5. RESULTADOS
5.1. Jácenas
O ambiente natural exerce influências notáveis sobre os padrões reprodutivos das unidades de produção camponesa, pois condicionam as condições de produção, especialmente, as épocas e a qualidade dos investimentos, assim como os custos de produção e distribuição. Sternberg (1998) descreveu o fragmento dos ecossistemas predominantes no complexo territorial formado por municípios do Subpolo Três como as várzeas, constituídas de fimbrias de terras alagadiças às margens dos rios, as terras firmes, terrenos a cavaleiro das grandes enchentes sazonais, geralmente, iniciadas no primeiro semestre do ano e seguidas pela estiagem a partir do segundo semestre. O território é permeado por vasta capilaridade fluvial oriunda dos rios principais e recoberto pela floresta ombrófila.
As condições climáticas adequam-se ao Sistema Köppen à classe Af – clima
tropical úmido ou clima equatorial. Essa classe é caracterizada por uma estação chuvosa, que
acompanha a elevação dos níveis dos rios e lagos, e uma estação de estiagem – seca – na qual ocorre o fenômeno da vazante, ou seja, a redução dos volumes de precipitação e dos níveis das águas (Köppen, 1948). A Tabela 4 e o Gráfico 1 apresentam os dados extraídos do Banco de Dados Climáticos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) para Manaus, que ora servem de referência para as considerações sobre os municípios do seu entorno.
Tabela 4 – Balanço hídrico médio mensal – Manaus – 1961-1990
MÊS TEMPERATURA MM (ºC) PRECIPITAÇÃO MM (mm) ETR (mm) DEF (mm) (mm) EXC Janeiro 26,1 260 128 0 132 Fevereiro 26 288 117 0 171 Março 26,1 313 131 0 182 Abril 26,3 300 130 0 170 Maio 26,3 256 133 0 123 Junho 26,4 114 129 -1 0 Julho 26,5 87 120 -16 0 Agosto 27 58 89 -58 0 Setembro 27,5 83 94 -59 0 Outubro 27,6 126 129 -32 0 Novembro 27,3 183 151 0 0 Dezembro 26,7 217 144 0 12 Médias 26,34 190,42 124,58 -13,83 65,83 Fonte: Banco de dados climáticos da EMBRAPA.
117 0 50 100 150 200 250 300 350
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
ºC e mm
PRECIPITAÇÃO MM (mm) ETR (mmm)
Mota (2003) trabalhou com dados em série correspondentes a interstício entre 1973 e 2002, obtidos na Estação Experimental da EMBRAPA do Centro de Pesquisa Agroflorestal da Amazônia (CPAA) situada a 25 km ao leste de Manaus, localizada em 3º08’ sul, 60º12’ oeste e 90m de altitude ao nível do mar. Por meio dessa série, o autor obteve uma média anual de 26,11 ºC e uma moda de 25,6 ºC. O banco de dados climáticos do Brasil da EMBRAPA para o período entre 1961 e 1990 – ver Tabela 4 – apresenta uma média mensal de 26,7 ºC e uma precipitação média mensal de 190 mm, sendo menor nos meses de julho a setembro, com 76 mm médios, e maior nos meses de fevereiro a maio, uma média de 289 mm mensais. A evapotranspiração mantém-se em torno 124,58 mm mensais, mas se reduz, distanciando-se dessa média nos meses de agosto e setembro.
Gráfico 1 – Ciclo hídrico médio mensal de Manaus, 1961-1990. Fonte: Banco de dados climáticos da EMBRAPA.
118 -200 -150 -100 -50 0 50 100 150 200 250
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
ºC e mm
DEF (mm) EXC (mm)
O balanço hídrico, isto é a relação entre deficiência e excedente hídrico está apresentado no Gráfico 2. O excedente hídrico inicia seu crescimento nos meses de novembro e atinge o ápice em março, decrescendo até junho. Entre junho e novembro, ocorre deficiência hídrica em função da redução nos índices de pluviosidade e pela redução dos níveis das águas. O movimento das águas nos anos da pesquisa, 2007 a meados de 2009, foi analisado com os dados fornecidos pela Companhia de Pesquisa em Recursos Minerais (CPRM) e pela Agência Nacional de Águas (ANA). Os dados da CPRM Manaus coletados nas Estações de Manacapuru – S03º18’30”, W60º36’34”, Manaus – S03º08’12”, W60º01’37” – e Careiro – S03º11’44”, W59º49’59” – estão apresentados através dos Gráficos 3, 4 e 5, respectivamente. O comportamento das cotas é quase homogêneo nas três estações com a subida das águas iniciando em outubro, atingindo o ápice entre junho e julho do ano seguinte e decrescendo desde junho a até sua fase mais baixa em outubro. Este regime do movimento das águas é crucial nas decisões de investimentos em plantios e criações de gado bovino e bubalino nos ecossistemas de várzea. A partir da percepção da velocidade da descida das águas e das reversões nessa tendência são escolhidas as culturas, em função do tempo dos seus ciclos produtivo, e os deslocamentos dos rebanhos da terra firme para a várzea ou dessa para os campos de terra firme.
Gráfico 2 – Balanço hídrico mensal de Manaus, 1961-1990. Fonte: Banco de dados climáticos da EMBRAPA.
119
Gráfico 4 – Variações nas cotas anuais – Estação Manaus – 2007-2009. Fonte: CPRM Manaus. Elaboração do autor (2009).
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Cotas (cm)
2007 2008 2009
Gráfico 3 – Variações nas cotas anuais – Estação Manacapuru – 2007-2009. Fonte: CPRM Manaus. Elaboração do autor (2009).
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Cota (cm)
2007 2008 2009
120
Os Gráficos 6, 7 e 8 apresentam as relações entre as cotas e precipitações coletados entre 2006 e 2008 na Estação do Paraná do Rio Madeirinha, em Autazes – S03º34'35.00” W59º08'02.00”. 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
(cm)
Cotas 2006 Chuvas 2006
Gráfico 5 – Variações nas cotas anuais – Estação Careiro – 2007- 2009. Fonte: CPRM Manaus. Elaboração do autor (2009).
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
Cotas (CM)
2007 2008 2009
Gráfico 6 – Relações entre as cotas e os níveis de precipitação – Estação Autazes – 2006. Fonte: ANA. Elaboração do autor (2009).
121 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
(cm) Cotas 2007 Chuvas 2007 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000 4500 5000
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
(cm)
Cotas 2008 Chuvas 2008
Nota-se que os regimes de subida e descida das águas apresentam maior regularidade; enquanto as precipitações têm sido mais irregulares durante o período. Entretanto, nos três anos ocorrem decréscimos entre março e maio, tendência cuja reversão ocorre entre julho e agosto. Este regime é importante para os cultivos a céu aberto não- irrigados tanto nos ecossistemas de várzea – hortaliças – quanto nos de terras firmes – geralmente, roçados de Mandioca (Manihot esculenta) e Macaxeira (Manihot utilissima). Deste modo, a irregularidades das chuvas impactam consideravelmente os rendimentos destes plantios com baixos índices de aporte tecnológico.
No que diz respeito à caracterização, Ab'Saber (2002, p. 7) é deveras cuidadoso quanto aos ecossistemas amazônicos e adverte sobre a precariedade das descrições simplificadoras:
Gráfico 7 – Relações entre as cotas e os níveis de precipitação – Estação Autazes – 2007. Fonte: ANA. Elaboração do autor (2009).
Gráfico 8 – Relações entre as cotas e os níveis de precipitação – Estação Autazes – 2008. Fonte: ANA. Elaboração do autor (2009).
122
Uma reflexão mais demorada sobre os ecossistemas ocorrentes no domínio morfoclimático e fitogeográfico da Amazônia brasileira guarda um interesse científico e didático. O fato de a região ter sido apresentada sempre como o império das florestas equatoriais, de disposição zonal, acarretou distorções sérias nos estudos dos ecossistemas regionais. É certo que, em termos do espaço total amazônico, predominam esmagadoramente os ecossistemas de florestas dotadas de alta biodiversidade. Entretanto, se levarmos em conta o conceito original de ecossistema, independentemente das disparidades espaciais de sua ocorrência, chegaremos a um número bem maior de padrões ecológicos locais ou sub-regionais.
Após essa discussão conceitual, Ab’Saber (2002, p. 8-9) caracteriza uma fração do ecossistema amazônico do qual se trata aqui:
A fímbria estreita de terraços arenosos eventualmente existentes na beira do tabuleiro de Manaus talvez tenha se formado durante os impactos pedológicos e climáticos do ótimo climaticum. Mesmo que não existam largas e continuas planícies aluviais no baixo rio Negro, ocorrem diversos ecossistemas diferenciados na região de Manaus: matas baixas, das anavilhanas; igapós a partir dos diques marginais engastados na beira alteada do rio Negro; buritizais e buritiramas e outras palmáceas em faixas deprimidas dos tabuleiros regionais; campinas e campivaranas em terraços de areia branca ou manchas arenosas mal pedogenizadas de interflúvios; e, por fim extensas florestas biodiversas de "terra firme". [...] O Amazonas permanece centralizado no meio da grande planície que construiu ou (re)elaborou no decorrer do Holoceno. O rio se destaca bem no meio das terras baixas, parcialmente submersíveis, embutidas entre tabuleiros. Aqui não é o rio que se estende de "barreira" a "barreira" da outra margem. Sem a sua planície aluvial, o rio tem de quatro a seis quilômetros de largura; a planície que ele elaborou por processos hidrogeomorfológicos possui de 14 a35 quilômetros de extensão lateral. Trata-se de um mosaico terra-água labiríntico, extremamente diversificado: diques marginais baixos outrora florestados, ultrapassados pelas águas durante as grandes cheias; florestas de várzeas altas em alguns setores em que a planície encosta-se na base dos tabuleiros; réstias de florestas biodiversas em diques marginais interiorizados; campinas em volutas de areia branca de riachos meândricos já desaparecidos; vegetação herbácea ou campestre em leitos abandonados; capins nativos nas bordas de lagos de várzea, expostos ou submersos, em função da retração ou re-expansão das águas. E, por fim, uma assimetria berrante de ecossistemas nas margens dos paranás, em um caso em que florestas de terra firme recobrem tabuleiros, barrancas altas ou taludes de terraços da banda interna dos aludidos canais laterais descontínuos (os falsos rios dos franceses; o yazoo river dos norte-americanos), enquanto da outra banda estende-se uma multidão de ecossistemas terrestres, aquáticos e subaquáticos das planícies aluviais labirínticas. Na faixa deste verdadeiro mosaico terra/águas, interposta entre o Paraná e o rio Amazonas propriamente dito, ocorrem ecossistemas muito diferenciados entre si, ainda que pertencentes a uma só família do ponto de vista hidrogeomorfológico.
A longa citação anterior há de ser suficiente para retratar a complexidade natural dos ecossistemas em que se desenrolou o processo histórico de ocupação humana, cuja formação econômica tem permanecido fortemente associada à exploração dos recursos disponíveis neste ambiente bem como à sua dinâmica climática.
A propósito, este modo específico de relação entre homem e natureza é marcado, na hipótese de Sternberg (1998), pela presença intensa do elemento água na paisagem, vinculando a dinâmica da ocupação humana e os usos que essa faz dos recursos naturais ao movimento das águas.
123
Quanto às relações entre a água e a sociedade humana, o elemento líquido é universalmente condição indispensável para a presença do homem. [...] No Careiro e em regiões semelhantes, o significado da água para a comunidade toma maior relevo e assume aspectos muito especiais. Nestes espaços, a água atua tanto de maneira indireta quanto direta. Sua influência mediata se faz sentir através da base mesma da ocupação – o solo – de que é autora e no qual criou tratos muito desiguais, quanto às possibilidades de aproveitamento. No que tange à ação imediata da água, da mesma forma que ocorre no vale do Nilo, por exemplo, a enchente anual na região do Careiro é o mais importante fenômeno da natureza a afetar a ocupação do solo. Na medida em que satura, submerge ou deixa enxutos os terrenos, influi, não apenas sobre a extensão dos solos utilizáveis, mas sobre a duração do período em que os mesmos aproveitam ao homem e ainda sobre a modalidade deste aproveitamento. De muitas outras formas está o destino do homem vinculado ao meio e, mais precisamente, ao componente deste que, no Careiro, consideramos fundamental: a variação sazonaria do nível das águas. [...] A água não somente substitui, em grande parte, os caminhos vicinais, mas representa o elo que liga a região produtora ao mercado consumidor, Manaus. A canoa desempenha para o varziano da Amazônia, o papel do cavalo ou do jegue, para o sertanejo de outras terras (STERNBERG, 1998, p. 15-16).
Este elemento ecossistêmico central orientou os processos de ocupação e, praticamente, condicionou as bases dos processos econômicos – produção e circulação de mercadorias – que foram historicamente estruturados no Subpolo Três. Daí a sua importância tanto para os processos de trabalho quanto para a formação das instituições endógenas e as dinâmicas de mudança socioeconômica. Logo, a análise dos processos econômicos e demográficos não pode prescindir das especificidades impostas pelos ecossistemas sobre os aspectos socioculturais da população e suas estruturas de governança econômica.
Os dados produzidos pelos estudos de Reis (2006), D´Antona (2007) e Riker (2008) permitiram a caracterização, grosso modo, dos aspectos geológicos dos ecossistemas visitados na pesquisa de campo. Estes aspectos estão apresentados nas Figuras 5 e 6, abaixo, e são discutidos em seguida.
124
A geologia do estado do Amazonas é descrita por Reis (2006, p. 6) do modo seguinte:
Geologicamente, o Estado do Amazonas é caracterizado por uma extensa cobertura sedimentar fanerozoica, distribuída nas bacias Acre, Solimões, Amazonas e Alto Tapajós, que se depositou sobre um substrato rochoso pré-cambriano onde predominam rochas de natureza ígnea, metamórfica e sedimentar.
Nessa perspectiva, as áreas onde se realizou a pesquisa de campo são classificadas geologicamente como: i) N4a2 que se constituem de depósitos aluvionares formados por areia, silte, argila e cascalho inconsolidados, denominados como planícies inundáveis ou
3ºS
60ºW Escala 1:1.000.000
Figura 6: Aspectos geológicos da área da pesquisa em mosaico completo. Fonte: Reis (2006).
Figura 5: Aspectos geológicos da área da pesquisa. Fonte: Reis (2006).
3ºS
125
comumente chamados de várzeas; ii) as terras firmes aparecem classificadas em dois agrupamentos: os terrenos do tipo K2ac ou Formação Alter do Chão (ac) são constituídos por quartzo arenito, arenito arcoseano, arenito caulínico e caulim; enquanto os terrenos do tipo N3i ou Formação Içá(I) são uma composição de arenito, argilito, siltito e turfa. O conjunto destes elementos do ambiente natural constitui as características geomorfológicas da área da pesquisa.
Os usos destas áreas para a agropecuária foram avaliados pelo Projeto Radam Brasil (BRASIL, 1976, 1978) e o diagnóstico se expressa na classificação das subáreas mostradas na Figura 7. A capacidade natural de uso da terra para fins agropecuários levou em consideração o relevo, o clima, o solo e a vegetação. Os relevos planos e quase homogêneos, associados a um clima sem estação seca não foram considerados como fatores limitantes. Quanto à cobertura vegetal e aos solos, o território foi diagnosticado como apresentando grande uniformidade e como pouca variedade.
A partir destas constatações, as áreas foram classificadas quanto à capacidade de uso da terra. Os depósitos aluvionares foram considerados apropriados para culturas anuais, mas inapropriados para culturas perenes devido ao excesso de água durante grande parte do ano. Segundo este diagnóstico,
[...] torna-se importante a seleção de faixas com menores possibilidades de alcance das águas na época das cheias. Assim, as áreas mais propícias são os terraços
3ºS
4ºS 59ºW 60ºW 61ºW
Escala 1:1.000.000
Figura 7: Aptidão agrícola dos solos na área de pesquisa. Fonte: Brasil (1976, 1978). Elaboração do autor (2009).
126
sujeitos a inundações apenas em cheias excepcionais e as áreas de planície que estão afastadas do leito do rio (BRASIL, 1978, p. 544).
Nessas áreas de terra firme, K2ac e N3i, os solos do tipo Latossolo Amarelo Álico e Podozólico Vermelho Amarelo, com sua baixa fertilidade, foram diagnosticados como fatores restritivos. Entretanto, atualmente, essas áreas são consideradas propícias para a construção de tanques escavados para a piscicultura devido ao grau de impermeabilidade do solo, cuja debilidade em nutrientes é corrigida através da calagem e emprego de fertilizantes industrializados. Contudo, o estudo do Projeto Radam concluiu que a área não apresentava condições naturais favoráveis para a agricultura, mas, por outro lado, estimavam-se boas perspectivas para a formação de pastagens, especialmente para a criação de bubalinos (Bubalus bubalis) – devido às inundações frequentes, combinando-se o uso de pastagens plantadas com os campos de várzea.
Esta percepção parece ter sido concretizada na atualidade e, certamente, influenciou consideravelmente as rotinas de trabalho da pecuária e da agricultura contemporâneas. Em relação à pecuária, as influências se manifestam nos investimentos na construção de pastagens e na migração sazonal do rebanho entre as várzeas e as terras firmes. Por outro lado, as várzeas, atualmente, são as bases naturais para culturas de ciclo curto, de setenta dias a quatro meses, e para a criação de bovinos (Bos taurus) e bubalinos nos campos naturais ou plantados. As terras firmes, por sua vez, estão sendo utilizadas para os plantios de roçados de mandioca, os cultivos protegidos – plasticultura, a piscicultura, os plantios de culturas temporárias em manchas de terras pretas de índios, e as criações em pastagens plantadas. No setor industrial, os solos impróprios para a agropecuária revelaram-se promissores para a indústria oleiro-cerâmica que incrementa significativamente a economia do Iranduba.
Ao apresentar as estratégias humanas de adaptação aos ecossistemas do trópico úmido, Moran (1990), revela que as condições destes ambientes apresentam-se, simultaneamente, como fatores de limitações e oportunidades. Moran (1990) separa os ecossistemas em terras firmes e várzeas e discute a adaptabilidade humana a estes ambientes. Em relação aos solos das terras firmes, este autor destaca o predomínio dos latossolos e ultissolos, caracterizados pelo baixo pH, alta saturação de Alumínio e pela exígua presença de macro e micronutrientes. Entretanto, ocorrem variações importantes como as terras roxas – alfissolos e vertissolos – e solos antropogênicos – as terras pretas de índios – propícios à produção agrícola. As condições dos solos de terras firmes, sua acidez e baixa fertilidade, teriam, conforme Moran (1990), influenciado a difusão e o predomínio da mandiocultura
127
entre as populações das terras firmes associada à dependência de proteína animal obtida pela caça e a pesca.
Os aspectos edafoclimáticos característicos permitem a diversidade biológica o que inclui tanto plantas e animais úteis ao homem quanto pragas perniciosas para a agricultura e pecuária. Ainda há as características químico-físicas dos solos de terra firme, as altas temperaturas, os movimentos das águas e a frequência e intensidades das chuvas que exigem soluções técnicas para a agricultura e a pecuária. Neste sentido, a solução criada pelos primeiros habitantes foi o sistema de corte e queima como método de uso das terras para fins agrícolas. Através da queima, as pragas foram controladas de forma a poder obter uma safra razoável. Com o plantio de uma variedade dispersa de espécies pela roça, evitava-se também a dispersão de pragas nos cultivos.
O corte-e-queima resultou também em economia na preparação do terreno, na conservação de nutrientes e na preparação do solo, pelo abandono gradativo da roça ao processo da roça ao processo de sucessão secundária. Essa solução técnica, conforme Moran (1990) é ideal em condições de abundância de terras e baixa densidade demográfica. Herdada culturalmente pelos camponeses de seus precursores, tal solução tem se tornado problemática para a conservação ambiental e mesmo para as práticas agropecuárias, em função do baixo aporte tecnológico e dos impactos sobre a fauna e a flora, bem como sobre as condições climáticas.
As entrevistas com os interlocutores institucionais20 e produtores camponeses revelaram que as práticas agropecuárias baseadas nessa matriz tecnológica tradicional apresentam dois tipos de problemas. Em primeiro lugar, os impactos ambientais decorrentes implicam em restrições ao licenciamento prévio das atividades que restringe o acesso aos créditos de fomento concedidos pelos programas estaduais e federais. Em segundo lugar, tais práticas encontram-se vinculadas aos hábitos e costumes de muitos produtores camponeses, constituindo-se como fatores socioculturais que repercutem em resistências ao emprego de novas tecnologias. Essa resistência ocorre tanto em função da aversão aos riscos e incertezas inerentes à inovação quanto por causa do distanciamento entre os produtores camponeses e as organizações criadoras e difusoras das novas tecnologias21. Combinados, estes aspetos do
20 Neste aspecto, os interlocutores institucionais foram o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do
Amazonas (IPAAM), o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), a Agência de Fomento do Estado do Amazonas (AFEAM), o Banco da Amazônia e o Banco do Brasil.
21 As organizações criadoras de conhecimentos para o setor agropecuário com foco de atuação na área da
pesquisa são, essencialmente, a EMBRAPA e o Instituto Nacional de Pesquisa na Amazônia (INPA). As organizações considerados difusoras são o IDAM e as demais organizações cuja missão é a realização da ATER.
128
sistema socioeconômico estudado culminam em poucos experimentos embrionários de mudança técnica nas práticas agropecuárias, indicando a persistência em padrões de usos dos recursos naturais tradicionais.
As áreas de várzeas, na perspectiva analítica de Moran (1990) apresentam significativa complexidade quanto à composição físico-química dos solos e aluviões depositados, à diversidade de fauna e flora assim como à formação dos seus relevos. A área da pesquisa situa-se na classificação “várzeas baixas”, as quais, para Moran (1990), apresentam mais oportunidades que limitações. A riqueza de nutrientes depositados anualmente e a alta biomassa da icitiofauna somente são contrabalançadas pelas flutuações no nível das águas, que alteram a disponibilidade dos terrenos para a agropecuária, e pelas