CAP. IV
PLANTACOMINDICAÇÃODASIGREJASDOBISPA- DODE COCHIMNOSFINAISDO SÉCULO XIX
camente, marca uma ligação entre a terra e o céu. Este corpo torreado é constituído por dois andares, sendo o superior pontuado por pequenas frestas ou orifícios que conferem ao conjunto um aspecto de reduto defensivo.
Mais interessante e abrangente, manifestando-se nas igrejas das duas comunidades é a evolução do seu programa arquitectónico evidenciando-se a progressiva formação de um modelo de igreja com galerias laterais de arejamento e protecção solar, numa clara adequação ao clima equatorial. Desenvolvendo-se ao longo das fachadas laterais, estas galerias vão-se abrindo a pouco e pouco em largas varandas so- bre uma galeria de colunas, num processo de evolução que apresenta claras afinidades com as transformações operadas, no mesmo período, no modelo de casa colonial, com o rasgamento da fachada em largas varandas ao nível do andar nobre, sobre uma galeria de arcos de volta perfeita, no piso térreo.
Tal como na arquitectura doméstica as mutações evoluem a partir de um primeiro modelo directamente importado da Europa e im- plantado nas primeiras décadas de fixação. Nesses primeiros tempos, de instalação, reconhecimento e aprendizagem, às primeiras feitorias sucede a construção de sistemas de defesa, face a uma realidade instável e de conflito fomentada pelos grupos islâmicos que, até aí, controlavam uma sofisticada rede comercial, com vastas ramificações internacionais que os portugueses se propunham substituir.
A evolução favorável dos acontecimentos vai determinar que a quase totalidade dessas primeiras construções tenham sido profunda- mente transformadas em favor de uma arquitectura de maior escala e perenidade.
Neste âmbito, o conjunto dos desenhos de Gaspar Correia incluídos nas suas Lendas da Índia, relatando as primeiras décadas da vida dos portugueses no Oriente, revela-se de grande significado. Com um grau de qualidade muito diferente entre as diversas representações, dois desenhos emergem neste conjunto pela sua grande precisão e rigor: Diu e Cananor.
Aí, a imagem das pequenas igrejas e casario destas duas cidades remete-nos para uma arquitectura transportada directamente através
EMCIMA. PORMENORDACASADOGOVER- NADORDE COULÃO. EMCIMA, ÀDIREITA.
PORMENORDEIGREJAEALPENDRENA FORTALEZADE CHALLEIN GASPAR CORREIA,
do oceano. Num olhar mais atento, porém, vamos notando pequenos pormenores que se prendem com opções formais e tipológicas mais adequadas ao clima. Nesta linha encontram-se os alpendres que vemos serem introduzidos em igrejas e edifícios militares, demonstrando uma primeira fase de adaptação.
A par da sua iconografia, o texto de Gaspar Correia é atravessado por referências a uma opção por espaços de vivência quotidiana ao ar livre. Relativamente a Cochim o autor refere que, em 1506, “...à porta da for- taleza fizerão grande alpendurada com bancos e assentos lavrados muy concertados”265 . Encontramos também menção a alpendres acumulando
funções religiosas quando as igrejas não tinham dimensão suficiente, como é o caso de Goa em que se “...ordenou que dentro do castello em huma varanda das casas que era grande se dixessem as missas...”266
Quanto à arquitectura religiosa as representações de Gaspar Correia de Diu e de Cananor são pontuadas por pequenas igrejas com fachadas de remate triangular, telhados de duas águas e torre sineira adossada à fachada, numa morfologia muito semelhante às igrejas paro- quiais implementadas no território português no período manuelino.
Neste período o portal de entrada era o elemento mais signifi- cante, conferindo, por si só, uma nota de estética manuelina a todo o conjunto edificado. Encontramos, ainda hoje, portais deste tipo em igrejas de época posterior, o que indicia uma prática que entrou na construção mais corrente. São disso exemplo os actuais portais tanto da Igreja de Mattancherry como de Vaipin, em conjunturas de tendência maneirista dos finais do século XVI. A estes dois portais podemos acrescentar, ainda, um outro de desenho mais ingénuo, situado um pouco mais afastado de Cochim, na igreja do Menino Jesus, em Ernakulam, confirmando um hábito arreigado que entrara na construção mais comum de igrejas paroquiais e capelas.
É também bastante significativo que os franciscanos na cidade de Goa ao realizarem, no século XVII, grandes obras na sua igreja deslo- quem o antigo portal manuelino para a nova fachada. Esta preocupação permite supor que os franciscanos, em constante litígio com os jesuítas, ao enfatizar o portal manuelino, quizessem marcar os seus direitos régios e primazia como primeira ordem a chegar à Índia.
Como variante à tipologia mais comum de torre sineira ados- sada a um dos lados da fachada, como encontramos nos desenhos de Gaspar Correia, verificamos a existência de casos de torre sineira sobre a entrada principal acumulando funções de defesa e vigia, ou ainda colocada de uma forma autónoma afastada do corpo da igreja. Estas torres respondiam a uma realidade marcada por conflitos com pequenos poderes locais e à existência de frequente pirataria que da costa subia pelos rios, pilhando aldeias e pequenos aglomerados.
É este contexto que determina um conjunto de opções por pro- gramas de igrejas com torre central, como é o caso da igreja do Rosário de Goa. Desta mesma tipologia era a primeira Sé de Goa, como nos
265 Correia, Gaspar – Lendas..., cit. supra., vol. I, p. 641.
266Idem, Ibidem, p. 158.
PORTALDEESTÉTICAMANUELINA. IGREJADE N. S. DA ESPERANÇADE VAIPIN. COCHIM
confirma um documento de 1529 ao descrever o andamento das obras com “huma torre que se fazia diante da porta principal della, esta em altura do primeiro sobrado”267 .
Pela análise da sua planta, é também esta tipologia de torre que se depreende ter caracterizado a igreja de São Francisco de Cochim268 ,
que hoje se apresenta significativamente alterada por via da posterior ocupação holandesa.
A tipologia mais simples e comum de torre sineira lateral, que terá marcado as primeiras igrejas da cidade de Cochim, circulou para os seus arredores e interior do território numa progressiva aproximação aos cristãos de São Tomé. O início desta expansão é relatado por Frei Lourenço de Goes em carta datada de 1536 em que informava o rei D. João III que: “um cristão destes muito velho e honrado que se chama Simão e vive nove ou dez léguas de Cochim. Eu fui ja em sua casa. Este
269Rego, A. da Silva – Documenta-
ção.., cit. supra, vol. II, p. 245
270Lukas, P. H. Ancient Songs of the
Syrian Christians of Malabar..., cit.
supra, 1910, p. 61
foi o primeiro que fez igreja ao noso costume”269
A chegada deste modelo de igreja tardo-manuelina ao interior do território pode ser comprovada pela actual Igreja de Santa Maria de Valiyapally em Kottayam cuja data de construção, em 1550, se encon- tra registada nos seus antigos cânticos de fundação270 . A edificação de
Valiyapally corresponde a um primeiro envio de padres do seminário de Cranganor para os territórios dos reis de Diampar e Vadakkumkur conforme Frei Vicente de Lagos dá notícia em carta ao rei D. João III em 1549. O reino de Vadakkumkur de que Kottayam é capital corres- pondia ao reino da Pimenta referido na documentação portuguesa, cuja comunidade knayan mantinha uma situação privilegiada na produção e comércio da pimenta. Na envolvente da igreja de Valiyapally situa-se actualmente o bairro de Thazhangady cujas grandes casas de antigos comerciantes knayan nos mereceram particular atenção dado o seu estado de conservação.
A preservação desta igreja nas suas linhas primitivas, parece
PLANTA, PORMENORDEFACHADAEALTAR LATERALCOMCRUZDE SÃO TOMÉEMGRANI- TO. IGREJADE SANTA MARIADE VALIYAPALLY. KOTTAYAM. 268 Dias, Pedro - História da Arte
Portuguesa no Mundo..., cit. supra,
p. 186
267Rego, António da Silva – Docu-
mentação..., cit. supra., vol. II, p.
relacionar-se com o carácter sagrado de que se revestem duas cruzes em granito, com inscrições em Pahalavi, da época sassânida, trazidas de Cranganor e que se encontram nos seus altares laterais.
No seu conjunto Valiyapally caracteriza-se por uma fachada mui- to simples, idêntica às observáveis nas representações de Gaspar Correia para Diu ou Cananor. De pequenas proporções, a fachada apresenta um óculo simples sobre a entrada e remate triangular, acusando os telhados de duas águas, e torre sineira adossada no seu lado Sul.
No interior, a estrutura do telhado, embora restaurada, mantém as primitivas traves horizontais de reforço da estrutura, decoradas em talha e reforçadas por cachorros em formas de leões e elefantes. Preser- vado na sua forma primitiva, o altar-mor apresenta uma rara cobertura de grande refinamento: um tecto em madeira de estrutura engradada, de tradição hindu, com aplicação de pequenos querubins.
Digno de nota é o portal de entrada, com moldura em granito, rematada por arco de volta perfeita de inspiração clássica, decorado com elefantes e animais exóticos.
A data de construção da igreja, pelos anos cinquenta do século XVI, é atestada, igualmente, pelo retábulo do altar-mor, dedicado a Nos- sa Senhora, cuja composição, desenho renascentista e pormenorização acusa uma manufactura portuguesa do terceiro quartel do século XVI.
Na sua morfologia exterior a igreja de Valiyapally apresenta ainda um particular interesse dada a presença de uma galeria que corre junto da torre sineira. De uma forma similar à casa paroquial de Chellanam, que estudámos no capítulo referente à casa colonial, este espaço ainda semi-fechado corresponde a uma primeira fase de formação da tipologia de varanda. Situada na fachada Sul, esta galeria caracteriza-se por um desenho com uma sequência de janelas avarandadas em arco redondo com balaústres de madeira. Nas suas funções de arejamento e protecção solar esta galeria acusa uma fase de transição para as galerias abertas em
VISTAGERALEPORMENORDEJANELADEGA- LERIA LATERAL. IGREJADE SANTA MARIADE VALIYAPALLY. KOTTAYAM.
varandas de colunas que veremos divulgar-se no século seguinte. A igreja de Santa Maria de Valiyapally é hoje um caso isolado no contexto dos Cristãos da Serra, preservada graças à veneração das suas antiquissimas cruzes em granito provenientes de uma igreja mais antiga situada em Cranganor. Colocadas em dois altares laterais estas cruzes apresentam inscrições em Pahalavi, língua oficial da dinastia sassânida, sendo atribuídas ao século VIII.
Outro caso isolado no contexto das igrejas macúas é a Igreja de Santo Agostinho de Arror a Sul de Cochim que segue uma tipologia de igreja com torre adossada à fachada, mas com um desenho clássico, de pilastras toscanas, que repete de uma forma quase miniaturizada o programa de São Roque, em Lisboa.
A localização de Aroor, nos arredores de Cochim, a par do seu desenho de inspiração renascentista sugere a influência de uma primeira fase da arquitectura jesuítica cujos modelos de referência se terão perdido pela demolição dos grandes edifícios religiosos situados no interior da cidade. Por outro lado, o despojamento decorativo e o rigor geométrico das morfologias em Aroor denota influências de uma estética de arquitectura chã que parece ter tido um reduzido impacto em todo o Sul da Índia.
A ausência de mestres das obras reais, substituídos pelos padres jesuítas, e a propenção autóctone para uma acentuação decorativa, leva a arquitectura religiosa a evoluir rapidamente para uma estética de pendor maneirista que veremos alastrar, a partir das últimas décadas do século XVI, por todo o território do Kerala, desaparecendo, na generalidade, as igrejas de tipologia até aí mais comum, de uma nave simples, com fachada de remate triangular e torre sineira adossada a um dos lados, devido à sua simplicidade e reduzida escala.
2 A IGREJA MANEIRISTA DE FACHADA RETÁBULO Presentes na cidade de Angamaly e espalhando-se pontualmente pelo território do Kerala, observa-se um conjunto de igrejas de cristãos de São Tomé, de tendência maneirista, com um desenho erudito de base tratadística, que sugerem um modelo de referência irradiando a partir daquela cidade.
António Gouvea confirma-nos este facto ao referir no texto da sua Jornada que “... Angamaly tem três igrejas grandes”271 . Ao mencionar
o facto de serem « igrejas grandes» o autor clarifica que se trata de igrejas construídas ao modo português, dado que as antigas como vimos se caracterizavam por estruturas em madeira de pequenas proporções.
A construção destas igrejas concentrada entre os finais do sé- culo XVI e primeiras décadas do século XVII, coincide com uma nova fase de bom relacionamento entre os portugueses e os cristãos de São Tomé que, implementada pelos jesuítas, é apoiada por um novo semi-
FACHADADA IGREJADE SANTO HORMISDAS. ANGAMALY 271Gouvea, Fr. António – Jornada
do Arcebispo D. Frei Aleixo de Me- nezes..., cit. supra., p. 87
nário construído perto da cidade de Angamaly, mais concretamente em Vaipicota. Nesta operação os portugueses contavam com o apoio do arcebispo Mar Abraão que assumira, em 1565, a chefia de um novo arcebispado criado pelo Papa, com sede, precisamente, em Angamaly. Depois de alguns anos de delicadas negociações, em 1577, as autoridades portuguesas celebram com intervenção do próprio rei de Cochim, um acordo oficial com Mar Abraão272 . A assinatura do acordo, que impli-
cava a aceitação oficial dos jesuítas na diocese, teve lugar em Cochim, com grande pompa, fazendo-se o arcebispo de Angamaly acompanhar por uma extensa comitiva “de cerca de mil christãos com suas armas e com a grita que costumam os malabares (...) era gente mui lustrosa e appesoada”273 .
O início deste ciclo de boas relações é atestado por um grande retábulo de altar-mor da actual Igreja Jacobita de São Tomé de Mulanthu- ruthy com pinturas datadas de 1575. Além da data, cada uma das quatro pinturas apresenta, no verso, indicações em português para a localização exacta de cada tábua no retábulo, indiciando que o mesmo teria sido realizado em Cochim e depois enviado para esta igreja do interior.
As igrejas que encontramos na região de Angamaly caracterizam- -se por uma fachada de composição clássica de três tramos, sem torres laterais, semelhante às primeiras igrejas edificadas em Goa segundo o esquema do Bom Jesus. A sua erudição, face às igrejas macúas da zona de Cochim, revela-se por uma maior proximidade, em termos do desenho
273in Rego, A. da Silva – Documenta-
ção .., cit. supra., vol. XII, p. 379
272 “Acabou se de concluir a comuni-
cação e amizade que se desejava com o arcebispo dos cristâos de são Tomé e a entrada na Serra”, Annua de 1577
do Colégio de Cochim, Coulão, Costa de Travancor, e da Pescaria, in Rego, A. da Silva – Documentação..., cit. supra, vol. XII, p. 379
de fachada, a um léxico tratadístico que parece encontrar as suas fontes nos livros de Sérlio e Vignola que terão circulado para o Oriente.
Tal como as igrejas de Goa do mesmo período, as fachadas são divididas em vários andares, com entablamentos salientes que a percorrem de lado a lado, assinalando essa divisão. A esta marcação da horizontalidade com fortes cornijas, associa-se uma compartimentação
EM CIMA À ESQUERDA. VISTA GERALDA IGREJADE KADAMATTOM. DISTRITODE ER- NAKULAM.
EMCIMA. RETÁBULODA IGREJAJACOBITADE SÃO TOMÉDE MULANTHURUTY. DISTRITO DE ERNAKULAM
vertical, com colunas geminadas e pilastras, cuja tendência decorativa é acrescida pela introdução de molduras, nichos, baixos relevos de anjos, animais e elementos florais. Se esta acentuação responde a uma mundividência indiana marcada por uma rigorosa hierarquização da sociedade que tende a determinar um lugar e um plano para cada um dos seus elementos, a dependência entre este esquema e o dos grandes retábulos do altar-mor são evidentes.
A especificidade deste esquema, que veremos repetir-se pos- teriormente de uma forma sistemática, prende-se com o uso de fortes pilastras toscanas nos extremos da fachada sendo o tramo central mar- cado por pares de colunas mais delicadas de ordem coríntia. As fortes pilastras laterais são ainda divididas em almofadas acentuando a sua função de moldura no prospecto da fachada. Este contraponto propicia
275Gouvea, Fr. António – Jornada..., cit. supra., p. 87 274Archivio Secreto Vaticano, Nun- ziatura di Portogallo, fls. 316-317.
Carta do Rei de Cochim ao Papa Gregório XIII transcr. in Indian
Church History Classics– The Nazranies. Ed. George Menachery,
The South Asia Research Assistance Services, Thrissur, India, 1998, vol. I, pp. 152-153
a uma concentração da atenção no tramo central, marcado pela sequên- cia axial do portal de entrada, janela tribuna, nicho com o padroeiro da igreja, e remate final em frontão.
O programa interior é de uma nave simples. Um arco triunfal na passagem para o altar-mor emerge no espaço pelas suas proporções e fortes molduras, com decoração semelhante à do portal de entrada. A partir dos capitéis deste arco desenvolve-se uma sanca com uma forte arquitrave com misulas clássicas que, correndo ao longo do interior da capela-mor, lhe imprime um marcado sentido arquitectónico.
Internamente, junto à entrada principal, levanta-se o coro alto, em estrutura de madeira, acusado no desenho da fachada pela marcação de um piso intermédio. Esta marcação estabelece um afastamento a nível de programa global, com as igrejas italianas da mesma época, cujo coro se localizava junto do altar-mor, desenhando-se a fachada principal sem qualquer sinal de piso intermédio.
Numa análise comparativa das igrejas deste período, a igreja de Santo Hormisdas em Angamaly, pelas suas características, apresenta--
PORMENORDOFRONTESPÍCIODAFACHADA DA IGREJADE SANTO HORMISDAS.
se como o exemplo mais erudito deste conjunto sugerindo o desen- volvimento de uma série que, a partir deste primeiro modelo, se foi generalizando, por repetição, a todo o interior do Kerala. Embora num esquema idêntico, as métopas, tríglifos, mísulas e pirâmides que vemos em Santo Hormisdas vão-se diluindo nas igrejas que se desenvolvem a partir do seu modelo. Uma petição dos jesuítas ao Papa274 , datada de
1577, confirma esta interpretação sobre a construção de Santo Hormis- das. A igreja aparece aqui como uma construção de iniciativa do próprio bispo Mar Abraão, coincidindo a data da sua construção com o início do estabelecimento de relações de cooperação entre jesuítas e bispo. A importância e significado de Santo Hormisdas é, ainda, acrescida pelo facto de ter sido construída para sé-catedral do arcebispado275 , sendo
aqui que Mar Abraão escolherá o lugar para sua morada eterna276 .
277Wicki, Joseph, Documenta
Indica, Monumenta Historica
Societatis Iesu, Roma, vol. VII, p.16
O carácter inaugural de Santo Hormisdas é-lhe também con- ferido pela abóbada de canhão que cobre o altar-mor, que veremos repetir-se como norma, nos séculos seguintes, em todas as igrejas dos cristãos da Serra. A introdução desta abóbada corresponde a uma nova tecnologia construtiva que exigia a presença de um mestre arquitecto com larga experiência que, vindo de Cochim, a pudesse ensinar aos mestres pedreiros locais. Caso primeiro e único no conjunto deste tipo de abóbadas da capela do altar-mor, a de Santo Hormisdas é ainda lisa, sem os caixotões que irão marcar o desenho das abóbadas de todas as igrejas posteriores.
Tanto pelas suas características construtivas como pelo seu rigo- roso desenho de inspiração tratadística, Santo Hormisdas teria requerido para a sua edificação um padre jesuíta com formação académica e larga experiência construtiva. Acontece que na década de 70 se encontrava em Cochim como encarregado das obras do Colégio jesuíta desta cidade, o padre Martim Ochoa. Nascido em Cáceres este padre tinha partido para o Oriente em 1567277 e entre os anos de 1568-9 esteve à frente das obras
PLANTAEVISTAINTERIOR DA IGREJADE SANTO HORMISDAS. ANGAMALY
276Mackenzie, G. T. «Christianity in Travancore». in Indian Church
History Classics –The Nazranies.
Ed. George Menachery, The South Asia Research Assistance Services, Thrichur, India, 1998, vol. I, p. 119
da igreja de São Paulo de Goa278 .