Coordenador: Manoel Odorico de Moraes / Universidade Federal do Ceará (UFC).
Dr. Manoel iniciou a sessão afirmando que os órgãos governamentais, por meio das agências de fomento Capes, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Finep, dos seus bancos de fomento, como o BNDES e dos Ministérios da Saúde, do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, estão integrados ao processo de desenvolvimento e que a academia está colaborando. Ele espera que a
indústria farmacêutica, que é o terceiro componente desse trio, comece a se movimentar para interagir com a academia e com os órgãos de fomento do governo. Segundo ele, interagir não significa só fazer projeto para buscar dinheiro, significa saber onde estão as competências. “Nós da academia não sabemos muitas vezes onde estão as indústrias que estão investindo em pesquisa e desenvolvimento de medicamentos e muito menos as indústrias sabem onde estão as competências dentro da academia. Precisamos então fazer com que a indústria faça o seu papel de buscar quem tem o conhecimento dentro da academia.”
A Farmacologia e a Toxicologia Pré-Clínica no Brasil Giles A Rae/ Presidente da SBFTE.
Em sua apresentação, o professor Giles traçou um perfil da situação da Farmacologia e da Toxicologia pré-clínicas no Brasil. Apesar de a Farmacologia brasileira hoje ainda ser pequena, é extremamente produ- tiva. Ela produz uma quantidade considerável de “papers”, de boa inserção internacional, mas é uma produ- ção eminentemente acadêmica. Assim, a pesquisa de qualidade desenvolvida por essa coletividade é muito restrita a estudos pré-clínicos, de modo que a Farmacologia hoje apresenta pouca experiência nos processos de desenvolvimento de novas drogas. Pouquíssimos são os farmacologistas bolsistas do CNPq que apresen- tam registros de patentes em seus currículos Lattes (apenas ~5% deles). Além disso, há uma clara carência de pesquisadores voltados para as sub-áreas de Toxicologia e Farmacologia Clínica. Por outro lado, a Far- macologia brasileira apresenta uma capacidade formadora de recursos humanos de qualidade elevada, ainda que a maioria dos programas existentes tenham enfoques primordialmente acadêmicos. Quanto aos aspectos quantitativos, a capacidade formadora desses programas é relativamente modesta, titulando cerca de 110 mestres e 50 doutores ao ano. Em seguida, comentou que, diante dos desafios que se apresentam ao desenvolvimento de fármacos e medicamentos no País, a área de Farmácia também é especialmente impor- tante. Nesse sentido, disse que não havia feito análise mais profunda da produção científica e competências da Farmácia brasileira. Contudo, apesar de a capacidade formadora de recursos humanos nesta área ser maior que a da Farmacologia em número de programas de pós-graduação, a qualidade destes programas parecia requerer melhoras significativas, especialmente considerando que apenas 50% deles titulavam dou- tores e nenhum desses programas foi classificado ainda como sendo de excelência pela Capes.
“Então, se o Brasil realmente pretende fechar o ciclo de descobertas e desenvolvimento de novos medi- camentos, nós vamos ter que reorientar os programas de pós-graduação, de modo primeiro a ampliar a oferta de recursos humanos mais qualificados. E segundo reorientar os programas desses cursos, para dirigi-los melhor à área de desenvolvimento de fármacos e medicamentos. Temos também de dar especial atenção à formação de toxicologistas e de farmacologistas clínicos e por fim, nós temos de intensificar a interação entre grupos de pesquisa pré-clínica e clínica, bem como fortalecer a interação entre os setores acadêmico e industrial”, finalizou Giles.
Investigação Clínica no Brasil
Gilberto de Nucci –Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)/USP.
Dr. Gilberto de Nucci falou sobre a Farmacologia Clínica em relação ao desenvolvimento de medica- mentos. O Dr. Gilberto acredita que a introdução dos medicamentos genéricos teve papel importante no desenvolvimento da Farmacologia Clínica no País, bem como da Farmacotécnica, já que houve necessidade das indústrias passarem a investir no desenvolvimento de formulações. Não só a formulação galênica dos produtos melhorou bastante, como aumentou significativamente o número de centros fazendo estudos com Farmacologia Clínica de bioequivalência e de desenvolvimento de pesquisas clínicas com voluntários sadios. Em sua opinião, os estudos de Fase I são muito importantes para o desenvolvimento da indústria farma- cêutica no País, já que são considerados a pedra de toque no desenvolvimento de novos fármacos. Reforçou que é necessário fazer mais estudos Fase I, pois isso permite verificar a viabilidade de desenvolver um medicamento novo. “Tais estudos apresentam aspectos farmacodinâmicos importantes para prova conceitual e creio que precisamos ainda o que chamo de expansão dos horizontes dos nossos Comitês de Ética. Entre os Comitês de Ética havia uma certa resistência, uma certa complexidade e dificuldade em entender os estudos com voluntários sadios. Hoje nós já temos um grande número de comitês de ética que já estão acostumados com esse tipo de parâmetro”, finalizou.
Pesquisa em Tecnologia Farmacêutica no Brasil
Dr. Rubén Dario Sinisterra / Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Farmacêutica é uma área que está um pouco na Farmácia, na Engenharia Química, um pouco na Química, um pouco na Biologia e na Biofísica. Segundo ele, existe um grande problema na área de tecnologia farma- cêutica. A política nacional de fármacos e medicamentos é fundamental, porque há gargalos na legislação nacional de patentes. “Uma coisa é propriedade industrial, que está na parte de marcas e patentes e outra coisa é a propriedade intelectual, que tem muito a ver com o conhecimento codificado, know-how, capital humano, capital intelectual e organizacional. Há pouca consciência nas nossas instituições de pesquisa de quanto talento nós temos nas nossas universidades. E aqui temos um aspecto extremamente importante, que nem tudo o que podemos desenvolver deve ser guardado como segredo industrial ou segredo de laboratório. É um critério que precisamos começar a trabalhar e isso tem um valor agregado extremamente importante”, afirmou. Dario ressaltou ainda que muitas vezes dizem que a patente é um fim, mas ele acredita que a patente é única e exclusivamente o início de todo o processo.“Então é preciso ter gente com capacidade de transferir, negociar e desenvolver”, finalizou.
Discussão da Mesa
Durante a discussão, Silvia Guterres falou da movimentação que há no Brasil hoje para criação das redes de nanobiotecnologia. Segundo ela, o foco de desenvolvimento tecnológico na área de inovação tecnológica, na área de tecnologia está muito concentrado dentro das redes interdisciplinares. Há químicos, biólogos, médicos associados a essa rede que têm feito bastante produção acadêmica e mais recentemente têm atraído parcerias com o setor produtivo, muito em função da indução que o CNPq tem feito por meio de editais, que valorizam a área.
O professor Giles colocou em pauta alguns assuntos como a necessidade de estimular mais a criação de programas profissionalizantes de pós-graduação. “Outro aspecto que me preocupa é a falta de setores de PESQUISA E DESENVOLVIMENTO nas empresas. Pouquíssimas delas têm esses setores instalados, isso na melhor das hipóteses. O setor de PESQUISA E DESENVOLVIMENTO caberia a quem? Quer dizer, as indústrias levariam muito tempo para montar os seus parques e quem realizaria esta tarefa na academia? Quem seria o recurso humano a ser utilizado? O pós-graduando ou um corpo técnico que pres- tasse serviços de uma forma profissional ou os dois? Essa é uma coisa em que também teríamos que pensar”, finalizou.
MESA-REDONDA: CAPACITAÇÃO DE RECURSOS HUMANOS NAS ÁREAS ESTRATÉGICAS DE PESQUISA E