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Como se vê no quadro 7, as enunciações relativas a categoria temática: “Ensinar” aparecem nas dissertações (D1, D10, D14). Propomos-nos a analisar os extractos estabelecendo diálogo com as teorias de Vygotsky.

Análise dos extractos (D1, D10, D14)

- “A ação de ensinar está para além da transmissão de informações, pois implica em levar o aluno a pensar, a acessar informações e apropriar-se de conceitos elaborados de forma que possa desenvolver essa prática além de sua permanência na escola”.

- “Ensinar ultrapassa a noção de transmitir informação, implica em proporcionar situações que favoreçam o interesse pela aprendizagem.

- “Ensinar é uma ação intencional, dialógica e interativa”.

- “Ensinar não é só transferir conhecimento, é fazer pensar, ajudar a criar novos hábitos de pensamento e de ação”.

Nesses extractos, identificamos um primeiro exemplo de atividade mediadora. Observamos que a concepção de ensinar está diretamente relacionada à ação do sujeito com o outro e o papel do outro na constituição da subjetividade. Tomando por base à estruturação do desenvolvimento psicológico do indivíduo proposta por Vygotsky verificamos que a relação social é uma relação dialética entre eu e outro e que por se constituir nessa relação configura-se, portanto, mediação.

Vygotsky não elaborou um conceito de mediação, apresentou funções teórico- metodológicas que operam como atividades mediadoras para origem das Funções Psicológicas Superiores - FPS do indivíduo, a exemplo dos signos e dos instrumentos. Para ele, o sujeito não é mero signo, precisa do outro para se constituir como sujeito em um processo de relação dialética, sendo o outro a mediação da relação.

O eu não é sujeito, é constituído sujeito em uma relação constitutiva eu-outro no próprio sujeito, essa relação é imprescindível para a constituição do sujeito, já que para se constituir preciso ser o outro de si mesmo. É necessário, o reconhecimento do outro como eu, alheio nas relações sociais, e o reconhecimento do outro como eu próprio, na conversão das relações interpsicológicas em relações intrapsicológicas; mas nesta conversão, que não é mera reprodução, mas reconstituição de todo o processo envolvido, há o reconhecimento do eu alheio e do eu próprio e, também, o conhecimento como autoconhecimento e o conhecimento do outro como diferente de mim. (MOLON, 2011, p. 112).

Há ambigüidades teóricas acerca da constituição subjetiva do sujeito. Alguns autores como Werstch (1988) afirmam que Vygotsky priorizou os processos intrapsicológicos dos processos interpsicológicos. Contudo, para análise desses extractos consideramos o fato de que a dimensão dialética entre os processos inter e intrapsicológico ou intra e interpsicológico é determinante na constituição do sujeito e acontece pela mediação semiótica. (MOLON, 2011). Assim, considerando a relação dialética das dimensões interpsicológicas e intrapsicológicas, com base no pressuposto de que o intrapsicológico foi antes interpsicológico, podemos afirmar que o social constitui o sujeito ao mesmo tempo em que é constituído por ele, ambos

sendo constituídos pela mediação dos signos e instrumentos. O uso de instrumentos e signos como atividade mediadora é significativo para evolução humana.

Para Vygotsky, a inclusão de signos no ato psicológico levava a importantes mudanças estruturais. Seu uso implicaria que (1) novas funções psicológicas ficavam envolvidas, (2) vários processos naturais acabariam por declinar, e (3) propriedades do ato como um todo, como sua intensidade e duração, iriam mudar. A inclusão de um signo em um ou outro processo comportamental...reforma toda a estrutura da operação psicológica, assim como a inclusão de um instrumento reforma toda a estrutura de uma operação de trabalho. (VEER & VALSINER, 2009, p. 241).

A mediação semiótica atribui novos sentidos a constituição do sujeito e conseqüentemente, a ação de ensinar. Pois, a individualidade do sujeito sendo processualmente e socialmente elaborada nos obriga a reconhecer à necessária e importante influência da relação dialética. A ênfase da mediação semiótica não se baseia no paradigma do sujeito passivo ou ativo, mas, na interação dialética entre sujeito e objeto e na ação do sujeito sobre o objeto que é socialmente mediada. Assim, ao ensinar o sujeito deve interagir para que se desenvolvam novas formas de pensar, apropriar e internalizar saberes e fazeres. Nessa perspectiva, o sujeito é resultado da relação dialética, sujeito interativo e semiótico. O sujeito interativo não é passivo nem ativo, mas, construído na interação com o outro, nas relações interpessoais.

Dessa maneira, a heterogeneidade, característica presente em qualquer grupo humano, passa a ser vista como fator imprescindível para as interações na sala de aula. Os diferentes ritmos, comportamento, experiências, trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis de conhecimentos de cada criança (e do professor) imprimem ao cotidiano escolar a possibilidade de troca de repertórios, de visão de mundo, confrontos, ajuda mútua e conseqüente ampliação das capacidades individuais. (REGO, 1995, p. 110).

Nesse sentido, a busca pela compreensão de como o ensino e seus diversos métodos influi no desenvolvimento cognitivo e nas características psíquicas do indivíduo deve ser constante, deve incluir os estudos e as pesquisas das relações recíprocas entre aprendizagem e desenvolvimento. Nessa direção, encontramos nos extractos da categoria temática “mediação” enunciações que corroboram a mediação semiótica. Os extractos estão presentes nas dissertações (D13, D14), vejamos abaixo:

Análise dos extractos (D13, D14)

- “Mediação semiótica é a linguagem internalizada pelo indivíduo enquanto formadora de conceitos”. - “A mediação são os instrumentos e signos que as crianças utilizam para elaborar e sistematizar o seu conhecimento”.

“A mediação é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação que deixa de ser direta e passa a ser mediada por esse elemento”.

Como vimos, o extracto acima define a mediação semiótica na perspectiva teórica de Vygotsky sobre o desenvolvimento das Funções Psicológicas Superiores. Para ele, as diferentes formas de semiotização: os signos, a linguagem e os instrumentos são ferramentas auxiliares da atividade humana que exercem um papel fundamental no estabelecimento de significados compartilhados e na formação de pensamentos.

Os extractos não exploram uma metodologia de ensino e nem apresenta uma metodologia para mediação. Enfatizam a importância e necessidade de criar condições adequadas para o aluno pensar, apropriar-se de conceitos, desenvolverem habilidades, constituir-se como sujeito ativo, dinâmico e integrante. Os próximos extractos tratam da categoria temática “Aprender”. Vejamos: