O tempo tem muitas perspectivas e diferentes formas de percepção. Desde os períodos mais remotos, o tempo ocupava papel de destaque, com seus Deuses. Seja da mitologia nórdica, com as três irmãs Nornes – Deusas do Tempo, que representavam o passado, presente e futuro. Seja da mitologia grega, com Khronos que era a personificação do tempo. Mas, seja qual for à representação escolhida, o tempo é retilíneo, linear.
Para os positivistas, o problema das gerações é quase sempre uma prova da concepção retilínea do progresso. Esse pensamento possui desde o princípio um conceito de tempo externalizado e mecânico, procurando colocar no tempo quantitativo e mensurável um padrão capaz de medir o progresso linear. Com essa perspectiva, a sucessão de gerações aparece, antes de tudo, como um acontecimento que, mais que quebrar o caráter retilíneo da sucessão do tempo, o articula. No que diz respeito à troca geracional, o mais importante segue sendo a sua consideração como o fator essencial que impulsiona o progresso (MANNHEIM, 1993, p. 198/9).
Mas e hoje? Quem controla o nosso tempo? Como o vemos e como o sentimos ou percebemos? As mudanças que vem acontecendo na sociedade interferem na nossa percepção do tempo? Chauí (2010) nos traz interessantes apontamentos sobre as questões temporais:
Nós somos, dizia Merleau Ponty, seres temporais, ou seja, nós nascemos, e temos consciência do nascimento e da morte, ou seja, nós temos a memória do passado e a esperança do futuro, nós somos seres que fazem a história e sofrem os efeitos da história, nós somos tempo. O tempo existe porque nós existimos. Nós somos seres espaciais, para nós o mundo é feito de lugares. Perto, longe, o caminho, a mata, a cidade, o campo, o mar, a montanha, o céu, a terra. Esse mundo espacial é feito de dimensões, o grande, o pequeno, o maior, o menor. Ele é feito de qualidades, cores, sabores, tessituras, odores, sons (CHAUÍ, 2010).
Por ‘estilo de vida’ entendemos o modo pelo qual o homem emprega o seu tempo entre o trabalho e o tempo livre; portanto, a proporção que cabe a cada uma das partes (SCHAFF, 1992, p. 132). Como as pessoas estão aproveitando o tempo livre? Possui-se mesmo ‘tempo livre’, ou ele está cada vez mais mascarado, disfarçado e, até mesmo substituído, por todas as novidades e entretenimentos que a revolução tecnológica e digital traz ao dia a dia?
Pensemos sobre o que mostra a Figura 2; as percepções temporais apontadas por Chauí (2010), quando percebidas pela ótica das tecnologias, podem acarretar influências nos estilos de vida. Quero dizer, é possível considerar que a novidade de um novo dispositivo tecnológico, proporcionaria um aumento do tempo livre? Bauman (2011) enfatiza nesse sentido que ‘os estilos de vida, o que é considerado ser bom para você e ser ruim para você, as formas de vida atraentes e tentadoras mudam tantas vezes na sua vida’, que as pessoas passam a vida redefinindo-se, redefinindo a própria identidade, tentando acompanhar os estilos de vida.
Figura 2 – Tempo Livre?
Fonte: UOL Notícias – Tecnologia: (http://tecnologia.uol.com.br/album/Humor_album.jhtm#fotoNav=15)
Com todas as possíveis regalias que as tecnologias trazem, com o intuito de proporcionar o aumento do tempo livre, facilitando a realização de atividades cotidianas, estamos cada vez mais conectados, com a rotina diária dependente do funcionamento dos aparatos tecnológicos. Uma simples ida ao supermercado pode tornar-se um problema e ser frustrante se, por exemplo, no computador do caixa o leitor de códigos de barra deixar de funcionar ou a máquina de cartões de crédito sair do sistema. Estamos nos acostumando com uma rotina de praticidades tecnológicas? É quase comum ouvir relatos de famílias que ficam separadas dentro da própria casa, cada indivíduo em um cômodo, entretido em sua própria tecnologia: televisões, computadores, vídeo games e a internet.
O estilo de vida do homem não pode ser reduzido naturalmente à ética do trabalho ou a quantidade e qualidade do tempo livre. Está vinculado à forma de organização social em que cada um vive a própria vida cotidiana, isto é, a família. Pode parecer banal dizer que a família constitui a organização básica da vida social, mas por trás desta afirmação aparentemente banal está um elemento importante do que chamamos de qualidade da vida e que possui vários significados (SCHAFF, 1992, p. 134).
As mudanças estão ocasionando evoluções em uma gama de situações e eventos. Os positivistas diriam que, em sua maioria, aparentemente para melhor. Mas, podemos questionar se essa melhoria para melhor pode ser considerada em todos os sentidos? Como em cada época, todas as consequências, boas e não tão boas assim, acontecem, é assim também na evolução tecnológica e digital.
As mudanças sociais para as quais Schaff (1992) chama atenção seria uma nova divisão social, que está se tornando cada vez menos subjetiva, isto é, está deixando de ser uma opinião pessoal, tornando-se senso comum.
Pode-se produzir uma nova divisão entre as pessoas, a saber: uma divisão entre as que têm algo que é socialmente importante e as que não têm. Esse “algo”, no caso, é a informação no sentido mais amplo do termo que, em certas condições, pode substituir a propriedade dos meios de produção como fator discriminante da nova divisão social, uma divisão semelhante, mas não idêntica, à atual subdivisão em classes (SCHAFF, 1992, p. 49).
Considerando a avalanche de redes sociais que estão surgindo com as possibilidades proporcionadas pela internet, o ‘fazer parte’, está tornando-se cotidiano, quase rotina. Isso é o importante hoje, estar do lado da divisão na qual você faz parte. Possuir o novo modelo daquele aparelho de celular famoso, comprar aquele aparelho eletrônico de ‘ultima geração’ ou, o que agora está em maior evidência e popularidade, fazer parte ou não das redes sociais mais famosas e conhecidas. Quem não faz parte da rede social não faz parte da turma, não sabem quais são as últimas novidades, não sabe o que está ‘rolando’. Quem faz parte, possui informação, o que segundo Schaff, é o socialmente importante hoje. Nas escolas isso fica implícito no relacionamento entre os alunos, nas determinações de quem é popular e quem não é.
Mas, e como fica a convivência humana, a vida, nesses processos de transição? Bauman (2011) considera que a vida esteja fragmentada, dividida em episódios e que as mudanças afetam principalmente aos jovens. Hoje, os jovens não projetam mais suas vidas futuras, não planejam o que querem fazer pelo resto de suas vidas, mal sabem o que irá
acontecer em sua via na próxima semana ou mês; tudo é o aqui e o agora, o presente; as coisas tornaram-se voláteis, efêmeras, as experiências acontecem em instantes fugazes. Em concordância a isso, Chauí (2010) fala do imediatismo das redes sociais, onde tudo é instantâneo:
Nada exemplifica melhor essa fugacidade do tempo e a sua redução a um instante sem passado e sem futuro, do que o twitter. Vivemos sobre o signo da telepresença e da teleobservação, em que tudo nos parece ser imediatamente dado, sob a forma da transparência das imagens, apresentadas como evidências (CHAUÍ, 2010).
Para Bauman (2011), ‘nós temos grandes dificuldades em adivinhar o que vai acontecer conosco no ano que vem. O projeto de vida, de uma vida inteira, é algo difícil de acreditar. (...) Você precisa estar sempre se redefinindo’, porque os estilos de vida mudam... a sociedade muda e você muda para acompanhar.