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D ISCUSSION ET CONCLUSIONS

No conjunto de “Boletins Pedagógicos”, foi notada a presença de saberes da Pedagogia e da Psicologia orientando as publicações. Theodore Simon e Helena Antipoff, docentes da Escola de Aperfeiçoamento e integrantes do Laboratório de Psicologia, respondem pela autoria de vários números dos Boletins.

O Boletim Pedagógico que apresenta a temática da Educação Física foi remetido ao corpo docente do estado por meio de publicações na Revista do Ensino. Consideramos ser esta uma das estratégias de aperfeiçoamento produzidas pela Inspetoria.

Seis são os textos que compõem o Boletim. Apenas um deles não tem como autor um dos membros da Inspetoria. “Educação physica e a futura raça brasileira” foi escrito por José Lourenço de Oliveira, professor do Colégio Arnaldo. Veremos adiante que o docente, junto com membros da Inspetoria, publicou artigos relacionados aos saberes da Educação Física na Revista do Ensino. Seu artigo no Boletim discorre sobre o modo como a cultura física foi

182 O Boletim foi localizado na seção de obras raras da Biblioteca da Faculdade de Educação da UFMG, compondo a pasta denominada “Boletins Pedagógicos”.

sendo substituída pela cultura intelectual, no contexto em que a máquina passou a ocupar as funções desempenhadas pelos trabalhos manuais. Recomenda que, para salvar o corpo humano do abandono, a Educação Física deverá exercer papel fundamental nesse cultivo. O autor ainda traz para a narrativa nomes como Afonso Taunay, Ronald de Carvalho, Graça Aranha, Euclides da Cunha, para embasar a temática em torno da regeneração da raça brasileira e do papel da Educação Física nesse ideal. O índio, caracterizado pela indolência e resignação perante a natureza, e o negro, marcadamente representado por possuir uma alma recalcada, despersonalizada e inexperiente, como duas das etnias formadoras da nacionalidade brasileira, não poderiam compor a identidade do brasileiro. A mestiçagem era tida como um problema nacional e a Educação Física tinha o papel de redenção:

Esperamos que ella contribua para o saneamento racial e que ella nos é absolutamente indispensável, na obtenção de um Brasil grande.183

“O espírito e o systema neuro muscular”, pequeno artigo produzido por Renato Eloy, trata da importância da Educação Física relacionada à atividade cerebral. Mobilizando saberes da Psicologia e da Fisiologia, o autor afirma que “a vida do cérebro e, consequentemente, a da intelligencia, tenham como factores essenciaes a vida muscular, ou melhor, neuro muscular”, e que, por esse motivo, a Educação Física é fundamental nos programas de ensino. O impacto que a Educação Física poderia causar nos aspectos mentais do educando, como a atenção, a reflexão, a iniciativa, a vontade e a inibição são destacados no progresso da civilização.

“A educação physica applicada ao sexo feminino”, de Zembla Soares de Sá e Guiomar Meirelles Becker, traz à cena especificidades para um programa de Educação Física para as mulheres. Dois aspectos deveriam ser levados em conta na organização dos exercícios. O primeiro está relacionado às particularidades físicas e fisiológicas que explicitam diferenças funcionais e estruturais que demarcam o masculino e o feminino. Para elas, a mulher deveria cultivar determinadas tendências.

A moça não precisa desenvolver seu instinto de combatividade. Ella não está ou não deveria estar interessada, primariamente, em levantar ou bater records. Deve interessar-se em typos de actividade que lhe dêm graça, equilíbrio, flexibilidade, velocidade, agilidade, destreza, esthetica, belleza, vigor geral e resistência.184

183 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 17, 1935. 184 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 22, 1935.

O segundo aspecto a ser considerado era a idade das participantes das atividades. Tendo em vista que os estágios de desenvolvimento de uma menina, uma moça e uma senhora são distintos, os programas de ensino deveriam respeitar aspectos fisiológicos e psicológicos na prescrição para as diferentes faixas etárias. Nesse texto, não foi dado enfoque à Educação Física Escolar.

Em outros artigos, como “O valor dos jogos”, de Diumira Paiva, as prescrições são direcionadas para as crianças. A autora estabelece uso dos jogos como meio para se alcançar valores físicos, intelectuais e morais.

Nas reações provocadas pelos jogos, na natureza psychica do educando, observamos incessantemente as manifestações da injustiça e da justiça, da modéstia e da arrogância, da magnanimidade e da vingança, da paciência e da intolerancia, da generosidade e da inveja, da destreza e da lerdeza; o domínio de si mesmo e a desorientação. Não serão, por accaso, esses elementos preciosos para o trabalho do educador, aflorados assim na sua mais crystalina fórma?185

O artigo que se segue no Boletim, de autoria de todos os membros da Inspetoria, intitulado “O uso dos jogos”, aponta esses exercícios como prática indicada para crianças consideradas débeis.

As creanças que são lerdas, retardadas e lethargicas; que observam pouco o que as cerca; que reagem vagarosamente a um estimulo externo; que são, numa palavra, lentas para ver, ouvir, pensar e fazer, podem ser completamente libertadas dessas deficiências, por meio dos jogos, intelligentemente ministrados.186

A preocupação com as crianças tidas como “anormais” é uma marca da Psicologia naquele contexto, que buscava oferecer meios para o desenvolvimento em todas as dimensões cognitivas da criança. Os jogos se apresentam como práticas que, organizadas de modo inteligente, atingiriam finalidades biológicas, intelectuais e sociais.

Helena Antipoff é citada nesse texto como responsável pela “Pesquisa de ideaes”, organizada na Escola de Aperfeiçoamento. Essa investigação foi realizada pelas professoras alunas da instituição entre as crianças da Capital e de diversas cidades mineiras. O estudo revelou que “os interesses naturaes de uma creança normal levam-na a preferir jogos differentes em differentes períodos de seu desenvolvimento”. Respeitando as características de cada uma dessas fases, foi realizada a classificação dos jogos em grupos. O grupo A reunia

185 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 27-28, 1935. 186 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 29, 1935.

os “jogos de personificação”, nos quais as crianças desenvolveriam o senso imaginativo e os exercícios, basicamente, seriam de imitação. O grupo B era formado pelos “jogos de ataque e defeza”, mantendo as características do primeiro grupo, com o acréscimo de um adversário, visto que o egocentrismo sofreria uma redução nessa fase do desenvolvimento infantil. Tais jogos serviriam de base para as primeiras coordenações neuromusculares, controladas pela vontade. No grupo C, estariam os “jogos em grupo”, que proporcionariam o “espírito de cooperação, sacrificio, iniciativa própria e suggerida, e de coragem própria ou reflectida do grupo”.187 Regras são inseridas nos jogos desse grupo. O grupo D era constituído pelos “jogos de grupo contra grupo, com participação individual, por ordem”. Nessa prescrição, a composição de dois lados opostos, em que um integrante de cada lado enfrentaria o outro de cada vez, um contra um, estimula na criança a atuação própria, controlada pela responsabilidade que assumiu perante o grupo. Desenvolve, ainda, a destreza de movimentos, a autoconfiança e a tomada de decisão, para resolver com eficiência as adversidades do momento. O grupo E reunia os “jogos de grupo contra grupo, com participação collectiva”, onde os alunos participariam juntos, com regras mais fechadas. Por fim, o grupo F era formado por “jogos de team”, que encerravam em si todas as leis sociais; como principal objetivo, deveria-se estabelecer a cooperação de todos.

O último texto do Boletim, denominado Calistenia, também apresenta como autores todos os integrantes da Inspetoria. Inicialmente, é explicitada a distinção entre “Gymnastica e Callistenia”. Para a Inspetoria, “Gymnastica” era uma prática mais ampla e “Callistenia” fazia referência a todos os exercícios feitos em séries livres ou com aparelhos como bastões, “alteres, maças indianas”. O objetivo dessa prescrição era fazer “com que o corpo se torne um servo efficiente do cérebro”188. A importância do exercício como controlador da vontade se reforça em mais um dos discursos produzidos pela Inspetoria. Assim como observado no caderno de Alzira Farnezzi, o uso dos planos de movimentos para orientar os exercícios mostrava o caminho que os membros ou os aparelhos deveriam seguir para a perfeita execução.

O Boletim é finalizado com a referência ao livro em preparo “Technica e Didatica da Educação Física Escolar”, produzido por Renato Eloy, Guiomar Meirelles, Zembla Soares de Sá, Diumira Campos de Paiva e José Lourenço de Oliveira. O que se subentende é que os artigos publicados no Boletim iriam compor o livro.189

187 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 30-31, 1935. 188 Boletim Educação Physica (Jogos e Callistenia), n. 18, p. 56, 1935. 189 Não foram encontrados vestígios dessa obra.

Artigos publicados na Revista do Ensino também indicam a produção desse livro. Trataremos adiante dos conteúdos veiculados na renomada revista pedagógica.