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ISOLASJONSMOTSTAND I GULV, VEGGER OG ANDRE GJENSTANDER I

A cidade de Contagem está situada na região central de Minas Gerais. É o município com a terceira maior população desse Estado, com 568.640 habitantes, segundo o censo do IBGE de 2010, ficando atrás apenas de Uberlândia e Belo Horizonte. Devido ao crescimento horizontal da cidade, Contagem passou a fazer parte da região metropolitana de Belo Horizonte, e é um dos mais importantes municípios dessa aglomeração urbana, principalmente em função de seu grande parque industrial.

A história da cidade de Contagem remonta à época da colonização, quando a Coroa Portuguesa controlava os territórios ocupados por meio de postos de registros, onde eram fiscalizados e registrados todo movimento de mercadorias, pessoas, cargas e tropas. Estes postos acabavam servindo como local de parada, pernoite e até mesmo de trocas locais e pequenas plantações com criação de gado, pois havia intensa movimentação em torno destes lugares.

Contagem surgiu neste período, no qual havia um posto de fiscalização situado no terreno conhecido como Sítio das Abóboras, que originou um pequeno povoado em torno deste posto. A população ergueu uma capela para abrigar o Santo protetor dos viajantes, São Gonçalo do Amarante surgindo então o arraial de São Gonçalo de Contagem, homenageando o santo e fazendo referência à contagem das cabeças de gado, mercadorias e dos escravizados para fins de cobrança de impostos.

O processo de formação do município de Contagem está intimamente vinculado ao tráfico de escravizados e de mercadorias que adentravam os sertões da colônia nas costas de animais ou de transportadores cativos. Isso favoreceu o surgimento de uma população economicamente ativa vinculada a agricultura, criação de gado e comércio, mantendo um contingente servil na região (Gomes & Pereira, 2000). Mesmo com o fim da escravidão, algumas relações se mantiveram como a dos filhos de ex-escravizados que continuavam trabalhando para seus fazendeiros, muitas vezes vistos também como padrinhos, estabelecendo relações semelhantes, em certo sentido, às do passado escravista.

Até 1941 a cidade de Contagem podia ser denominada como agropastoril ou rural, se contrapondo à Contagem industrial e urbana, que começou a tomar corpo

35 com a criação do Parque industrial após este período. Todo este processo transformou Contagem em um importante pólo industrial, com grandes indústrias, fábricas e usinas, reconfigurando a cidade surgida como periférica da capital Belo Horizonte. Com o passar dos anos, houve um crescimento da população urbana, tornando Contagem uma importante base industrial, onde se desenvolveu uma extensa malha de serviços e equipamentos públicos. Destaca-se a criação do entreposto das Centrais de Abastecimento de Minas Gerais S/A (CeasaMinas) e em 1974, o surgimento do Eldorado, verdadeiro centro comercial da cidade atualmente. O entreposto do CEASA é o mais diversificado do Brasil e ocupa o segundo lugar nacional em vendas de hortigranjeiros.

A localização privilegiada de Contagem como entroncamento de diversas rotas comerciais influiu na formação de seu complexo perfil sóciocultural. As principais vias de acesso são representadas pela via Expressa, BR381 e BR 40, facilitando a comunicação com importantes áreas urbanas de Minas e do Brasil. Mapa 1 - Região metropolitana de Belo Horizonte:

Neste cenário de mudanças, com a criação de parques industriais, fábricas e usinas, a cidade de Contagem foi se modificando em relação ao seu passado de Contagem “das Abóboras”, configurada como área eminentemente rural atrelada à

36 escravidão e à colonização do país, marcando a história do Estado de Minas Gerais, com suas novas especificidades, adquiriu uma nova paisagem urbana, modificando as relações sociais e econômicas do município.

Mapa 2 - Análise Comparativa da Urbanização do entorno da Comunidade dos Arturos entre os anos de 2003 e 2011

Neste contexto histórico social, se insere a Comunidade dos Arturos. O nome “Arturos” designa, uma Comunidade composta majoritariamente por descendentes de Arthur Camilo Silvério e Carmelinda Maria da Silva, constituíndo um agrupamento familiar.

A Comunidade está inserida na trajetória do negro em Minas Gerais, dentro de uma realidade social pautada em um passado, no qual são ressignificadas as tradições dos seus antepassados para manter viva a memória da luta e resistência da população negra escravizada. Os Arturos fazem parte do processo de transformação da cidade, introjetando e mimetizando o conjunto das mudanças que ocorrem no espaço, na sociedade e nas relações, que paulatinamente deixam de ser

37 rurais e passam a ser urbanas. Também dentro do grupo e do culto às suas tradições, assim como nas relações de trabalho, ocorreram significativas transformações nos modos de ser e de viver deste agrupamento familiar.

A relação dos Arturos com Contagem deve considerar o desenvolvimento do município, transformado em polo atrativo, sobretudo pela oferta de trabalho. A proximidade a Belo Horizonte e a expansão do parque industrial das suas áreas urbanas reforçaram as características de polo aglutinador que se tornou Contagem.

O processo de urbanização de Contagem incidiu sobre a Comunidade dos Arturos, que ativamente ajudou a transformar e se transformou nesse processo de urbanização do espaço rural. Na medida em que modificaram-se os modos de organização e circulação do espaço, novas situações surgiram e os Arturos estão imersos neste processo social que incidiu sobre as relações dentro e fora do grupo, com especial impacto sobre o processo de integração econômica da comunidade na cidade.

A transição que ocorreu das áreas rurais para as urbanas ocasionou inúmeras mudanças sociais e econômicas. Nos anos 70 ocorreram grandes migrações inter- regionais que tinham por origem as zonas rurais de pequenas e médias cidades e como destino principal as metrópoles de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Gráfico 1 – Evolução demográfica do Brasil (1960 – 2010)

Fonte: IBGE - http://www.censo2010.ibge.gov.br (acesso em 22/02/2012)

0 20.000.000 40.000.000 60.000.000 80.000.000 100.000.000 120.000.000 140.000.000 160.000.000 180.000.000 1960 1970 1980 1991 2000 2010 P op ul aç ão População Urbana População Rural

38 Os anos 80 registraram um crescimento das migrações dentro das regiões, reduzindo-se o número de migrações inter-regionais. A origem continuou sendo predominantemente rural, mas o destino passou a ser tanto as grandes metrópoles regionais como pequenas e médias cidades do interior.

Com a industrialização da agricultura, a partir de meados dos anos 70, impôs- se uma crescente urbanização do meio rural. Há uma nova configuração do campo brasileiro, com pessoas residentes em áreas agrícolas que não estão ligadas a atividades rurais. Hoje o campo brasileiro não pode mais ser caracterizado como um espaço eminentemente agropecuário, ao contrário, outras dimensões adquiriram importância, como as de moradia, de transformação industrial e mesmo dimensões não produtivas no sentido estrito do termo, como lazer e a preservação ambiental (Vieira, 2003).

Segundo José Graziano da Silva (1996):

As evidências empíricas disponíveis mostram que as melhorias nas condições de renda das famílias que têm na agropecuária sua atividade principal - e portanto nas suas condições de vida e trabalho - estão muito relacionadas com a situação rural ou urbana do domicílio, independentemente do grau do desenvolvimento alcançado pelo desenvolvimento tecnológico e pelas atividades agropecuárias de uma região. Os que têm na agricultura sua principal fonte de renda e moram na zona rural se encontram numa situação bem pior do que aqueles que vivem no campo mas não estão ocupados com atividades agrícolas (Silva,1996, p.189).

A falta de infraestrutura social básica e de oportunidades de emprego em atividades não agrícolas tem transformado as pequenas e médias cidades em um estágio intermediário do processo de êxodo rural, que termina “inchando” cada vez mais as regiões metropolitanas.

Essa realidade socioeconômica vai influir de maneira decisiva na forma com a qual o grupo se organiza internamente, seja com relação à convivência entre uns e outros ou na manutenção e forma de realização e participação nos cultos e festas.

As características industriais do município de Contagem, e a proximidade com uma metrópole do tamanho de Belo Horizonte, tornam complexas as razões que levaram a permanência dos Arturos como um grupo familiar, cuja força reside em uma identidade pautada numa constante ressignificação do passado a partir de tradições e rituais imersos no presente.

39 Por meio das tradições de seus antepassados, a comunidade resiste a diferentes opressões, participa das mudanças que ocorreram ao longo do tempo, na qual migraram de uma situação de campesinato para uma de trabalhadores urbanos, visto que a cidade se expandiu e os alcançou.

Embora não seja mais um agrupamento rural, os filhos de Arthur Camilo não aderiram por completo à urbanização, ainda subsistem na comunidade diversas características de “bairro rural”4, como a participação coletiva nas atividades lúdico-

religiosas, a solidariedade grupal e os laços de parentesco entre os moradores. A agricultura e a pecuária, já não são fontes de renda da comunidade que produz basicamente para subsistência. Plantam verduras, legumes e hortaliças em geral. Há ainda produção de frangos e ovos nos inúmeros galinheiros que ficam geralmente no fundo das casas.

A pecuária é de pequeno porte: gado, cavalos e suinocultura. Uma pequena parte da produção de leite e de porcos é comercializada, o restante é consumido na própria comunidade, inclusive nos eventos coletivos: grandes festas, casamentos e aniversários. A venda de leite para fora da comunidade, assim como de doces de leite e queijos é realizada em pequena escala, na maioria das vezes entre pessoas próximas. A dieta alimentar é composta pelo que é produzido na própria comunidade, e complementada por produtos adquiridos nos supermercados e no centro da cidade.

A maioria dos Arturos busca fora da Comunidade o emprego e o sustento, diferente do tempo do pai Arthur e da mãe Carmelinda, quando trabalhavam em atividades agrárias. Nos dias de hoje, os homens, mulheres e jovens saem cotidianamente para trabalhar nas indústrias, fábricas de menor porte, supermercados, padarias, como domésticas e diaristas no caso das mulheres, e no caso dos homens como seguranças, motoristas de caminhão e de ônibus. Há ainda uma parcela dos Arturos formada por funcionários da prefeitura.

No contexto desta transição a Comunidade dialoga suas tradições com o mundo contemporâneo, com a urbanidade. O trajeto e extensão dos cortejos das

40 festas que se estendem para fora da Comunidade é um bom exemplo de como a tradição dialoga com as transformações da ocupação, uso e circulação do espaço em direção à urbanidade. Nos últimos anos, em algumas situações, parte do trajeto é feito de ônibus, por exemplo, quando há o levantamento de mastro na Casa de Cultura de Contagem. Antigamente o trajeto era todo feito a pé. As razões do uso de um veículo são principalmente em função do transtorno que o cortejo causaria no trânsito.

Mais recentemente, todo o cortejo é acompanhado por uma equipe responsável pelo gerenciamento do trânsito no município, que além de proteger os participantes e ordenar a passagem de carros, tem a função adicional de legitimar a saída da festa para fora dos muros da Comunidade, uma vez que há contrariedade por parte de alguns moradores do município, sobretudo quanto à saída do grupo durante a madrugada, quando o trajeto é feito ao som dos tambores para a primeira oração do dia, na qual pedem proteção para o desenrolar da festa.

As objeções às manifestações dos Arturos se estendem também a parte dos membros da Igreja Católica, pois justamente nos dois dias do ano em que há levantamento de mastro, tem-se tornado comum a realização de casamentos e missas. Nestas situações, o cortejo chega, e tem que esperar o encerramento desses eventos para que possam rezar e levantar os mastros.

Estes acontecimentos demonstram certa dualidade no relacionamento da Comunidade com o seu entorno. Pois, se de um lado, o calendário de festas dos Arturos é do conhecimento de todos, sendo respeitado e valorizado pelo poder público, por parte da Igreja Católica e por grande parte de cidadãos; por outro lado, são questionados no direito de realizar suas manifestações por uma parte dos munícipes e boicotados pela própria igreja, à qual professam a todo tempo sua fé.

Essa dualidade também é fruto do processo de urbanização do espaço e dos costumes, que tendem a desvalorizar e desqualificar os ritos de origem rural, sobretudo com características de um grupo tradicional de ancestralidade africana.

4 Termo utilizado por Antonio Candido-

“Os bairros rurais são caracterizados como um agrupamento de algumas ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio mútuo (mutirão) e pelas atividades lúdico-religiosas” (Candido, 2001) Aqui neste trabalho é importante frisar que a Comunidade dos Arturos não constitui um bairro da cidade de Contagem, ela integra um bairro que se chama Jardim Vera Cruz. Desse modo, o que estamos chamando de bairro rural se referem as relações sociais estabelecidas no espaço da comunidade se configurando com este termo desenvolvido por Antonio Candido.

41 Os Arturos marcam neste sentido a trajetória da resistência de uma determinada parcela da população negra de Minas Gerais, numa cidade que foi formada no período escravagista, de um lado por uma forte aristocracia rural e de outro pelos escravizados. Filhos e filhas que emergiram de uma sociedade escravista, lutando de diferentes maneiras contra as opressões impostas pelo próprio sistema, hoje são reconhecidos como patrimônio cultural da cidade de Contagem. O que não quer dizer que embora haja o reconhecimento e valorização formal de sua cultura e tradições, assim como um bom diálogo com os dirigentes políticos, não padeçam de desigualdades e racismo enquanto negros em Contagem, como em qualquer outro lugar deste país. É necessário ressaltar que existem peculiaridades nas maneiras com que o racismo se instala e se perpetua, dependendo do contexto. Estas questões serão abordadas em capítulo posterior deste trabalho.

Para refletir melhor neste processo de luta e resistência da população negra, faz-se necessário pensar na formação dos quilombos no Brasil no passado e no presente como espaços de lutas e ressignificações, e a Comunidade dos Arturos insere-se neste contexto.