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januar 2008 av miljø- og utviklingsminister Erik Solheim

Campos (2004: 15) apóia-se no exemplo da cidade brasileira de Maringá para dizer que “a história de Maringá revela que muitas pessoas foram marginalizadas pela obsessão em torno do avassalador progresso subjacente à idéia da cidade planejada”. Os pesquisadores Fernandes e Pereira (2010: 178), utilizam o exemplo da capital mineira para dizer que “Belo Horizonte é um dos exemplos mais contundentes da natureza perversa das relações historicamente estabelecidas no país entre direito, planejamento territorial e mercados imobiliários”. Fernandes e Pereira (2010: 178) vão ainda acrescer que:

Em que pese o exercício sofisticado de ordenamento territorial que está na base dos planos originais, na falta de reserva de espaços na nova cidade, muitos dos seus próprios construtores formaram o que hoje se denomina assentamentos informais – muitos deles nos moldes das atuais favelas – antes mesmo da inauguração da cidade: 3 mil pessoas já viviam nesses assentamentos em 1895.

Ao fazer um estudo dos planos e projetos urbanos de Porto Alegre, Filho (2006) aponta que a confecção da cidade ideal coincide com uma fragmentação do espaço físico. Isso resulta em uma espécie de “puzzle frouxo” que equaciona a cidade num plano de idealização que não abrange a totalidade do seu território e, tão pouco, alcança a totalidade dos seus habitantes. Para Filho (2006: 328) “a cidade ideal é a soma de um continuum de pequenas ‘cidades dentro da cidade’, sem nenhuma pré configuração geral”.

A observação de que há nas periferias das cidades uma parcela de habitantes que não são capazes de gozar da cidade ideal ou, ainda, que a concepção idealista de cidade resulta na exclusão dessas pessoas, é o que põe em xeque slogans positivos como o de “cidade para todos” enunciados pela Prefeitura de Belo Horizonte ou “melhor destino” anunciado pela Câmara Municipal do Porto. A constatação de que as cidades idealizadas acabam por resultar em um restrito espaço, ainda ordenado pelos esforços do Estado, e que este pequeno centro fica margeado por espaços marginalizados, reforça nossa indagação sobre “para quem é feito a cidade que funciona”?

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a construção desses equipamentos públicos tem a ver com o pacto que se estabelecia entre Estado e família, quando se constitui o “lar” burguês: o poder na família é a garantia local para o cumprimento das leis do Estado. O Estado, por sua vez, fornece à família os meios para conter seus membros não integrados. Assim, ao mesmo tempo que se estrutura o lar - a casa isolada da família burguesa - os loucos, vagabundos e doentes da família são retirados do convívio com a cidade e “cuidados” pelo poder público.

Lynch (1970), ao observar as características nas quais consistiam o conceito de “limites” já apontava para a importância das mesmas enquanto ordenadoras do espaço social. Para ele, embora os limites não pudessem ser utilizados pelos cidadãos, tais quais são as vias, ainda assim são, para muitos, uma relevante característica organizadora, “particularmente quando se trata de manter unidas áreas diversas”. O autor, ao definir conceitos fundamentais do ordenamento espacial, atribuía aos limites físicos esse poder de organização social, no entanto, num estudo mais abrangente, observamos que, a organização dos grupos em espaços físicos distintos podem também ser contemplados por limites que são intangíveis.

Com base nisso, passamos a pensar a cidade sempre considerando, que existem nelas “fronteiras imaginárias” (ROLNIK, 1988). É de suma importância destacar que essas fronteiras são essenciais na construção da sua versão idealizada pois, se a cidade ideal está atrelada a ideia de uma cidade funcional, o Estado atua de modo a construir aparelhos efetivos, que pretendem “confinar, sob vigilância permanente, uma população marginal que desafia e ameaça a fluidez da máquina-cidade” (ROLNIK, 1988. p. 61).

Assim, nesse ponto, é necessário assumirmos que, se existe um projeto de cidade ideal que avança de maneira desigual para a população que habita o território dessa cidade, é igualmente necessário promover meios pelos quais a discrepância não seja sentida ou, ao menos, que essa discrepância não resulte num levante ou na geração de demandas que ponham em risco o avanço da cidade ideal (que como já foi dito, não avança de maneira igualitária).

Se reflexões como essa nos ajudam a derrubar o mito, amplamente difundido, “de que o padrão excludente da urbanização do Brasil seria resultado da falta de planejamento urbano” (FERNANDES, PEREIRA, 2010: 178), e se, ainda Belo Horizonte pode ser eleita como um exemplo de que o planejamento urbano não foi ainda capaz de sanar questões mais profundas da exclusão social, cabe agora entender onde a cidade do real corresponde (ou não) à cidade da propaganda. Mais do que isso, cabe verificar se a cidade publicada nos vídeos permite, de fato, a sua acepção.

Como observa Filho (2006), no caso porto-alegrense, a busca pela cidade ideal produz uma cidade analógica, uma cidade ideal impura, feita de várias cidades ou projetos de cidades, uma cidade feita de colagens. No entanto, a fragmentação dessas cidades (seja em Porto Alegre, em Belo Horizonte, ou no Porto) produzem um fenômeno claro e costumeiro nas entranhas do capitalismo que é: o inverso da pluralização dos espaços e a construção de um lugar de muitos feito para poucos.

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Se, na década de 1980, autores como Pedrosa (1981, apud BOMENY, 2002: 218) acreditavam que a cidade ideal moderna reclama para ela uma estrutura humana através da qual possa expandir-se e restaurar a coesão social perdida, o que acompanhamos ainda hoje, quase 40 anos depois, é que o sonho não se realizou. Pensar que o alcance da Cidade Ideal, analisada por este autor, passava por “conciliar a ordem, a técnica urbanística mais avançada, um desenvolvimento planejado, com o calor humano e o convívio social direto de seus habitantes, como na época da comuna” (PEDROSA, 1981, apud BOMENY, 2002: 218) é reconhecer que, ao menos até agora, os poderes políticos e a sociedade como um todo continua listando muito mais fracassos do que sucessos.

De maneira contundente, o que se observa na prática, nos planos oferecidos pelas cidades analisadas neste trabalho, é que não há passos sólidos na direção da construção de um reviver dos tempos de comuna ou, na direção de modelos de sociedade de relações igualitárias e acessos universais. O que se demonstra nos casos práticos é que o que há, de fato, é uma intenção de construir um lugar que funcione, uma máquina que não pare, mesmo que seja necessário marginalizar uma parcela dos habitantes que deveriam ser beneficiados por esta maquinagem.

O que aqui está dito é que as administrações públicas, limitadas pela dificuldade de transformar em fato o seu seu interesse de manipular perfeitamente os territórios submetidos à suas gestões, concentraram então, no plano da comunicação, os esforços para consumar uma cidade ideal. Em outras palavras, Não sendo ainda essa cidade ideal uma realidade, é oferecida aos cidadãos uma “cidade cenográfica”, minimamente calculada, pretendendo, assim, uma aliança, resultante da confiança daqueles que a estão vendo com aqueles que estão promovendo essas imagens.

Vale ressaltar de que, em nenhum momento ou abordagem pretende-se neste trabalho acusar essa construção de uma construção mentirosa. Afinal, como bem afirma Baldan (1988: 49) “Verdade e mentira são, portanto, integrantes dos efeitos de sentido de todo e qualquer ato de interpretação discursiva”. O que se busca neste trabalho é verificar em que medida há, nessa transcrição de cidade do real para a cidade do vídeo, uma uma construção mitológica que, como bem observa Barthes (2001: 143): “tem como função deformar, não fazer desaparecer”.

Assim, acreditamos que a cidade idealizada nos vídeos é uma versão deformada da sua matriz. A “cidade cenográfica” não é produzida na esfera física, tão pouco é constituída de asfalto, carros e prédios. Ela é feita de imagem, discurso e intenção e, ainda, concebida na esfera comunicacional. Assim sendo, faz-se necessário entendermos como uma cidade pode ser construída dentro do espaço da comunicação.

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