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Irak: Opplæring av styrker «inside the wire» i Bagdad

Em 2009 alguns alunos envolvidos na extensão começam a se atentar ainda mais para as questões produtivas da comunidade. Perceberam no cotidiano da agricultura – através das vozes de São Pedro – uma intensa e articulada rede de trabalho, na qual estes sujeitos interagem, trocam informações. A lavoura é o lugar de encontros, onde muito tempo se passa junto. Lugar da comunicação e do diálogo, é, também, onde se reproduzem, experimentam e recriam os saberes camponeses-quilombolas.

Também na agricultura, e a partir de nossas convivências, encontramos as marcas dos tantos programas de modernização do campo – verticais, não dialógicos. Ao observarmos o café como marca do lugar, passamos a nos dar conta do uso cada vez maior de agrotóxicos e fertilizantes, do abandono de certos plantios e de uma consequente perda da autonomia dos camponeses. Ainda, percebemos a evolução das áreas do monocultivo do eucalipto, seja em terras de agricultores vizinhos – que outrora empregavam os agricultores – seja nas terras da comunidade.

O desafio colocado foi o de compreender como se estrutura a agricultura local, em meio a esse complexo que carrega tantos sentidos. Dos conhecimentos tradicionais camponeses-quilombolas às verticalidades8 impostas pela modernização agrícola (Revolução

Verde), estávamos diante de contradições basais na vida dos moradores. E mais, estávamos diante das possibilidades, que como procuraremos expor no trabalho, são as bases da geografia que acreditamos – aberta e em movimento.

8 Ispirados aqui em Milton Santos (1994), noção utilizada em outros momentos do trabalho. Para o autor: “as

horizontalidades serão os domínios da contigüidade, daqueles lugares vizinhos reunidos por uma continuidade territorial, enquanto as verticalidades seriam formadas por pontos distantes uns dos outros, ligados por todas as formas e processos sociais” (SANTOS, 1994, p. 256).

O primeiro projeto foi apresentado ao CNPq (edital financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia) no final do ano de 2009. Nele prevíamos um eixo de nossa extensão que tratasse da transição agroecológica, justificando-a nas contradições descritas e no potencial regional de agroecologia, principalmente visível na força do campesinato da Zona da Mata, nas ações do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata9 (CTA-ZM), organização não-governamental de Viçosa com a qual propúnhamos uma parceria institucional e nas ações de pesquisa e extensão da Universidade Federal de Viçosa.

Durante a escrita do projeto “Da diversidade cultural à diversidade produtiva”, ao consultamos a plataforma “Agroecologia em Rede” contatamos o registro de nove

experiências ligadas à agroecologia nas proximidades do município de Divino, o que novamente nos ajudou a construir um cenário favorável para justificar as ações do grupo. Para além, enxergávamos que era necessário incorporar a importância dos saberes da agricultura à discussão identitária/cultural quilombola. O projeto não foi contemplado naquela ocasião.

No final de 2010 o texto foi totalmente revisto, ganhando coesão e coerência.

Apresentado ao edital 058/2010 do CNPq o projeto “Da diversidade cultural à diversidade

produtiva: a construção dos saberes necessários para transição agroecológica em São Pedro de Cima” foi contemplado, tendo por dois anos trabalhos financiados pelas verbas do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Nele prevíamos construir as bases para uma transição agroecológica, buscando o desenvolvimento local, maior autonomia dos agricultores e qualidade de trabalho e vida.

A aprovação do projeto deu início às mobilizações na Universidade Federal de Juiz de Fora em torno da agroecologia. Através do financiamento foi criado o grupo de pesquisa e extensão no Instituto de Ciências Humanas, disposto a construir uma agenda de leituras e de ações voltada para a transição agroecológica em São Pedro de Cima; e um grupo de debates, convidando outros setores e sujeitos da universidade para diálogo e construção coletiva do conhecimento agroecológico.

FOTO 4: Grupo Ewé em tarde de conversa na praça cívica da UFJF em 2011. Autora: Mônica Lyra

No entanto, trazer o tema para universidade não significava que, a partir dos debates, estaríamos prontos para realizar uma extensão de base agroecológica (CAPORAL; COSTABEBER, 2000). A agroecologia nos colocou diante do desafio de construir uma extensão universitária muito além dos laboratórios; muito além dos formatos convencionais da universidade moderna. Sugeriu a transgressão da imagem da universidade como legítima transmissora à população de verdades descobertas, sugerindo a população como portadora de infinitas e criativas descobertas10, assim, sujeitos da pesquisa.

Portanto, quando falamos em transição agroecológica estamos em consonância com Claudia Job Schmitt (2009, p. 178) que nos diz não compreendê-la como “uma intervenção

planejada”, mas sim como uma construção social “que emerge das interações que se

estabelecem entre atores, recursos, atividades e lugares nos processos de desenvolvimento

rural”.

Tendo como pressuposto a transição agroecológica, a universidade deve exercitar uma função conectiva e dialógica, explorando as novas conexões que sugere Hilmi (2012):

O centro do processo de transição é a criação de novas ligações e novos padrões entre as pessoas, instituições e recursos que, até então, ficavam isolados. É por isso que o diálogo e a consulta democrática são importantes. As transições, acima de tudo, tratam da criação e da exploração dessas novas conexões (HILMI, 2012, p. 76).

10 "A agroecologia apresenta uma base epistemológica diferente da ciência ocidental. O paradigma agronômico

tradicional considera o desenvolvimento da agricultura e dos agricultores a partir da difusão de tecnologias cientificamente produzidas. O paradigma agroecológico busca entender como os sistemas agrícolas tradicionais desenvolveram-se, em que bases ecológicas, para, a partir dai, buscar uma agricultura moderna mais sustentável“ (NORGAARD apud JESUS, 2005, p. 42 e 43).

A movimentação em torno do grupo de debates trouxe o foco da discussão para as possibilidades de construção de um coletivo que pudesse não só dialogar, mas também realizar intervenções no espaço universitário e nos sítios/quintais particulares, além de participar da agenda política e acadêmica sobre agroecologia. Por fim, acabou por trazer para o espaço universitário uma série de questionamentos existenciais e políticos, e sugerir a agroecologia também como uma interessante bandeira do movimento estudantil.

FOTO 5: Mutirão agroecológico em abril de 2012 no sítio Vale da Serra. Autor: Tiago Teixeira. FOTO 6: Minicurso de Agroecologia no espaço bambuzal (atividade da XV Semana de Geografia da UFJF, 2013). Autor: Marcelo Machado.

Num movimento natural, ainda que planejado, a extensão ultrapassou os limites da comunidade para chegar à vida dos participantes do grupo. Talvez aqui, através dos movimentos, mutirões de plantios nas universidades e debates conseguimos dar início a uma superação da crítica aos propósitos da moderno-colonialidade em nossas práticas e subverter a figura do civilizado a observar o nativo. Carregamos conosco as indignações da pesquisa e nos mobilizamos para transformar também nossos próprios lugares, nossas próprias vidas.

Um interessante exemplo de nosso envolvimento com a questão foi a ida de alguns moradores de São Pedro de Cima ao sítio do aluno Tiago Teixeira, em Juiz de Fora. O sítio é utilizado para plantios diversos, mutirões e oficinas de agroecologia, de alguma maneira, um lugar onde se experimenta. Paulão e Fiquim estavam em Juiz de Fora para o evento Kizomba Namata11 e logo aceitaram o convite de conhecer o sítio. Ali servimos o café, invertendo a

tradição. Os moradores andaram pelas terras identificando as espécies e tecendo comentários sobre os plantios.

11

Evento realizado pela Universidade Federal de Juiz de Fora com a participação de oito comunidades quilombolas da Zona da Mata e uma do estado do Rio de Janeiro. Nele questões das mais diversas foram debatidas, promovendo interações entre os sujeitos quilombolas e suas associações.

FOTOS 7 e 8: Visita de Paulão e Fiquim ao sítio do estudante Tiago Teixeira. Autor: Vitor Castro

Como reflexo de nossos esforços de pesquisa e extensão no final de 2011 foi escrito o

trabalho de conclusão de curso “O café não nos atrapalha: r-existências e etnoterritorialidades em São Pedro de Cima” cujo debate se empenhou na construção conceitual da ideia de “etnoterritorialidade”, explorando nossas etnografias, diálogos e

percepções na comunidade. Outro reflexo de nossa interação com a comunidade e a temática dos usos e apropriações do espaço foi a construção do projeto de mestrado apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais, que deu origem a essa escrita e possibilitou a continuidade das reflexões da monografia.

Já em Belo Horizonte, durante o período de mestrado na UFMG, interagimos com os movimentos da agricultura urbana, construindo estratégias proximais de contato. Foi assim que a participação nos encontros do grupo AUÊ! (Grupo de Estudos em Agricultura Urbana da UFMG) e AMAU (Articulação Metropolitana de Agricultura Urbana) estimularam a ideia de pensar a cidade como o lugar de outras possíveis transições agroecológicas. Estimularam um envolvimento com agroecologia em outros contextos, formatos e atores; e por fim aproximaram a temática do cotidiano do pesquisador. Um rico exercício de pesquisa que possibilitou comparações, aproximações e diferenciações.

Experimentando o mundo, seja nos trabalhos de campo ou em nosso cotidiano de pesquisadores, nos fazemos. É na busca pelas geografias de São Pedro de Cima que acabamos encontrando nossa geograficidade12 (DARDEL, 2011). Talvez, dessa maneira, demos um

passo além da etnografia, ou passamos a agregar outros elementos a ela, localizados na tal

12

Em um ensaio publicado em 2013 na Revista Geograficidade (UFF) escrevemos sobre os efeitos das pesquisas em nossas vidas sobre um olhar da geografia (ITABORAHY, 2013). Um convite à reflexão sobre o cotidiano da pesquisa e às possibilidades de transformação do olhar a partir da pesquisa.

fronteira epistemológica a qual se refere Mignolo (2005). A participação se torna também proposição, dando sentido ao diálogo.