como um dos seus atiçadores os efeitos das crises de 1847 que se abateram sobre os preços levando a população a saques constantes aos mercados, trazendo problemas aos nobres e militares guardiões da ordem política e social que resultaram em centenas de presos que somente seriam libertos nos eventos de 1848.
1.5 A REVOLUÇÃO DE 1848
A eclosão do ciclo das revoluções de 1848 marca o primeiro grande período de atividade jornalística de Engels e a principal de Marx, desde o período da Reinische Zeitung, quando estes, exilados, retornam à Alemanha para participar de peito aberto na revolução alemã, numa conjuntura que parecia adequada à implantação de um republicanismo que fosse capaz de romper os laços de todas as consequências antirrevolucionárias dos acordos realizados na Convenção de Viena. O levante rebentou de modo diferente conforme a localidade, em grande parte devido às divisões políticas e territoriais da Alemanha, como testemunha o fato de que somente uma cidade específica receberia favoravelmente os rebentos mais radicais da revolução alemã.
Colônia, na Renânia, diferentemente de outras cidades alemãs, era a cidade que mais se vinculou intelectualmente às instituições herdadas da ocupação militar napoleônica, em detrimento do próprio regime autóctone, e era, como resultado disso, reconhecidamente mais liberal e garantia da liberdade de imprensa. Neste contexto, a Nova Gazeta Renana (Neue
Reinische Zeitung, que circulou de junho 1848 a maio de 1849), serviu de apoio à revolução e
incentivou as forças que Marx e Engels viam como, senão as mais progressistas, as mais radicais dentro do levante revolucionário, chegando alguns de seus membros, como o próprio Engels, além do trabalho de escrever e editar, a participar nos combates de rua contra a restauração prussiana. Colocou-se para Marx e Engels ali a questão de uma organização política capaz de superar os impasses de um levante orientado segundo princípios abstratos e incapazes de uma resposta efetiva aos conflitos políticos do período.
O que se explica para o círculo de alianças entre os grupos mobilizados, como, aliás, registra Hobsbawn.
Até quase o momento da conversão de Marx e de Engels ao comunismo – e, em certa medida, mesmo depois de 1848 – seria equivocado falar de uma esquerda
socialista e comunista, distinta das tendências democráticas e jacobinas que constituíam a oposição radical à reação e ao absolutismo monárquico. Como observa o Manifesto do Partido Comunista na Alemanha (ao contrário da França e da Inglaterra) os comunistas não tinham alternativa a não ser a de “combater juntamente com a burguesia contra a monarquia absoluta, a propriedade fundiária feudal e a pequena burguesia (die Kleinebürgerei), mesmo impulsionando os operários a tomarem ‘uma consciência mais clara possível do antagonismo hostil entre a burguesia e o proletariado.’ 145
Fora do campo revolucionário radical, esta situação descrita por Hobsbawm torna-se nítida se observamos o levantamento dos participantes da Assembleia de Frankfurt quanto à ocupação de cada um dos membros. Este, certamente, além dos ideais socialistas em pauta entre os grupos mais radicais, esta foi a última oportunidade da burguesia alemã participar diretamente da política contra os interesses de nobres, militares e junkers.
Entre os 830 deputados à Assembleia de Frankfurt de 1848, pelo menos 550 tinham diplomas universitários. Quase 20% dos representantes eram professores universitários, acadêmicos ou professores secundários; outros 35% eram funcionários da administração ou do judiciário; quase 17% eram advogados; 13% eram teólogos e ministros da Igreja, funcionários municipais, médicos, oficiais militares e escritores. Pouco mais de 5% dos deputados eram proprietários rurais e agricultores, e todo mundo da indústria, do comércio, dos transportes e dos pequenos artesãos, estavam representado diretamente por menos de 17%.146
1.5 O PARTIDO DOS COMUNISTAS DA ALEMANHA