De qualquer modo, a enorme expansão, relativamente recente, das novas tecnologias da informação, sobretudo da internet e dos dispositivos interligados representa uma novidade nesse quadro. Nos últimos trinta anos, o desenvolvimento técnico passou por uma fase de inédita aceleração e transformação cujo resultado altera a natureza mesma da comunicação de massa. A descentralização e o potencial interativo associado a essas novas tecnologias, em oposição à concentração e à unidirecionalidade dos meios tradicionais, nos obrigam a reelaborar o contexto da discussão teórica sobre a comunicação mediada. Embora a importância dos meios de comunicação de massa tradicionais não possa ser minimizada, é necessário levar em consideração a parcela significativa de pessoas que faz uso dos meios digitais e entra em contato, direta ou indiretamente, com emissores que não estão no centro do sistema, mas que acabam por se constituir como líderes de opinião intermediários116 (LIMA, 2012).
As modificações se originaram no que se convencionou chamar de “revolução digital”, ou a possibilidade de se armazenar textos, imagens e sons em dados, tornando o estoque e o transporte das formas simbólicas ainda mais eficiente. Tal avanço contribuiu decisivamente para a convergência tecnológica, que borra ou desfaz as linhas que separavam telecomunicações, informática e comunicação de massa. O que antes exigia uma série de diferentes suportes para as distintas formas de transmissão, atualmente foi substituído por redes integradas de utilização ampla. Se antes a comunicação de massa correspondia a uma produção significativamente centralizada de bens simbólicos que eram distribuídos quase que indistintamente a grandes públicos, o quadro hoje se alterou: os novos meios não se caracterizam por uma fonte central de produção e tendem, antes, a fragmentar a oferta de serviços em diversos segmentos do público. Além disso, a distribuição de produtos de som, imagem e impressos convergiram para o mesmo canal eletrônico, oferecendo, por vezes, a possibilidade de interação com os usuários, lhes permitindo maior controle sobre os produtos que consomem, quando e de que forma o fazem (Ibidem).
O aumento do acesso às novas fontes de informação tende a reduzir o grau de influência dos grandes veículos de comunicação sobre a cidadania, ao mesmo tempo em que faz crescer a importância das lideranças intermediárias, representadas nesse contexto pelos blogs de opinião e outras redes sociais, muitas vezes criados e fomentados por pessoas que estão fora do mercado dos meios tradicionais. Torna-se, portanto, mais ampla e complexa a cadeia de mediações entre os
media e a população em geral, alterando-se ainda a direcionalidade dos fluxos comunicativos.
Idealmente, a internet pode oferecer aos cidadãos uma pluralidade de pontos de vista indisponíveis nos grandes veículos. Nesse sentido, reelabora-se o papel de emissores e receptores, incrementando a diversidade de opiniões e de possibilidades de verificação acerca da veracidade das informações públicas. Dentre as alternativas postas por esse novo modelo de comunicação, tecnologias como os software livres e os telecentros relacionados entre serviços públicos essenciais potencialmente permitem a ampliação de espaços emancipatórios de comunicação através da rede (Ibidem: 24).
A convergência causou mudanças importantes para a relação entre comunicação e democracia, dentre as quais se destaca o novo padrão de propriedade dos media. Claro está que a nova estrutura tecnológica contribuiu sobremaneira para a emergência de poderosas cadeias de comunicação, que perpassam as antigas divisões entre meios impressos e eletrônicos. Ademais, estes novos atores possuem ainda a característica de estenderem o seu alcance para além das fronteiras nacionais, o que os gabarita a exercer influência global, tanto política quanto socialmente.
Conforme nos diz Feintuck (2006), a convergência tecnológica, junto à integração horizontal e vertical, representam o contexto essencial para discutir as funções da comunicação mediada na democracia. Se, por um lado, os novos meios tornaram possível certa fragmentação da produção e do consumo de informações, entretenimento, opiniões e discursos, por outro, também é verdade que a estrutura de propriedade encontra-se paulatinamente mais concentrada, tanto em nível nacional quanto em nível global (LIMA, 2012: 32). Assim, embora as empresas ligadas ao ramo dos novos
media não sejam capazes – ao menos não ainda – de ampliar o seu alcance sobre as massas, é certo
que as formas de sua expansão continuam no rumo da concentração oligopolista, pelo que podemos considerar as novas tecnologias como parte do sistema de comunicações de massa.
Ademais, muito embora o advento da internet possa ter modificado a relação entre falantes e ouvintes, os milhões de espaços fragmentados que ela fomenta parecem abrir caminho para a segmentação de uma imensa, mas politicamente limitada, audiência de massa em um número enorme de públicos focados em questões específicas. Essa característica não corresponde especificamente à imagem de um ambiente dialógico amplo e sem fronteiras, como é comumente propagado pelos entusiastas da rede; em verdade, ela se assemelha mais a uma imensa colmeia formada por uma infinidade de públicos que não se comunicam entre si. Os efeitos dessa formatação ainda haverão de ser conhecidos mais a fundo. O que se pode dizer de relevante até o momento é que eles transformam o sistema comunicativo, mas não eliminam nem tampouco substituem os meios tradicionais.
Os debates promovidos pelo ambiente virtual estabelecem alguma forma de comunicação política relevante, mas apenas na medida em que grupos de notícias se cristalizam em torno de pontos localizados da imprensa catch all (HABERMAS, 2006: 8-9). Dessa forma, as relações entre os diversos meios definem alguma forma de hierarquia informal, em que a própria imprensa e os jornalistas mais bem conceituados tornam-se uma espécie de líderes de opinião, que tendem a transbordar para os demais meios as informações que veiculam, bem como as interpretações acerca delas. A diferença fundamental é que, no atual contexto, estes líderes de opinião não se encontram necessariamente na “grande imprensa”, o que poderá impactar de maneira definitiva a relação dos cidadãos com a comunicação.