• No results found

Jernbanestasjonen og utstikkerbryggene

In document KONSEKVENSER FOR KULTURMINNENE (sider 48-64)

Este breve estudo acerca do estilo do autor realizado se fez no intuito de conseguir reunir um arcabouço estético mais rico de análise para o tipo de atmosfera construída para o filme. Como estas opções estilísticas constituíram uma semântica visual? A própria heterogeneidade do filme, a partir de dispositivos brechtinianos de um lado e uma fantasmagoria maneirista do outro deixam clara a complexidade na abordagem da temática e os diversos recursos artificialistas (slow motion, tableau vivant, jump cut) apontam não para um tipo de retórica acerca de uma catástrofe aterradora, Melancolia é um filme sobre a perenidade do ser e estar no mundo. Mais uma vez, o existencialismo em Trier (temática usual em sua obra, como abordado na segunda parte da pesquisa).

Em relação à narrativa, que embora seja estruturada em uma certa ordem de causas e efeitos, como levantado acima neste capítulo; tanto o prólogo, como a segunda parte da mesma é repleta de indagações ontológicas não respondidas. Nem o compêndio de referencias nas obras de arte, nem o fato do final do filme ser antecipado no início tornam a obra menos inquietante. O diretor não ousa trazer explicações para um possível fim do mundo ou uma razão que justifique o papel humano na existência. No final o que sobram são dúvidas. O que o diretor faria, em seu melhor seria formular uma pergunta que inspirou a aproximação da pesquisa com o autor Agamben. Ao deparar-se com o juízo final e quando os humanos olharem para os lados, teriam eles compreendido ou decifrado a distância que nos separa nos animais? De que serviria o conhecimento racional se a grandeza natural é incontrolável e o projeto humano parece ter fracassado?

No livro “O aberto”, o filósofo Agamben (2002) se debruça nos estudos de Heidegger para pensar sobre animalidade e humanidade. O interesse do filósofo seria investigar onde começaria o humano e terminaria o animal, partindo do pressuposto que o que separaria ambos seria a linguagem, mas tentando entender para além da linguagem não mais o que dividira o homem do animal, mas o que os uniria. Diante da descrença para com uma visão progressista, com o chamado fim da história, o fim

das utopias, a partir de vivências totalitárias do uso da linguagem como arma nociva, como foi o nazismo, Agamben propõe um exercício para que se pense além da linguagem.

Não é fácil dizer se a humanidade que tomou para si o mandato de gestão integral da própria animalidade ainda é humana, no sentido daquela humanitas que a máquina antropológica produziu, decidindo a cada vez entre o homem e o animal, nem é claro se o bem-estar de uma vida que não se sabe mais reconhecer como humana ou animal pode ser entendido como gratificante. (AGAMBEN, 2002, p. 126)

No livro o autor entende que o ponto de encontro entre o animal e o humano consistiria no tédio profundo. Que seria uma completa negação do estado da linguagem. O tédio profundo se assemelharia ao atordoamento animal (ao unwelt do carrapato que sua vida se baseia em uma serie de comportamentos automáticos diante do seu ambiente e desconhece outra forma de ser: nasce, cresce e se reproduz). O tédio seria um ponto de interseção ou mesmo a vivência da animalidade a partir de uma abstenção proposital da ação, mas não uma paralisação. O tédio, por assim dizer, não é passivo, na pausa do tédio existe a potência de todas as possibilidades do porvir.

O tédio também representa para Agamben um tipo de repouso diante de uma terra que precisa recuperar a fertilidade. E o usufruto dessa fertilidade não se dará especificamente mediada pela via da linguagem. A linguagem parece representada por Trier em Melancholia por tentar articular de forma amadora um projeto de vivência humana. A sensibilidade dos animais no estaleiro parece mais aguçada do que a dos personagens humanos no filme diante do choque entre os planetas. Para Agamben o tipo de percepção animal compreende o todo do universo a partir da vivencia individual. No lugar disso, o homem teria uma consciência da complexidade do mundo, de todo o ecossistema e a partir da convívio em sociedade medidado pela linguagem teria criado um código de conduta perante a natureza. Mas em um momento como a iminência do final da vida humana, o que sobraria desse projeto de humanidade? Desta compreensão da complexidade? O que sobraria além da convicção perante os desejos, os devires? Talvez apenas a latência do tédio. Desde o início do filme Trier parece tratar da incomunicabilidade entre os personagens. O carro que não consegue chegar no destino específico; uma mulher que não consegue se enquadrar em um tipo de narrativa tipicamente burguesa de casamento, trabalho - que consiste na manipulação dos sentimentos alheios, a própria publicidade - e morte.

Pelo fato desse fetiche não pertencer à Justine ela esta a margem, mas pensando sob a ótica agambeninana, qual seria o propósito deste tipo de vivência? Até que ponto ela dialoga honestamente com os devires animais do homem?

Agamben parece querer deslocar a palavra animalidade de um perjorativo no senso comum. Como criar modos de vida e experiências do viver a partir do ponto de vista da animalidade instrínseca humana? Seria necessário no lugar das investidas no próprio projeto humano, voltar a pensar a animalidade?

O verbo Brachliegen - que traduzimos por “tornar inativo” - provém da linguagem da agricultura. Brachen designa pousio, isto é, o campo que se deixa sem trabalhar para que se possa semeá-lo no próximo ano, Brachliegen significa deixar de pousio, isto é, inativo, não cultivado. Mas, de qualquer forma, revela também o significado do ser mantido em suspenso, como um segundo momento estrututal do tédio profundo. O ser mantido em suspenso, o tornar-se inativo são, por hora, as possibilidade específicas do Dasein, o se poder fazer isto ou aquilo. Mas esse se desativar das possibilidades concretas torna manifesta pela primeira vez aquilo que, em geral, torna possível (Ermoglichende), a possibiliade pura - ou como diz Heidegger, “a possibilidade orginária” (AGAMBEN, 2002, p. 109) Este vazio do tédio, esse abandono no vazio, esse ser deixado no vazio seria colocar em atividade através de uma prisão a determinado ente causador do estado de tédio um estado de latência, vivido por Justine no final do filme. De um lado existiria a condição animal do carrapato que isento de um pensamento complexo vive a tentar suprimir o atordoamento animal em saciar suas necessidades vitais e do outro o humano que se depara no tédio com momentos de uma latência pela latência, de uma possibilidade pura ao se render ao retorno inconsciente à animalidade.

In document KONSEKVENSER FOR KULTURMINNENE (sider 48-64)