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3.4 Equipment used in the thesis work

4.1.1 ipaAlPO 4 -14F

As estratégias de mediação individual e coletiva (EMIC), que, conforme Mendes e Ferreira (2003), objetivam atender à diversidade das contradições presentes no contexto de produção, manifestam-se no presente estudo.

A análise dos dados da Escala de Prazer-Sofrimento no Trabalho indica o uso de estratégias de mediação do sofrimento, já que os professores vivenciam o prazer-sofrimento no trabalho de forma moderada. Identifica-se a preponderância das vivências de sofrimento (esgotamento emocional, M = 3,05; falta de reconhecimento, M = 3,64) sobre as vivências de prazer (realização profissional, M =3,20; liberdade, M =2,69).

A categoria 5 ““No virtual é mais fácil, eu não respondo à mensagem, desligo o computador (...)” ilustra as diversas estratégias de mediação construídas pelos professores visando à eufemização e/ou ressignificação do sofrimento no trabalho. O uso dessas estratégias é o modo construído por esses trabalhadores para lidar com o paradoxo da organização do trabalho e com as dificuldades da ferramenta de aprendizagem. O quadro 6 apresenta as verbalizações e os tipos de estratégias de mediação utilizadas pelos professores.

Quadro 6. Verbalizações que representam as Estratégias de Mediação Individual e Coletiva

EMlC Verbalizações Estratégia Defensiva

(controle)

“Eu me torno muito exigente em cursos a distância.” “(...) é um curso a distância, a gente quer se mostrar presente ao máximo e em alguns momentos em que isso não é possível eu sinto assim uma certa angústia (...).” Estratégia Defensiva

(compensação)

“Tento fazer alongamento e relaxar um pouco (...).” “Então eu comecei intercalar mais o trabalho, mas a natação foi o que me salvou, foi a minha salva-vidas porque me fortaleceu bastante (...).”

“No trabalho, o estresse, eu não fico constantemente em frente a uma máquina. Eu faço uma caminhada (...), eu me distancio um pouco.”

Estratégia Defensiva (racionalização)

“É puxado, mas por outro lado, nem tudo é só sofrimento, (...). Eu acho que a gente encontra também, muita satisfação no trabalho (...). Eu me identifico muito no que faço. O espírito de trabalho é muito bom (...).”

“No virtual é mais fácil, eu não respondo à mensagem, desligo o computador (...).”

“Tentando ficar menos preocupada, menos angustiada, já conversando com os familiares (...).”

Estratégia operatória “No virtual você não tem referência, você fica presa àquelas letrinhas todas iguais (...), eu percebo que é muito importante pra mim ter tudo anotadinho. Se eu não anotar, eu depois não sei com quem eu falei, o que foi combinado (...).”

“Eu não gosto de fazer comunicações tão genéricas, então eu procuro fazer, ao máximo, comunicações

individualizadas.”

“(...) o fórum, ele aparece só o título, assim, com o nome do aluno e a colocação, a data. Aí eu tenho que abrir, colar... copiar e colar no Word.”

Neste estudo, nota-se a presença de estratégias operatórias e defensivas. As estratégias operatórias, conforme Mendes e Ferreira (2003), objetivam responder às exigências externas que estão presentes em um contexto de trabalho, sobretudo no que diz respeito à discrepância entre as tarefas prescritas e as situações reais de trabalho. Observa-se, no contexto investigado, que a prescrição das tarefas não está muito clara. Os professores compreendem que, por ser um trabalho novo, a organização apresenta uma lista de atribuições que precisam atender. Entretanto, a dinâmica do trabalho, que se apresenta por demanda, e ainda, pelas dificuldades com o software de aprendizagem, exige dos professores a utilização de estratégias operatórias para que o trabalho se realize.

A utilização de estratégias operatórias é possível tendo em vista o coletivo de trabalho dos pesquisados funcionar em um clima de cooperação e confiança, conforme destacado no capítulo 6. Pode-se afirmar, portanto, que essas estratégias operatórias estão contribuindo para suavizar os efeitos negativos do contexto de trabalho investigado, como os custos cognitivo, emocional e físico.

Para Ferreira e Mendes (2003), a construção de modos de trabalho para dar conta da discrepância entre o prescrito e o real pode funcionar como mecanismos defensivos de negação do sofrimento, podendo gerar uma não-reação diante das condições de trabalho. Segundo os autores, se não melhoram as condições de trabalho, bem como a organização do trabalho com a finalidade de evitar o uso excessivo de estratégias, no futuro podem aparecer distúrbios graves de saúde.

No presente estudo, especialmente nos dados empíricos da pesquisa qualitativa, identifica-se que as condições de trabalho são favoráveis nos aspectos de remuneração, política de pessoal e ainda no maquinário disponível para a realização do trabalho. Entretanto, a organização de trabalho, com as suas características de trabalho por demanda, rigidez no planejamento das aulas, flexibilidade no

cumprimento dos horários, bem como as dificuldades com a plataforma de aprendizagem, cria a necessidade do emprego habitual de estratégias operatórias.

O uso de estratégias operatórias pelos professores investigados para dar conta do descompasso entre o trabalho prescrito e o trabalho real, que se situa nas múltiplas exigências (física, cognitiva e emocional) está em conformidade com os estudos de Pinho, Abraão e Ferreira (2000) e Gonçalves, Odelius e Ferreira (2000), os quais concluem que, para conseguir realizar a atividade, os trabalhadores constroem um saber próprio. Como ilustra a verbalização: “(...) o fórum, ele aparece só o título, assim, com o nome do aluno e a colocação, a data. Aí eu tenho que abrir, colar (...) copiar e colar no Word”, é evidente a expressão do savoir-faire dos professores para que possam lidar com as dificuldades do ambiente virtual de aprendizagem.

Ferreira e Freire (2001), Freire (2002) e Costa (2003) observam que a discrepância entre o trabalho prescrito e o trabalho real impõe situações de trabalho complexas e extremamente exigentes aos seus operadores, conduzindo-os a se submeterem às diferentes contingências da situação de trabalho. Com base nisso, surge o custo humano no trabalho, o qual é identificado nos professores estudados.

Nesta pesquisa, as estratégias operatórias utilizadas pelos professores têm como função reduzir o custo humano físico, cognitivo e emocional do trabalho, proporcionado pela organização do trabalho e pelas dificuldades com a plataforma de aprendizagem.

Observa-se que os professores utilizam uma variabilidade de estratégias operatórias. Isto potencializa o risco de não conseguirem superar a multiplicidade de contradições do contexto em que trabalham, e de levar ao adoecimento.

As estratégias de mobilização coletiva se expressam por meio do espaço público de discussão e de cooperação (Dejours, Abdoucheli e Jayet (1994). Objetivam eliminar o custo humano negativo do trabalho e ressignificar o sofrimento, para transformar em fonte de prazer o contexto de trabalho. Os dados qualitativos demonstram que os professores não utilizam estratégias de mobilização coletiva, apesar de poderem expressar livremente as suas idéias e trabalharem com confiança e solidariedade. No entanto, o espaço público de discussão não aparece para ressignificar os aspectos que causam sofrimento no trabalho.

Para Dejours, Abdoucheli e Jayet (1994), o coletivo de trabalho favorece a reflexão sobre o trabalho e cria condições para tornar o trabalho sustentável. Corroborando os autores supracitados, Mendes e Morrone (2002) compreendem que, quando há um coletivo de trabalho organizado, os trabalhadores apresentam mais condições de lidar com o sofrimento. No presente estudo, identifica-se que os professores expressam as suas idéias, estabelecem boa relação com os pares, mas não têm um coletivo de trabalho que aja organizadamente para transformar as adversidades do contexto de trabalho.

Tais achados se coadunam com os estudos de Mendes e Morrone (2002), Mendes, Costa e Barros (2003), Rocha (2003) e Vieira (2005), que evidenciam um predomínio de estratégias defensivas no trabalho para suportar o sofrimento, em detrimento das estratégias de mobilização coletiva. Desse modo, identifica-se que o sofrimento é apenas deixado de lado. A estratégia de mobilização subjetiva se encontra no processo de busca de prazer, pois o trabalhador procura, no coletivo, transformar as situações geradoras de sofrimento em situações que gerem prazer.

Diante deste cenário, infere-se que, no atual desenvolvimento do capitalismo, os elementos de cooperação e trabalho em equipe têm sido apropriados pelo capital visando a maior produtividade, e, conseqüentemente, maior exploração dos trabalhadores. Conforme Antunes (2000), a organização do trabalho referenciada nos princípios do toyotismo estimula o trabalho em equipe, para maior apropriação do trabalho. Identifica-se um paradoxo no contexto de trabalho investigado, qual seja: os trabalhadores sentem satisfação por terem uma boa relação com colegas, chefia e clientes, o que favorece a realização do trabalho; em contrapartida, tais relações favorecem uma expropriação mais sofisticada do trabalho humano pelo capital.

Para Sennett (2002), a atual fase do sistema capitalista está ainda mais complexa, uma vez que as formas de exploração da mão-de-obra submetem os trabalhadores a novas estruturas de poder e controle. Com este quadro e, ainda, com o índice de desemprego crescente em todo o mundo, nota-se que os contextos de trabalho não são favoráveis à utilização de estratégias de mobilização, pois estas implicam a ação organizada dos trabalhadores para transformar as situações de trabalho geradoras de sofrimento.

As estratégias defensivas, que são mecanismos de negação e/ou racionalização do sofrimento e do custo humano negativo, gerados pelas contradições e pelos conflitos presentes em um contexto de produção (Ferreira e Mendes, 2003), manifestam-se com maior evidência no presente estudo.

No quadro 6, destacado anteriormente, estão expressas as verbalizações referentes às estratégias defensivas. Neste estudo, identificam-se estratégias defensivas de controle, racionalização e compensação. O controle é observado pela exigência que os professores se impõem para atenter às características da organização do trabalho no ambiente virtual. A distância física dos alunos, característica central da educação a distância, exige que a mediação pedagógica seja feita por meio de ferramentas de comunicação. Diante disto, e da necessidade de estabelecer relações afetivas com os alunos, os professores desenvolvem um controle excessivo como estratégia defensiva para garantir o processo de ensino-aprendizagem.

Barros e Mendes (2003) encontram também estratégia defensiva de controle excessivo no trabalho dos operários terceirizados da construção civil. Para Morrone (2002), o uso de estratégias defensivas favorece o equilíbrio psíquico por possibilitar o enfrentamento das situações motivadoras de sofrimento, assim como a sua eufemização. Entretanto, a utilização de estratégias defensivas não assegura a transformação das situações causadoras de sofrimento em prazer pois, de acordo com Dejours (1993), o trabalhador pode neutralizar o sofrimento ao utilizar estratégias de defesa; em contrapartida, pode desenvolver um processo de alienação e cristalização e, assim, dificultar as transformações nas situações de trabalho.

A estratégia de defesa de racionalização do sofrimento aparece neste estudo. Identifica-se que os professores recorrem a justificativas para explicar situações desagradáveis no trabalho que realizam. Um exemplo deste tipo de estratégia aparece na verbalização “É puxado, mas por outro lado, nem tudo é só

sofrimento, (...). Eu acho que a gente encontra também, muita satisfação no trabalho (...). Eu me identifico muito no que faço. O espírito de trabalho é muito bom (...).” Nota-se que os professores demonstram consciência do sofrimento no trabalho, mas, em função da defesa, constroem justificativa para suportar as situações desconfortáveis.

Os estudos de Mendes (1994, 1996); Linhares (1994); Mendes e Linhares (1996); Mendes, Paz e Barros (2003); e Resende e Mendes (2004) indicam que a estratégia defensiva de racionalização se apresenta pela busca consciente de soluções para os desconfortos apresentados pelo trabalho. Nestas pesquisas observa-se que os comportamentos defensivos são encontrados de maneira diferenciada em cada profissão. Todavia, a estratégia defensiva de racionalização, na forma de justificativa para explicar as situações desagradáveis com o trabalho, é mais comum nas diversas categorias profissionais.

As estratégias de defesa de compensação, as quais se configuram como as alternativas que o trabalhador busca fora do trabalho, ou mesmo no ambiente de trabalho, para lidar com as adversidades do contexto de trabalho, surgem nesta pesquisa com maior evidência. Identifica-se que os professores pesquisados, em virtude, fundamentalmente, do trabalho repetitivo com o computador, buscam suportar as desordens causadas pela máquina realizando atividades físicas que minimizem o custo físico. Além disso, a relação satisfatória com os colegas propicia compensar as dificuldades da organização do trabalho.

Os achados deste estudo se coadunam com as pesquisas de Vieira (2005) e Silva (2004), que identificam a estratégia de defesa de compensação como forma alternativa de lidar com o sofrimento, fora do contexto de trabalho. Porém, identifica-se que a estratégia de compensação se apresenta, também, no próprio contexto trabalho, já que a plataforma de aprendizagem utilizada pelos professores impõe comportamentos defensivos. Fazer pausas ao longo do dia e a relação satisfatória com os colegas são compensações que ajudam a minimizar o sofrimento advindo da organização de trabalho.

Na presente tese, identifica-se que as condições de trabalho favoráveis estão contribuindo para que a estratégia de defesa de compensação seja utilizada com maior freqüência, para suportar o sofrimento proveniente da organização do trabalho. Observa-se que as pesquisas no campo do prazer-sofrimento no trabalho, destacadas neste estudo, apontam, de modo geral, para condições de trabalho desfavoráveis. As condições de trabalho, como remuneração, acesso a equipamentos e ambiente físico são consideradas satisfatórias. Assim, supõe-se que esses elementos conduzem os trabalhadores a suportar o sofrimento no trabalho por

meio de estratégias que busquem compensar as dificuldades do contexto de trabalho.